Encontro final entre candidatos tem alfinetadas, mas tom geral é ameno
Margarida Salomão e Wilson Rezato se enfrentam novamente, agora nas urnas, neste domingo
As últimas cartas foram colocadas na mesa e, agora, são questões de horas para Juiz de Fora conhecer o resultado da rodada final do processo eleitoral que marca a sucessão do prefeito Antônio Almas (PSDB). No fim da noite desta sexta-feira (27), os dois adversários que disputam o segundo turno das eleições municipais tiveram a última batalha da guerra pelo voto do eleitorado local. Em debate realizado pela TV Integração, a deputada federal Margarida Salomão (PT) e o empresário Wilson Rezato (PSB) colocaram frente a frente suas visões do mundo, ideias e propostas para a cidade.
Quem esperava uma cartada final, ficou na expectativa. Não houve “bala de prata” ou “ás na manga” por parte de nenhum dos dois candidatos, e o embate seguiu o tom já visto em enfrentamentos anteriores, como o realizado na última quinta-feira pelo Grupo Solar de Comunicação e pela UniAcademia.
Aliás, o tom do debate final entre os candidatos foi até mais ameno que o visto na última quinta-feira, quando, ao contrário do último encontro entre os dois candidatos, Wilson fez menos questionamentos sobre o partido de sua adversária. Os ataques de parte a parte existiram, porém, de forma mais sutil, o que propiciou um maior enfrentamento propositivo entre as duas candidaturas. Uma vez mais, as duas candidaturas se apresentaram como uma oportunidade de ruptura com o modelo de gestão visto no comando da cidade.
Neste caso, Wilson fez críticas recorrentes às últimas duas administrações em que o ex-prefeito Bruno Siqueira (MDB) e o atual prefeito Antônio Almas (PSDB) comandaram a cidade, enquanto Margarida defendeu que é preciso superar o modelo adotado no Município nas últimas quatro décadas em que os juiz-foranos sempre elegeram os grupos políticos encabeçados pelos ex-prefeitos Tarcísio Delgado, Custódio Mattos, Carlos Alberto Bejani, além de Bruno Siqueira. Desta forma, Wilson e Margarida fizeram acusações mútuas de que a candidatura adversária representaria a continuidade.
Outro ponto divergente entre as duas propostas que, uma vez mais, ficou evidente é a forma distinta como os dois candidatos pretendem conduzir a Administração municipal. Margarida Salomão insistiu na tecla de que pretende fomentar a participação popular nas decisões de Governo. Por sua vez, Wilson Rezato afirmou que, caso eleito, caberá a ele as principais decisões administrativas, afirmando que não pretende terceirizar as funções do prefeito.
Propostas para o combate ao racismo
Após a realização de sorteio, coube a Margarida a primeira pergunta. A candidata fez menção ao Dia da Consciência Negra, comemorada há uma semana e questionou o adversário sobre quais seriam suas propostas para combater o racismo no âmbito municipal.
Sobre o tema, Wilson afirmou que, caso chegue à Prefeitura, seu governo tratará a todos juiz-foranos de forma igualitária, dizendo ainda que o que estiver ao alcance da Prefeitura será feito para que não seja admitido qualquer tipo de discriminação.
Em sua réplica, Margarida que, caso eleita, pretende criar um órgão específico para o combate ao racismo e garantir à população negra o acesso à cidade.
Intervenções nas periferias e áreas rurais
Em seu primeiro questionamento, Wilson perguntou à adversária sobre quais soluções ela apresenta para situações em que as realizações de obras se mostram necessária em áreas periféricas e rurais.
Para equacionar tais gargalos, Margarida voltou a defender a participação popular em um modelo de planejamento territorializado e defendeu que as comunidades destas áreas são capazes de ajudar a identificar os problemas e também de sugerir soluções.
Na réplica, Wilson afirmou que pretende dar início a algumas obras em bairros a partir de abril do ano que vem e que tem acordo com os senadores mineiros Rodrigo Pacheco (DEM) e Carlos Viana (PSD) para a destinação de R$ 5 milhões em emendas parlamentares para tais intervenções.
Soluções para ordenamento urbano e melhora da infraestrutura
A primeira troca mais ácida entre os candidatos se deu quando Margarida questionou a Wilson sobre o ordenamento urbano e os impactos provocados por grandes empreendimentos imobiliários na infraestrutura urbana.
A partir de então, Wilson iniciou um sistemático ataque às duas últimas gestões municipais, considerando que faltou a cidade um melhor planejamento para que a infraestrutura fosse bem aproveitada de forma direcionada.
Por sua vez, Margarida apontou que é necessário um aperfeiçoamento na legislação urbana de Juiz de Fora, de forma a colocar contrapartidas para que os grandes empreendimentos arquem com parte das intervenções necessárias para minimizar os impactos de grandes obras.
