‘Saio sem mágoa’
A 15 dias do fim de seu segundo mandato à frente da Administração Municipal, o prefeito Custódio Mattos (PSDB) diz que deixa o cargo sem mágoas, apesar de admitir que ainda não digeriu completamente a derrota nas urnas. "Quero tempo para assentar tudo, entender esse descompasso, esse fosso entre o mérito do que fizemos e o resultado da eleição." O chefe do Executivo afirma que vai deixar a Prefeitura em boas condições para o sucessor Bruno Siqueira (PMDB), "que receberá, de início, garantia de recursos superiores a todo o investimento já feito nesta gestão". Em entrevista à equipe de Política da Tribuna, Custódio falou sobre os desafios, as conquistas, o que fará daqui para frente e abordou a situação atual do seu partido. A aposta em Aécio Neves para candidato a presidente surge também como incentivo para um possível retorno às eleições. Sem arrependimentos, o prefeito citou o romancista norte-americano Philip Roth – em referência ao boxeador Joe Louis – para fazer o balanço desta gestão: "Fiz o que pude com o que tive."
Tribuna – Terminado seu mandato dia 31, qual será o próximo passo, vai tirar férias ou pensar na próxima etapa política?
Custódio Mattos – Aí tem uma combinação de vontades com possibilidades. Eu, física e financeiramente, ainda preciso trabalhar um pouco mais. Física porque eu estou me sentindo no auge da minha capacidade de trabalho, não tenho nenhuma limitação, e financeira, porque eu ainda preciso de alguns anos. E tenho muita vontade de continuar trabalhando naquilo que eu sempre trabalhei, serviço público. Mas se depender de mim, eu tirarei umas férias. Tudo vai depender do convite que eu receber. Eu tenho trabalhado muito nessas últimas semanas, tanto ou mais do que trabalhei nos últimos anos. O final da administração sempre condensa algumas questões que ainda precisam ser resolvidas, até para eu deixar todas as grande questões equacionadas para que o novo prefeito possa começar com a tranquilidade que eu não tive quando comecei. Estou viajando (para Belo Horizonte) para acertar a assinatura do convênio para a continuidade das obras do hospital regional, um convênio de R$ 64 milhões, sempre lembrando que na obra do hospital nunca faltou dinheiro. O problema de atraso que nós tivemos foi com a empreiteira. E com o encerramento do prazo, nós rescindimos o contrato, e vai ser feita, na nova administração, uma nova licitação, mas com R$ 38 milhões em caixa.
– Como o próximo prefeito vai encontrar a Prefeitura?
– A folha de salário totalmente paga. Vamos deixar, em caixa ou com garantia, recursos para a continuidade das obras viárias, o tratamento de esgoto, o hospital e para a contenção de encostas. Tem R$ 300 milhões apenas no orçamento de 2013. Para se ter ideia, é muito mais do que a administração anterior gastou nos quatro anos. É mais do que eu fiz nos quatro anos.
– O senhor falou dos problemas que teve no início da gestão, relativos à dívida herdada. Conseguiu solucionar esse impasse? Como está hoje o passivo da Prefeitura?
– A dívida em si não é um problema. O problema é como está o equacionamento dessa dívida. O problema que eu herdei, primeiro, era que a folha de dezembro não estava paga, e eu tinha que, em quatro dias, conseguir R$ 16 milhões para pagar a folha. Ainda estávamos devendo ao INSS, e isso não permite que a Prefeitura faça convênios para receber dinheiro de outras entidades financeiras ou faça financiamento. Antes de entrar na Prefeitura, sabendo dessa situação, eu negociei com o Banco do Brasil para eles assumirem a folha de pagamento, e eles, em três dias, me adiantaram o dinheiro para pagar a folha. O INSS, nós acertamos em setembro (de 2009). Eu iniciei a administração com R$ 97 milhões negativos e hoje, quatro anos depois, tenho que entregar regular, dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal, tendo os gastos equilibrados e pagos os R$ 97 milhões. Nós não temos problema com nenhuma entidade financeira, nem com o INSS, ou com os fornecedores, o Fundo de Garantia e nem com a Receita Federal. Está tudo na absoluta normalidade.
