Comissão quer documentos sobre Dilma

Minha arcada girou para o lado, me causando problemas até hoje, disse Dilma
A Comissão da Verdade nomeada pela presidente Dilma Rousseff para apurar fatos ocorridos durante o período da ditadura militar no Brasil quer acesso ao depoimento no qual a própria Dilma relata torturas sofridas por ela em carceragens de Juiz de Fora. A presidente foi torturada como presa política no início da década de 1970. Na sua histórica militância política durante o regime militar, constava, até então, crueldades sofridas apenas nos porões da ditadura no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em um relato inédito, divulgado pelo jornal "Estado de Minas" no último domingo, a presidente narra detalhes dos castigos a que foi submetida também em Minas. O depoimento foi prestado por Dilma ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas (Conedh-MG), em 2001, durante a gestão de Itamar Franco no Governo de Minas, quando ela ainda ocupava o cargo de secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. O documento faz parte de um acervo de mais de 700 processos criados pelo órgão para indenizar presos políticos mineiros em uma iniciativa pioneira no país à época.
As sessões de tortura foram motivadas por 22 bilhetes de Ângelo Pezzuti, estudante de Medicina que militou com Dilma no Comando de Libertação Nacional (Colina) e na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), morto em um acidente de moto no exílio em Paria em 1975. Nas mensagens, escritas sob o codinome "Gabriel", ele tramava a própria fuga e a de outros companheiros de um presídio em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, e envolvia a companheira "Estela", um dos codinomes de Dilma. Os bilhetes foram interceptados por agentes do Governo, e Dilma foi interrogada na Operação Bandeirantes (Oban), em São Paulo e, posteriormente, transferida para Juiz de Fora, onde voltou a ser torturada. "Eu não tinha a menor ideia do que se tratava. Desconhecia as tentativas de fuga de Pezzuti, mas eles supuseram que se tratava de uma mentira", disse Dilma.
No depoimento, a presidente relata uma série de agressões sofridas em Minas, que incluem sessões no pau-de-arara, eletrochoques e socos e chutes que chegaram a causar deformação na arcada dentária de Dilma. "Minha arcada girou para o lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu", relatou. Ela conta ainda que os torturadores ameaçaram agredi-la no rosto, dizendo que, depois deformada, "ninguém ia querê-la". As sequelas no maxilar só teriam sido corrigidas em 2002 por meio de cirurgias. Dilma ficou sozinha a maior parte do tempo no cárcere em Juiz de Fora. A solidão, segundo seu relato, fazia parte da tortura. "O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida."
A presidente relata no documento visitas esporádicas da mãe, mas nunca após ter passado por sessões de tortura. "As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim." A reportagem do "Estado de Minas" revela também detalhes do dia a dia na cadeia, como os bilhetes que trocava com o ex-marido, Carlos Araújo, escritos em pequenos pedaços de papel envoltos em durex e escondidos pelos presos nos dentes. O dentista, também preso político, se encarregava de intermediar o leva-e-traz. Dilma teria resistido em fazer o relato, tendo resolvido falar apenas no final. No seu caso, não havia necessidade do depoimento para fins de indenização, porque já havia provas da tortura que sofrera. Ainda assim, ela entendeu que era importante registrar os fatos para a história. No ano seguinte, foi indenizada em R$ 30 mil.
Pimentel e Nilmário também estiveram presos em JF
Dois pesquisadores que apoiam os trabalhos da Comissão da Verdade, instalada no mês passado, devem ir à sede do Conselho Estadual de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), ainda esta semana, para analisar a documentação. A historiadora Heloísa Starling, assessora do grupo, explicou que o trabalho será feito por dois pesquisadores que trabalham com ela no Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "A Comissão vai mandar um grupo de pesquisadores para Belo Horizonte para se inteirar do depoimento, analisar a natureza dos documentos e também ter acesso a relatos de outras pessoas."
O diretor de Promoção dos Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, Gabriel dos Santos Rocha (Biel, PT), que chegou a acompanhar os trabalhos do Conedh-MG quando era deputado, disse que a revelação do depoimento devolve importância do órgão que foi "deixado de lado após o Governo Itamar Franco." Segundo ele, Juiz de Fora terá uma papel relevante em todo processo a ser conduzido pela Comissão da Verdade. "Muitas histórias de muitos personagens daquele período passaram por Juiz de Fora." Além de Dilma, o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, e o ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda também estiveram presos no município na mesma época.
O ministro da Defesa, Celso Amorim, recusou-se ontem a comentar a divulgação do relato que a presidente Dilma fez ao Conedh-MG. Em visita ao espaço Humanidade 2012, no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, Amorim limitou-se a afirmar que caberia a cada cidadão formar sua opinião sobre o assunto. "Ah, gente, eu não vou comentar isso. Se ela própria não comentou, como é que eu iria comentar?", questionou, irritado, logo após de ser abordado por jornalistas. Sobre o envio do depoimento à Comissão da Verdade, Amorim evitou fazer comentários. "A Comissão da Verdade é para justamente restabelecer a verdade e permitir que as pessoas conheçam os fatos, sob todos os ângulos.", disse o ministro.









