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Eleições 2026: Candidatos de fora ampliam espaço entre os mais votados em JF

Entre os dez primeiros para deputado estadual e federal, nomes sem domicílio eleitoral na cidade passaram de 49,5 mil para 117,2 mil votos; especialistas analisam avanço


Por Décio Luiz Lima

07/10/2026 às 17h06- Atualizada 07/10/2026 às 17h41

Voto e Cidadania 2026Os candidatos de fora de Juiz de Fora mais que dobraram sua votação entre os nomes mais votados na cidade para deputado estadual e federal. Considerando os dez primeiros colocados em cada uma das duas disputas, eles receberam 117.202 votos em 2026, contra 49.517 em 2022, um aumento de 136,69%. No mesmo recorte, a participação dos candidatos com domicílio eleitoral no município caiu de 85,53% para 71,15% da soma dos votos. O levantamento foi feito pela Tribuna de Minas.

Segundo o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, Mateus de Albuquerque, a projeção nacional de determinadas candidaturas ajuda a entender essa mudança. Ele observa que as lideranças presentes na comunidade enfrentam a concorrência de políticos conhecidos pelas mídias sociais.

Com experiência em mais de 50 campanhas pelo país e formação em marketing político pela Academia Vitorino e Mendonça, Jefferson Rodrigues avalia que a influência das redes on-line não pode ser analisada separadamente dos apoios locais e da identificação ideológica. Para ele, o ambiente digital teve mais peso no resultado de Juiz de Fora do que em 2022, favorecendo inclusive candidatos sem presença constante no município.

queda de votos locais em jf especialistas
Mateus de Albuquerque e Jefferson Rodrigues discutem o avanço de candidatos de fora em JF (Fotos: Acervos pessoais)

Candidatos de fora ganham espaço

Na disputa para deputado federal, entre os dez mais votados, os candidatos com domicílio eleitoral em Juiz de Fora passaram de oito para seis, e sua votação caiu de 144.184 para 122.559 entre 2022 e 2026, respectivamente. Já os nomes de fora passaram de dois para quatro e ampliaram sua votação de 34.891 para 99.465. Com isso, a participação dos candidatos locais recuou de 80,52% para 55,20%, mas continuou majoritária.

Dentro do grupo local, Ana Pimentel (PT) e Delegada Ione (PL) tiveram trajetórias opostas: enquanto a petista passou de 39.476 para 65.475 votos, um aumento de 65,86% entre as duas corridas eleitorais, a segunda recuou de 44.084 para 12.213, uma queda de 72,30%.

Na eleição para deputado estadual, a votação dos candidatos locais entre os dez mais votados aumentou de 148.465 para 166.501, mas sua participação recuou 0,66 ponto percentual, já que os votos dos nomes de fora cresceram proporcionalmente mais. Os locais passaram de nove para oito nesse grupo dos 10 mais votados. Em 2022, Bruno Engler (PL) era o único candidato de fora entre os dez primeiros. Em 2026, Macaé Evaristo (PL) também entrou na lista.

Entre os federais de fora, Nikolas Ferreira (PL) passou de 29.404 para 71.869 votos em Juiz de Fora, mais que dobrando seu resultado de 2022. Mateus relaciona esse desempenho ao “fortalecimento do PL enquanto estrutura partidária, que consegue nacionalizar seus membros”. Segundo o professor e pesquisador da UFJF, a concentração de votos em uma candidatura com esse alcance exige cautela antes de interpretar os números como um enfraquecimento generalizado das lideranças locais.

Apesar da redução da participação dos candidatos locais entre os dez mais votados para deputado federal, Juiz de Fora passou de dois para três representantes eleitos para a Câmara. Mateus interpreta essa ampliação como um sinal de amadurecimento das legendas na organização de suas candidaturas diante da concorrência de nomes com projeção nacional.

Trabalho parlamentar e a identificação ideológica

Ao analisar o resultado, Jefferson chama a atenção para a dificuldade de transformar o trabalho parlamentar em reconhecimento eleitoral. Na avaliação dele, destinar recursos aos municípios não assegura, por si só, que o eleitor conheça ou valorize essa atuação.

“Não basta destinar emendas. Você precisa saber comunicar muito bem essas emendas”, afirma.