– Como o senhor se sente a poucos dias de deixar a Prefeitura?
– Um misto de alívio e tristeza. Alívio, porque a pressão do trabalho na Prefeitura é muito grande. Você vive prefeitura, dorme prefeito e acorda prefeito. As tensões são muito grandes. E tristeza, porque eu considero que nós fizemos um belo trabalho. Nós pegamos a cidade com problema gravíssimo de autoestima, com desenvolvimento parado em décadas e uma prefeitura totalmente desmoralizada, a cidade quase que com vergonha de si mesma. Hoje não se fala mais nisso. A cidade é uma das mais dinâmicas do país. A tristeza é por não terminar esse ciclo. Mas isso sem nenhum ressentimento, sem mágoa.
– Se o senhor tivesse concluído parte das grande obras anunciadas, como o conjunto viário e o hospital, acha que o resultado nas urnas seria diferente?
– Eleição é um fenômeno extremamente complexo, e é muito difícil isolar fatores. Há eleições que são presididas por movimentos muito fortes, como esta. Eu creio que, certamente, se tivesse havido essa possibilidade, nós teríamos mais argumentos, talvez. Mas isso não foi nem um tema muito central na campanha. Os candidatos tanto acreditam na seriedade com que isso estava sendo conduzido que ninguém criticou esse fato. Eu até achava que isso seria muito centro de crítica. Mas sei que tenho credibilidade. Essa eleição foi realmente um movimento de renovação, de recusa do passado, uma recusa sem argumentos. O movimento, quando se instala, é uma avalanche.
– Apesar das ações implantadas e das obras realizadas, o senhor passou por um período de rejeição que foi revertido em parte na campanha. Como explicar isso?
– Primeiro, nós enfrentamos uma situação muito difícil no início, e você só enfrenta isso dividindo os custos. Em geral, as pessoas que são prejudicadas por alguma medida de política pública se tornam muito ressentidas com quem as decidiu e se mobilizam muito. Quando você saneia um órgão público, tem que contar com o dinheiro de quem tem para fazer coisas para quem não tem. Você prejudica o interesse material de pessoas que se vocalizam muito na opinião pública. E as pessoas que são beneficiadas, em geral, são silenciosas. Muitos criticam o aumento do IPTU, e isso mexe muito comigo. Em primeiro lugar, o IPTU é o imposto mais justo que existe. A Prefeitura estava devendo R$ 97 milhões. Não tinha sido capaz de pagar sua última folha de salário. O IPTU é uma taxa que tira contribuição de quem tem condição de pagar para diluir esses custos e fazer a cidade funcionar. Depois, não houve aumento abusivo. Hoje, os imóveis em JF estão avaliados, em média, entre 30% e 40% do seu valor venal, que é a base de cálculo do IPTU. Esse argumento, usado por pessoas que estão se candidatando a ocupar o cargo de prefeito, é extremamente deseducativo. Acentua o lado individualista, o lado materialista, egoísta de todos nós. A cidade não vive de brisa. Juiz de Fora é uma cidade muito pobre de recursos de ICMS, comparada com outras do mesmo porte. Quando eu entrei aqui, eu tinha a decisão de que ia fazer as coisas para ajudar a cidade, e não fazer política para ganhar eleição. Para fazer as coisas sérias você aliena interesses.
– Qual área o senhor acredita que mais avançou?