Reforma de policlínica e abertura do Hospital João Penido
No fechamento do primeiro bloco do debate da TV Integração, Wilson perguntou à Margarida sobre seus planos para dois aparelhos de saúde da cidade: a Policlínica de Benfica, que passa por reformas, o Hospital João Penido, gerido pelo Governo do Estado por meio da Fhemig.
A candidata afirmou que, como deputada federal, indicou recursos para a reforma da policlínica e afirmou que a obra é importante para a população da Zona Norte. Sobre o João Penido, disse que pretende abrir as portas de unidade para o atendimento de emergência pelo SUS, que é de gestão do Município.
Em sua réplica, Wilson tomou caminho similar. Disse que quer trabalhar para que a reforma da Policlínica de Benfica seja entregue em março. Com relação ao João Penido, sinalizou a intenção de conversar pessoalmente com o governador Romeu Zema (Novo) também com o intuito de abrir as portas do João Penido para o atendimento via SUS.
Retomada de atividades culturais e eventos
O segundo bloco do debate foi de temas sorteados. Na primeira interação, coube a Wilson questionar sua adversária sobre seus projetos para a cultura e o setor de eventos. Margarida considerou que os segmentos têm um peso relevante para a economia do país e seria a fonte de renda para cerca de sete mil profissionais juiz-foranos.
Com o setor fortemente comprometido pela pandemia da Covid-19, a deputada sinalizou, por exemplo, a dispensa do pagamento de taxa por parte dos produtores culturais para a utilização de espaços públicos municipais e fomento de ações culturais em áreas periféricas, com a possibilidade de concessão de bolsas para produtores locais.
Wilson seguiu a mesma linha e também sinalizou a suspensão de cobrança de tais taxas, defendendo a necessidade da definição de protocolos para a retomada das atividades no setor.
Relação com o governo estadual e federal
Em seguida, o tema sorteado foi a relação do Município com os governos federal e estadual. Margarida encaminhou a pergunta para Wilson que afirmou ser este o grande diferencial entre as duas candidaturas. Ressaltou uma vez mais suas relações com senadores mineiros e disse que pretende colocar pessoas certas nos locais certos para o desenvolvimento de projetos para buscar recursos originários do governo federal.
Parlamentar em seu terceiro mandato, Margarida considerou que grande parte destes recursos já são transferências obrigatórias. Disse ainda ter bom trânsito na Câmara e no Senado federal e defende que as diferentes esferas de poder precisam atuar de forma republicana, a despeito dos grupos políticos que estejam exercendo os mandatos.
Caminhos para volta das aulas presenciais
Os problemas na rede municipal de educação trazidos pela pandemia da Covid-19 também foi um dos temas sorteados. Wilson questionou à Margarida sobre a necessidade de uma solução e da definição de protocolos para as atividades de creches e escolas.
A candidata afirmou que as escolas são áreas de aglomeração e que as crianças interagem muito entre si. Sobre esse prisma, considerou que a retomada das atividades presenciais só deve acontecer com o advento da vacinação, de forma a evitar o recrudescimento de uma nova onda de contágio. Até lá, defendeu que sejam buscadas novas soluções pedagógicas.
Wilson destacou os anseios dos pais por uma solução, por não terem com quem deixar seus filhos.
Geração de emprego e renda e manutenção de postos de trabalho
O último tema sorteado foi a geração de emprego e renda. Após pergunta feita por Margarida, Wilson disse que caberá a ele as decisões administrativas caso eleito, fazendo críticas abertas ao comitê formado para o enfrentamento à pandemia da Covid-19 que tem orientado à Prefeitura sobre caminhos a serem seguidos para reduzir o contágio e mortes provocadas pelo coronavírus. Ressaltou que sabe administrar e que quer trabalhar para gerar empregos e atrair novos investimentos para a cidade.
Já Margarida defendeu a criação de programas específicos para aqueles que trabalham por conta própria e as microempresas, de forma a facilitar o acesso ao crédito e a qualificação profissional destes setores.
Projetos para a Defesa Civil
Quem esperava um terceiro bloco mais acalorado se decepcionou. O tom seguiu o mesmo das interações anteriores. Margarida questionou Wilson sobre seus planos para a Defesa Civil e para minimizar problemas como o deslizamento de encostas.
O empresário afirmou que pretende inverter a atual orientação e colocar no comando da pasta alguém que tenha experiência com os trabalhos realizados pelos bombeiros militares, além da definição de um novo planejamento para antever incidentes.
Na réplica, Margarida disse que pretende equipar o órgão com material humano e estrutura, além de estabelecer convênio com instituições de Ensino Superior para o monitoramento das áreas de risco.
Coordenação de equipes da PJF nas ruas
Wilson perguntou para a adversária o que ela faria para otimizar os profissionais de equipes da Prefeitura que atuam nas ruas, como profissionais da Cesama e da Empav, por exemplo.
