‘Se não houver pressão popular, as coisas não andam’
Dois jovens. Duas trajetórias distintas, mas uma visão em comum: a política pode ser mudada a partir do diálogo e da participação popular. Participantes de diferentes edições do programa Parlamento Jovem, da Câmara Municipal, Pedro Cuco, de 22 anos, e Ricardo Borges, de 17, expressam o que pensam sobre a política e a sociedade em entrevista à Tribuna. Eles falam sobre como o processo e a burocracia institucional podem se tornar complicadores para a execução das políticas públicas, ao mesmo tempo em que a pressão popular e a mobilização em grupo se fazem necessárias para levar adiante temas de interesse, como mobilidade urbana, meio ambiente, saúde, entre outros. Para eles, se não houver pressão popular nas decisões, os processos ficam estagnados.
Pedro hoje é estudante de Direito da UFJF. Participou do programa na sua primeira edição, em 2010, quando o grupo de estudantes pôde desenvolver propostas de projetos de leis sobre meio ambiente, olhando, em especial, a situação dos catadores de material reciclável. Já Ricardo é aluno do ensino médio na Escola Estadual Marechal Mascarenhas de Morais. Ele finalizou sua participação no programa em novembro passado, quando apresentaram propostas sobre mobilidade urbana. Ambos são o exemplo de que a motivação pelo aprendizado na política, principalmente na juventude, pode formar cidadãos mais empenhados tanto na garantia dos direitos, quanto na ciência dos seus deveres.
Analisando o perfil das instituições, eles avaliam que a atuação engessada e o jogo de interesses nem sempre favorecem a concretização de projetos. No entanto, a pressão popular pode auxiliar a destravar tais gargalos. “Quando eu digo instituição, já existe uma burocracia a se seguir. E isso é o primeiro passo que a gente tem que se formatar. Percebo que se não houver pressão popular para fazer as coisas andarem, as coisas não andam. Tenho muitas dúvidas sobre a aprovação de um monte de lei, sem a preocupação de ver essas leis cumpridas. O Executivo tem que responder”, afirma Cuco.
Pensando sobre a conjuntura nacional, os dois estudantes foram convidados a debater temas polêmicos que geraram uma ebulição social: a votação da PEC 55, que congelou os gastos públicos do Governo federal pelos próximos 20 anos; a reforma do ensino médio proposta pela Medida Provisória 746; e o projeto de lei anticorrupção, criado a partir da ação do Ministério Público Federal.

Estudante secundarista e integrante de uma das ocupações estudantis contra a reforma, Ricardo afirma que a proposta necessita ser mais discutida. “A gente precisa de uma reforma, de mudar a estratégia de ensino, mas o órgão responsável não está preocupado com o que o adolescente precisa. Querem propor apenas o que lhes interessa. A reforma irá reduzir muito isso, não vai proporcionar uma visão ampla para poder melhorar o nosso conhecimento”, afirma.
Já Pedro analisa a PEC do Teto pensando sobre fatores que precisariam ser levados em conta. “Parece que a gente só tem este caminho a seguir. E a gente não tem só um caminho. Ela é apenas um dos caminhos, que vai nos levar a um destino diferente daquele se a gente optasse por outras saídas. Nesse ponto, acredito que a medida vai aprofundar o problema de subfinanciamento da saúde e da educação que a gente tem. Fora que o reajuste da inflação nem sempre é feito pela inflação mesmo. Entre outros fatores que deveriam ter ser analisados”, afirma.
Processo político e consciência social
Tema que levou ao grande descrédito das instituições, a corrupção também foi debatida pelos estudantes durante a entrevista. Questionados sobre a lei proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) que pretende estabelecer medidas punitivas, os estudantes manifestam cautela. “Tem que haver uma mudança de cultura. Tenho dúvidas se, se sairmos aprovando lei a torto e a direito, vamos conseguir diminuir ou acabar com a corrupção da forma como ela está colocada hoje. O que eu chamo a atenção é de que em nome do combate à corrupção, a gente não pode abrir mão de certos direitos e garantias, criando uma mega estrutura de poder que depois vai acabar se corrompendo também”, afirma Pedro. Ricardo acredita que o cenário pode não mudar. “A corrupção sempre vai existir, por debaixo dos panos. Por mais que se tenha leis, nem sempre são seguidas.”

Diante da conjuntura turbulenta, os jovens falam sobre como a participação deles no processo político é fundamental para estimular a consciência social. “A primeira mudança foi despertar a minha atenção para a questão do meio ambiente e dos catadores de material reciclável, que eu tinha pouco conhecimento. Isso mudou a forma como passei a olhar as coisas, inclusive com o poder público, a organização por meio de associações. A gente simular isso mostra a visão de dentro, que a gente não tem quando assiste à televisão ou lê uma notícia”, afirma Pedro Cuco. “Na adolescência, a gente sempre vê a política como uma coisa negativa. E o Parlamento nos permite ver de dentro, de cima para baixo como tudo acontece. Mas não adianta só aprovar uma lei. Como população, a gente tem que cobrar dos órgãos públicos que sejam aplicadas.”









