Por que Minas Gerais é considerado um estado decisivo nas eleições presidenciais? Entenda
Território mineiro reúne características que ajudam a explicar por que pré-candidatos à Presidência do Brasil se preocupam tanto com apoios e palanques no estado


“Quem ganha em Minas, ganha no Brasil”: A cada eleição presidencial, Minas Gerais volta ao centro das articulações políticas nacionais. Candidatos, partidos e lideranças de diferentes campos políticos-ideológicos costumam dedicar atenção especial ao estado, considerado um dos mais importantes do país para a disputa pelo governo federal. Parte dessa explicação está relacionada à própria formação política e cultural mineira.
Para o cientista político Luiz Ademir de Oliveira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e titular da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), a compreensão passa pelo conceito de mineiridade, desenvolvido por diferentes pesquisadores ao longo das últimas décadas.
“A identidade mineira engloba, em síntese, três aspectos: a valorização do passado histórico do estado, a habilidade do político mineiro como uma liderança conciliadora e a participação estratégica de Minas na construção de uma perspectiva de unificação nacional, já que o Estado é visto como o centro político e geográfico do país”, explica. “E, claro, um apego a terra, à paisagem e aos valores locais”, complementa.
Segundo ele, em diferentes momentos da história brasileira, lideranças mineiras ocuparam posições centrais em cenários de crise ou transição política.
“Em momentos estratégicos da política nacional, políticos mineiros, como Tancredo Neves, exerceram papel crucial de unificar o país, buscando conciliar conflitos. O mesmo pode ser aplicado ao caso de Itamar Franco, quando assumiu a Presidência em 1992, depois da renúncia de Fernando Collor de Mello, agregando lideranças dos diferentes espectros ideológicos: centro, direita e centro-esquerda.”, afirma.
Nos últimos anos, porém, esse perfil tradicional passou por mudanças. Luiz Ademir avalia que o ambiente de polarização observado na política brasileira também produziu reflexos em Minas Gerais.
“Desde 2014, com o clima de maior polarização e dos outsiders da política, Minas Gerais passou a ter lideranças que romperam com a ideia de conciliação. Assumiram discursos mais tensionados e, de certa forma, fogem ao modelo do que se entende como a política mineira dos embates mais civilizados”, observa, mencionando o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PDT), e o agora ex-governador e pré-candidato à Presidência do Brasil, Romeu Zema (NOVO), como nomes desse movimento de ascensão dos outsiders – lideranças e candidatos que se apresentam como externos ao sistema político já estabelecido.
“Estado-síntese”
Além dos aspectos históricos, o comportamento eleitoral ajuda a explicar o peso de Minas nas eleições presidenciais. Os resultados das últimas décadas mostram uma forte convergência entre o desempenho dos candidatos no estado e o resultado nacional.
“Com exceção de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso teve uma votação mais expressiva em Minas Gerais se comparado com a nacional, nos outros sete pleitos (1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022), houve uma similaridade muito grande do resultado tanto do primeiro turno quanto do segundo turno no Brasil e em Minas Gerais. Quem ganhou em Minas, ganhou no Brasil”, destaca.
Para o pesquisador, a principal explicação está na diversidade regional do estado. Com 853 municípios e características distintas entre suas regiões (quanto ao viés econômico, social e cultural), Minas acaba refletindo tendências presentes em diferentes partes do país.
“Tem locais com uma cultura que se aproxima mais de São Paulo ou ao Centro-Oeste do país, por exemplo, e tende a ter um voto mais conservador, alinhado à direita, como o Sul de Minas e o Triângulo Mineiro. Já no Norte do Estado, no Vale do Jequitinhonha, há uma grande similaridade com o Nordeste, onde a esquerda sai vitoriosa com uma boa margem de votos, como ocorreu com Lula em 2022”, exemplifica Luiz Ademir.
Ele analisa ainda que “há as regiões que refletem a tendência de equilíbrio, como ocorre no Brasil com um todo, como a Região Metropolitana, a Zona da Mata, que tende a ter uma disputa bem acirrada entre o candidato de direita ou centro-direita versus o candidato de centro-esquerda”.
A disputa pelos palanques
Essa combinação de fatores ajuda a explicar por que Minas Gerais se tornou peça estratégica para projetos nacionais de poder. Na avaliação de Luiz Ademir, vencer no estado tem peso eleitoral, já que o estado é o segundo maior colégio eleitoral do país – atrás, apenas de São Paulo –, mas também simbólico.
“Desde 1998, o estado de Minas Gerais é, de fato, um ‘estado-síntese’, um retrato do eleitorado brasileiro. Vencer em Minas, além de ter uma dimensão simbólica muito forte, também pode ser decisivo em eleições muito acirradas, como a de 2014, a de 2022 e como deve ser a de 2026”, defende o professor.
Por isso, mesmo a mais de um ano das eleições de 2026, os movimentos para a formação de alianças e palanques já começaram e seguem acelerados nesses últimos meses antes do início do período oficial de campanha eleitoral.
Segundo o cientista político, tanto grupos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto lideranças do campo conservador acompanham de perto a construção do cenário mineiro.
“O Estado é muito significativo para dar força para uma candidatura à Presidência. Isso explica a mobilização intensa que estamos vendo em Minas Gerais”, conclui.
Tópicos: Arthur Raposo Gomes / eleições 2026