Margarida reforçou entendimento de que é necessário um maior planejamento para unificar as ações e sugeriu a recriação de um instituto voltado para o planejamento da cidade, nos moldes do antigo Ipplan.
Já seu adversário considerou que as equipes de rua precisam ser melhor orientadas e uma mudança de rota com relação às práticas adotadas na Prefeitura nos últimos oito anos.
Combate ao rombo nas contas públicas
Margarida perguntou ainda como o adversário atuaria para equacionar o rombo fiscal do Município, agora estimado em R$ 70 milhões. A candidata atacou o adversário, afirmando que o grupo empresarial dele havia optado pelo corte de pessoal para contornar a crise financeira.
Wilson admitiu a redução do quadro de suas empresas, mas disse que as saídas não se deram por cortes, mas por aposentadorias e desligamentos voluntários. Neste sentido, a atual crise financeira impediu as reposições.
Para combater o rombo nas contas municipais, Wilson sinalizou enxugamento de cargos comissionados; Margarida, a otimização da arrecadação e a informatização de procedimentos.
Ações para fomento do desenvolvimento econômico
Em sua última pergunta, Wilson contra-atacou e indagou a deputada federal sobre qual avaliação ela faz sobre o desempenho da secretaria responsável pelo desenvolvimento econômico da cidade nos últimos oito anos.
O questionamento mirou o ex-secretário da pasta, Rômulo Veiga, que, hoje, atua na equipe de comunicação da campanha de Margarida. A parlamentar ressaltou que Rômulo faz um bom trabalho em sua campanha e que, no período de oito anos citados por seu adversário, ele comandou a pasta por um período curto – pouco menos de um ano e meio -, citando outros nomes que passaram pela chefia da secretaria, como o caso do empresário João Matos.
Sobre o tema, a deputada ainda defendeu que, para além do hiato apontado por Wilson, há algumas décadas, a cidade carece de um novo modelo de desenvolvimento econômico que responda às vocações locais, como a prestação de serviço nas áreas de cultura, saúde e educação.
Wilson voltou a atacar o ex-prefeito Bruno Siqueira e disse que o emedebista não deixava as pessoas agirem no comando da pasta responsável pelo desenvolvimento econômico e indicou que pretende indicar um especialista para a área, no caso, um empresário.
Candidatos mostram confiança em bom desempenho nas urnas
Ao final do encontro, os dois candidatos ainda concederam uma entrevista coletiva a órgãos de imprensa de Juiz de Fora. Com relação ao recente crescimento dos indicadores da Covid-19 na cidade, Wilson Rezato considerou que até o dia 31 de dezembro, as decisões cabem a atual Administração. Caso eleito, disse que, a partir de janeiro, escutará as recomendações de especialistas e que caberá a ele as decisões administrativas. Segunda a ser entrevistada, Margarida Salomão disse que é necessário responsabilidade sanitária e compromisso com a vida. A deputada também afirmou que pretende ter responsabilidade econômica, com a renda e o trabalho.
Tom ácido
Sobre o tom mais ácido da campanha na reta final que antecede o segundo turno, Wilson afirmou que as declarações críticas ao partido da adversária, em especial às gestões dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT) e do ex-governador Fernando Pimentel (PT) foi apenas uma lembrança aos eleitores. Para ele, a adversária evitou falar sobre o partido durante a campanha.
Sobre o tema, Margarida Salomão disse que o diálogo democrático presume respeito e que não faz sentido tratar adversário como inimigo, pontuando que diferenças de opinião irão sempre existir. Com relação às críticas do adversário, considerou a ação previsível, uma vez que as duas candidaturas têm pesquisas internas, e quem aparece atrás sempre busca uma polarização como estratégia de crescimento.
Os dois candidatos também falaram sobre a incidência de possíveis práticas de ilícitos eleitorais na reta final, em que já surgiram informações de que uma falsa pesquisa Ibope estaria sendo realizada por meio de ligações telefônicas recebidas por eleitores locais. Wilson destacou que sua campanha não tem relação com o Ibope e que, durante o primeiro turno, foi alvo de muitos ataques. Por sua vez, Margarida disse que mantém seu departamento jurídico mobilizado para impedir que situações estranhas interfiram no resultado das eleições.
Expectativas
Por fim, sobre as expectativas com relação ao resultado das urnas, Wilson afirmou que a campanha se aproxima do fim e que resta aos candidatos a possibilidade caminhar pelas ruas e conversar com os leitores. O empresário disse confiar na urna eletrônica e espera que, no início da noite de domingo, a eleição tomará um novo rumo, a despeito de sua adversária ter fechado o primeiro turno com uma vantagem de cerca de 42 mil votos. Wilson ressaltou ainda que o segundo turno é uma outra eleição. Sobre a votação, Margarida se mostrou confiante, mas pontuou que o jogo só termina ao apito final, convocando a militância e apoiadores a permanecerem mobilizados até o resultado final.











