Ouça agora

Voto e Cidadania: Escolas estaduais em JF convivem com sobrecarga e cobranças; Estado cita investimentos

Trabalhadores do ensino relatam falta de valorização, problemas de infraestrutura e perda de autonomia; SEE destaca obras, nomeações e reajuste salarial


Por Hugo Netto

13/09/2026 às 06h12

Voto e Cidadania 2026

Tribuna de Minas procurou mais de um quarto das escolas estaduais de Juiz de Fora para fazer uma pergunta simples: “o que mais precisa melhorar em cada unidade?”. Na maior parte dos contatos, porém, a resposta veio antes mesmo de qualquer avaliação sobre ensino, estrutura ou rotina escolar: funcionários e membros de direção disseram que não poderiam falar sem autorização prévia da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG).

Duas escolas não atenderam, e uma estava com o telefone disponibilizado na internet bloqueado. Nos demais contatos, houve desde respostas breves até receio explícito de conversar com a reportagem.

Em uma das escolas, mesmo após a possibilidade de anonimato ser apresentada, um diretor recusou a entrevista. “Mas e se eles te pressionarem, souberem que fui eu que disse? Posso até ser exonerado”, imaginou.

Em outra unidade, na Zona Leste, a direção permitiu a ligação para um aluno de 19 anos. Ele respondeu de bate-pronto: a quadra. “Literalmente não tem quadra. Quando chove, alaga. Tem dez anos nessa situação”, destacou. Segundo ele, os alunos não têm aula de educação física.

Em outra escola, uma supervisora defendeu que, por parte do Estado, não faltava nada. Para ela, o que poderia melhorar era “a participação dos pais na vida escolar das crianças, estar mais presente nos deveres de casa, conferir material escolar”. E fez questão de dizer que se limitaria a isso.

Escolas evitam falar sem autorização da SEE

Em outra unidade, um vice-diretor se mostrou disposto a conversar, mas disse que precisaria de um pedido enviado por e-mail. A solicitação foi encaminhada à Superintendência Regional de Ensino e, depois de circular por diferentes setores, a orientação foi: “Pedimos que respondam ao repórter que todos os assuntos relacionados a entrevistas devem ser tratados diretamente com a Assessoria de Comunicação”.

A assessoria autorizou a entrevista com o diretor da Escola Estadual Padre Frederico Vienken, no Bairro Bonfim, Maycon Eduardo de Oliveira.

“Nossa escola conta com uma boa estrutura e vem buscando melhorar cada dia mais, sempre pensando em oferecer o melhor ambiente possível para nossos alunos”, afirmou.

Como principal desafio, ele apontou a necessidade de ampliar o envolvimento da comunidade.

“A participação das famílias e da comunidade é fundamental para o crescimento e o desenvolvimento dos nossos alunos. Esse é um trabalho que vem sendo desenvolvido gradativamente, por meio de ações e iniciativas que aproximem cada vez mais a escola, as famílias e toda a comunidade”, frisou o gestor escolar.

Sobrecarga chega à sala de aula

Já Luiz Rogério de Paula Júnior, professor do Instituto Estadual de Educação, no Centro, expôs que “o que mais precisa melhorar na escola é o envolvimento de toda a sociedade civil em um compromisso com a educação”.

Segundo ele, professores estão sobrecarregados e cansados, enquanto parte dos alunos se sente pouco motivada a aprender. “Professores estão sobrecarregados e cansados, então elaboram provas que sejam fáceis de serem corrigidas, ainda que isso comprometa a avaliação efetiva do aprendizado do aluno”, revelou.

O professor também apontou que muitos estudantes optam por atividades “que possam ser facilmente copiadas da internet ou da I.A. (inteligência artificial)” e relacionou esse cenário à pouca participação das famílias, muitas vezes também sobrecarregadas por trabalho ou problemas socioeconômicos.

Outro problema, para ele, está na rotina dos gestores, “atulhados por uma burocracia infinita e ineficaz”. “O que efetivamente está sendo feito na escola fica em segundo plano. Não há estratégias sendo pensadas para lidar com os problemas que enfrentamos”, refletiu.

A crítica também se volta ao Estado, que, segundo o professor, “parece se preocupar exclusivamente com dados, números, indicadores, Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e a verba que será recebida no próximo ano”. Para ele, esse modelo acaba alimentando uma “aprovação quase automática” de estudantes.

