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Ministério da Justiça vai apurar caso


Por MICHELE MEIRELLES E RENATO SALLES

18/02/2016 às 07h00

Deputados do PCdoB se reúnem com ministro Eduardo Cardozo para solicitar averiguação (Richard Silva/PCdoB na Câmara)

Deputados do PCdoB se reúnem com ministro Eduardo Cardozo para solicitar averiguação (Richard Silva/PCdoB na Câmara)

Moisés se filiou ao PCdoB em dezembro (Handerson Silveira)

Moisés se filiou ao PCdoB em dezembro (Handerson Silveira)

A bancada do PCdoB na Câmara dos Deputados se reuniu ontem com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e com representantes do comando da Polícia Federal (PF) para solicitar que os órgãos conduzam investigações sobre possíveis ligações entre cinco crimes ocorridos em estados distintos envolvendo pessoas ligadas ao partido. Todos os incidentes foram registrados nos últimos 15 dias, e os parlamentares temem uma possível conexão, de viés político, entre as ocorrências. Entre os incidentes utilizados para embasar o pleito está o assassinato de Moisés da Silva Gumiere, prefeito de Chiador, cidade na Zona da Mata mineira, no último dia 9. O Ministério da Justiça se comprometeu a averiguar possíveis ligações entre os delitos.

“O Ministério da Justiça, através da Polícia Federal, fará tudo que é possível no âmbito de sua competência para apurar situações que foram colocadas. Não podemos ter situações de impunidade em casos como esses”, afirmou o ministro José Eduardo Cardozo, após o encontro. Presidente estadual do PCdoB, o deputado federal juiz-forano Wadson Ribeiro (PCdoB-MG) foi destacado pela bancada comunista para acompanhar as apurações e integrar uma possível força-tarefa a ser instaurada. “Podem ser situações fortuitas, mas nos chamou bastante a atenção. São quatro crimes que ocorreram em um espaço de 15 dias. Não podemos pecar por omissão. Cabe à Polícia Federal identificar se são casos isolados ou não.”

O primeiro da série de crimes envolvendo lideranças do PCdoB recentemente ocorreu no dia 25 de janeiro, quando o escritório de apoio à atividade parlamentar da deputada federal Jô Moraes (PCdoB-MG), em Belo Horizonte, foi arrombado, situação que se repetiu no último dia 9. Houve furtos de objetos, entre eles computadores. Situação semelhante foi registrada no último dia 4, quando o gabinete da deputada federal Alice Portugal (PCdoB-PA), que é pré-candidata à Prefeitura de Salvador, também teve seu gabinete na capital baiana violado. “Nesse caso, chama a atenção o fato de não ter ocorrido furtos”, ressalta Wadson.

Entre os incidentes mais graves aparecem dois assassinatos, que, para os parlamentares do PCdoB, apresentam características de execução. O primeiro deles ocorreu no último dia 9, quando o prefeito de Chiador foi morto com cinco tiros quando estava em um clube do município da Zona da Mata. Outro homicídio que vitimou uma liderança da sigla foi registrado na última sexta-feira, quando o presidente do diretório municipal de São Domingos do Araguaia (PA) foi baleado e não resistiu aos ferimentos. Há semelhanças entre os dois crimes, como o fato de, nas duas ocasiões, os disparos terem sido efetuados por duas pessoas que usaram de motocicletas para chegar e evadir dos locais em que ocorreram os atentados.

“No caso de São Domingos do Araguaia, nosso partido tem tradição na luta pela reforma agrária. Não temos como afirmar que há conexões, mas não podemos descartar motivações políticas. Por isso, estamos pedindo ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal para apurar possíveis conexões”, resumiu a deputada federal Luciana Santos (PCdoB-PE), presidente nacional da sigla. Parlamentares comunistas e o ministro da Justiça, entretanto, reforçam que os trabalhos que possam vir a ser conduzidos pela Polícia Federal devem respeitar as competências regionais das demais forças policiais.

Delegado começa a ouvir testemunhas

O delegado Felipe Fonseca, responsável pelo inquérito que investiga a morte do prefeito de Chiador, informou que, mesmo com a prisão do suspeito de ser mandante do assassinato, não está descartada a hipótese de uma motivação política para o crime. “Até agora, o que temos de palpável é a questão da dívida dos notebooks, que em si já não é uma motivação pessoal, já que o débito era da prefeitura com o homem preso. Vamos bater até o final nesta hipótese política, para que não fique nenhuma falha na investigação”, disse.

Segundo ele, ontem teve início uma sequência de oitivas de testemunhas e familiares do político. “Na manhã de hoje (ontem), ouvi pessoas em Mar de Espanha, e, na parte da tarde, seguimos para Chiador para começar a colher o depoimento de familiares e testemunhas importantes, entre elas, funcionários da prefeitura”, disse. O delegado afirmou que um dos pontos a serem esclarecidos é como ocorreu a transação comercial da compra dos notebooks.

Para o deputado federal Wadson Ribeiro (PCdoB), as investigações merecem ser aprofundadas. “É estranho que alguém pague R$ 12 mil (para matar o prefeito) por conta de um dívida de R$ 17 mil”, avalia o parlamentar, que, recentemente, encontrou-se com o prefeito de Chiador no clube em que Moisés foi assassinado. Moisés se filiou ao PCdoB em dezembro do ano passado. “Não podemos acreditar que o país possa estar voltando para uma período de tamanha intolerância política. Mas, por conta dos ocorridos, há uma certa preocupação. Por isso, as apurações são necessárias.”

Histórico

Na última terça-feira, policiais civis prenderam um homem de 30 anos suspeito de mandar matar Moisés da Silva Gumiere. Ele foi detido em Chiador, em virtude de um mandado de prisão em aberto. Há cerca de dois anos, o homem teria vendido à Prefeitura notebooks avaliados em R$17 mil, mas não teria recebido pelos produtos. Ele teria pago a um homem o valor de R$12 mil para que o político fosse morto.

Anteriormente, a Polícia Civil já havia detido dois jovens apontados como executores e o dono da moto utilizada na execução. O suspeito que teria recebido R$12 mil, entretanto, está foragido.