Para explicar, o estrategista usa o exemplo fictício de um parlamentar que anuncia o envio de R$ 10 milhões para a saúde de uma cidade. Segundo ele, o valor isolado pode parecer vago e passar despercebido nas redes, sem que o eleitor compreenda o impacto daquele recurso para o município.

Quando emendas, projetos e pautas do mandato não são apresentados de forma compreensível, a identificação ideológica ganha espaço, avalia Jefferson. Nesse cenário, o candidato pode conquistar apoio por defender posições com as quais o eleitor concorda, mesmo sem ter uma atuação próxima da cidade. Para o estrategista, essa identificação pode se tornar mais decisiva do que um trabalho parlamentar que não foi bem comunicado.

Na avaliação dele, esse efeito se intensifica perto da votação, quando resta pouco tempo para comparar a atuação dos concorrentes. “O eleitor decide esse voto para deputado ali na última semana”, diz. Jefferson considera pouco provável que, nessa etapa, a maioria busque o histórico de recursos enviados ou de projetos defendidos por cada candidato. Assim, posições ideológicas conhecidas podem pesar mais na escolha do que realizações pouco divulgadas.

Para Mateus, o resultado das urnas também precisa ser distinguido da qualidade da representação: ter base eleitoral na cidade ou conquistar uma votação expressiva não garante que o deputado atenda melhor às demandas locais. Além da destinação de emendas, ele aponta a participação na vida cultural e esportiva, a escuta da comunidade e a disposição para levar suas necessidades ao debate político como critérios para avaliar esse vínculo.

Ao tratar da atuação após a eleição, o professor destaca a “capacidade de articular com pessoas de fora do seu campo político”, inclusive parlamentares da mesma região. Em sua avaliação, representar Juiz de Fora exige construir esse diálogo em torno das demandas do município, uma tarefa que pode ser cumprida tanto por quem tem base na cidade quanto por quem estabelece esse compromisso ao longo do mandato.

Confira os dez mais votados em Juiz de Fora

Entre os dez candidatos mais votados na cidade em 2026, seis conquistaram uma vaga na Assembleia Legislativa e sete foram eleitos para a Câmara dos Deputados. Para os demais, a campanha pode representar uma oportunidade de fortalecer vínculos com o eleitorado, conforme analisou o professor Luiz Ademir de Oliveira, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFJF, em entrevista à Tribuna de Minas publicada em abril.

“Uma candidatura agora em 2026, mesmo que não resulte em ganho eleitoral (ou seja, a obtenção, de fato, do cargo pretendido), pode resultar em um ganho político: esses (então) pré-candidatos, ao longo do período eleitoral, estarão nas ruas e em reuniões com a população, já visando a eleição municipal de 2028”, avaliou à época.

As listas abaixo apresentam os dez mais votados para cada cargo, em ordem de votação, nas urnas em Juiz de Fora:

Deputado estadual

  • Roberta Lopes (PL): 35.736 votos
  • Betão (PT): 28.020 votos
  • Noraldino Júnior (PSB): 26.165 votos
  • Laiz Perrut (PT): 21.246 votos
  • Tiago Bonecão (Democrata): 19.564 votos
  • Delegada Sheila (PL): 14.928 votos
  • Antônio Aguiar (União Brasil): 11.916 votos
  • Bruno Engler (PL): 9.512 votos 
  • Ana do P. Frederico (PP): 8.926 votos
  • Macaé Evaristo (PT): 8.225 votos 

Deputado federal

  • Nikolas Ferreira (PL): 71.869 votos 
  • Ana Pimentel (PT): 65.475 votos 
  • Sargento Mello Casal (PL): 19.515 votos 
  • Ana Elisa (PT): 18.930 votos
  • Kátia Dias (PSB): 14.456 votos 
  • Delegada Ione (PL): 12.213 votos 
  • Charlles Evangelista (PL): 7.335 votos 
  • Duda Salabert (PSOL): 5.183 votos 
  • Wadson Ribeiro (PCdoB): 3.565 votos 
  • Gilberto Abramo (Republicanos): 3.483 votos

*Estagiário sob supervisão do  editor Arthur Raposo Gomes.