“Por que um aluno se dedicaria se, ao fim do ano, independente de seu esforço, ele conseguirá passar? Por que um professor elaboraria aulas, projetos e atividades se, ao fim e ao cabo, mesmo o aluno que não as fizer será recompensado com a aprovação?”, perguntou.

Ele citou ainda turmas com média de 35 alunos, baixos salários e infraestrutura precária.

Sindicato aponta pressão por metas e falta de valorização

Tribuna também perguntou à Subsede Regional de Juiz de Fora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE) quais são as principais demandas dos trabalhadores da rede estadual.

Para o sindicato, políticas adotadas nos últimos anos têm comprometido a autonomia das escolas e precarizado as condições de trabalho. Entre os problemas citados estão falta de pessoal, salas numerosas, sobrecarga de tarefas, falta de equipamentos e materiais, problemas de infraestrutura e adoecimento da categoria.

A entidade destacou a situação dos Auxiliares de Serviços da Educação Básica (ASBs), que, segundo o Sind-UTE, convivem com baixos salários, sobrecarga, número insuficiente de servidores e precarização dos vínculos.

“As direções passaram a lidar com cobranças constantes, metas, indicadores e resultados de avaliações externas, criando uma rotina de pressão que nem sempre considera as condições concretas de cada escola e as reais necessidades dos estudantes”, indicou o sindicato.

A entidade também criticou o descumprimento do Piso Salarial Profissional Nacional e a defasagem do plano de carreira, que, segundo o Sind-UTE, têm provocado perda do poder de compra e desestimulado a permanência dos profissionais na rede. O sindicato afirmou ainda que a espera para que títulos de mestrado e doutorado tenham impacto na remuneração pode chegar a cerca de 15 anos.

Por fim, o Sind-UTE questionou o Projeto Mãos Dadas, que, pela resolução estadual, de 2021, transfere da rede estadual para os municípios a gestão dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Em Juiz de Fora, segundo a entidade, o processo se relaciona à redução ou não abertura de matrículas, ao fechamento de turmas e à menor oferta pela rede estadual.

“Essas medidas podem provocar o esvaziamento de escolas e comprometer sua relação histórica com as comunidades”, concluiu o SintUTE.

Estado cita investimentos e concursos

Contactada pela Tribuna, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais informou, por meio de nota, que Juiz de Fora tem 45 escolas estaduais, com 28.305 estudantes e 7.176 servidores. Segundo a pasta, estão previstas ou em andamento 84 intervenções nas unidades, entre reformas, adequações e melhorias estruturais, com investimento de R$ 26,6 milhões.

Após as chuvas de fevereiro, a secretaria relembrou ter repassado R$ 5,5 milhões para intervenções em 17 escolas. Entre 2019 e 2025, segundo a SEE, também foram destinados R$ 37,5 milhões para manutenção e custeio, além de recursos para mobiliário, equipamentos, computadores, conectividade e vigilância eletrônica.

O comunicado prosseguiu: “Com relação à contratação de profissionais, a SEE/MG adota medidas para suprir eventuais necessidades da rede estadual, incluindo a realização de concursos públicos para provimento de cargos efetivos e processos de contratação temporária, conforme a legislação vigente. Atualmente, a Secretaria conta com concurso público vigente e já nomeou mais de 9 mil servidores em 2026”.

Em outro trecho, a Secretaria reafirmou: “No que se refere à valorização dos profissionais da educação, a SEE/MG esclarece que o Estado observa a legislação federal relativa ao Piso Salarial Profissional Nacional do Magistério. Em 2026, as tabelas remuneratórias foram reajustadas em 5,4%, com efeitos a partir de 1º de janeiro, assegurando a adequação ao piso nacional estabelecido para o exercício, considerada a jornada dos profissionais da rede estadual. A evolução funcional dos servidores efetivos também é realizada nos termos da legislação das respectivas carreiras, mediante a concessão de progressões e promoções aos profissionais que preenchem os requisitos legais, com os correspondentes reflexos remuneratórios”.

Em relação às ações voltadas ao ambiente escolar, a secretaria cita o Projeto Socioemocional, o Programa de Convivência Democrática, focado na “promoção da paz no ambiente escolar, que visam reforçar o respeito mútuo entre todos os membros da comunidade escolar e a promoção do clima escolar positivo”, e a atuação do Núcleo de Acolhimento Educacional, formado por psicólogos e assistentes sociais.

Sobre o Projeto Mãos Dadas, criticado pelo Sind-UTE, a SEE mencionou que Juiz de Fora não aderiu à iniciativa.