– Nós tivemos cuidado com todos os setores. Todos tiveram inovações, iniciativas simbólicas ou efetivas que nós tomamos e que marcam um diferencial. Ordem urbana: ter retirado os outdoors. Ninguém fala nisso. Vocês sabem a briga que foi. Perdi meu líder de Governo (na Câmara), que passou a ser o líder oposição (o vereador Isauro Calais) por causa dessa questão. E a cidade não ficou muito mais bonita sem outdoor? Outro exemplo: sou fã do trabalho que foi feito na Educação. A equipe comandada pela Eleuza (Barboza) fez um trabalho maravilhoso. É um trabalho que não aparece. Nosso índice de alfabetização era péssimo e melhorou muito. A experiência com alunos com defasagem na escola Herval (da Cruz Braz) virou um sucesso nacional, salvando vidas. Depois de três anos, fizemos avaliação dos currículos de todas as matérias e em todas as séries. Também tiveram novas escolas, recuperação física das escolas e recuperação da credibilidade da qualidade do sistema. Tem que ter continuidade.
– E o que poderia ter sido melhor?
– Eu ia destacar a saúde também como um dos setores que mais avançou, ao contrário do senso comum. A saúde virou um problema impossível. Quanto mais se faz, mais sofisticada é a demanda. Qual era o problema mais grave de Juiz de Fora? Urgência e emergência. O HPS estava na beira da explosão. Quem tinha dor de cabeça ia para o HPS, quem estava morrendo ia para o HPS. Fizemos duas UPAs quase que imediatamente e uma terceira agora. Duas mil pessoas que iam para o HPS por dia deixaram de ir. Até um ano atrás, todo dia tinha um problema. Agora o HPS sumiu da minha mesa. Fizemos um convênio de R$ 600 mil com o Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus. Aumentou o número de leitos normais e de UTI, e hoje ele faz cem cirurgias ortopédicas por mês adicionais, para aliviar o HPS. Ninguém toma conhecimento disso, porque resolvemos um problema que as pessoas não percebem. Se eu tivesse pego esse dinheiro para pagar aquilo que os médicos estavam querendo, estaria errado, mas resolveria o problema imediato (falta de médico). Porque o que a pessoa percebe na saúde é médico e remédio no posto. Se eu tivesse que recomeçar, teria que concentrar mais esforços e recursos naquilo que as pessoas percebem diretamente. Não sei se seria totalmente bem-sucedido, mas não tivemos essa visão política.
– O senhor não pensa em ser candidato de novo?
– No estado em que estou, de cansaço relativo de quem ficou quatro anos em um trabalho intenso, com 15 dias de férias, de sair derrotado de uma eleição pesada, mais a frustração de não poder continuar o trabalho… Essas coisas não são boas conselheiras. Eu não tenho pressa. Não tenho necessidade de definir nada. Tenho vocação pública e vitalidade, mas quero tempo para assentar tudo, entender esse descompasso, esse fosso entre o mérito do que fizemos e o resultado da eleição. Esse descompasso precisa ser absorvido, entendido, explicado. E o culpado não é o povo. O titular do direito é ele. Não passa pela minha cabeça nenhum tipo de mágoa. Eu não estaria preparado nunca para estar sentado aqui se não entendesse a soberania do voto. O voto traduz complexidades de fenômenos que a gente é quem tem que entender o povo, e não o povo entender a gente.
– Continuando na política, o senhor pretende participar do processo de reorganização do PSDB? Como fica a legenda em Juiz de Fora?
– O sistema político partidário brasileiro está falido. E parte da falência dele é a absoluta incapacidade do Congresso Nacional em fazer o que precisa ser feito, porque ele é parte do problema. Ninguém acredita nos partidos. A política está sendo vista com uma coisa malsã, o que é um enorme absurdo porque ela é uma atividade essencial para organizar a sociedade. Nesse quadro, há alguns partidos que podem ser a base de uma reestruturação do sistema político brasileiro. Um deles é o PSDB. Não que ele seja um modelo de perfeição. Mas ele e outros partidos serão uma base de sustentação. Vale a pena manter essa luta no PSDB como uma forma de base de estruturação com outros partidos. Não que vá haver fusão. Mas construindo um sistema sério, que o povo acredite. Além do mais, nós temos uma eleição muito próxima e importantíssima. Eu não vou renunciar da vontade de participar, porque desde os 16 anos faço militância e acredito. Para mim, a vida não faz sentido se eu não participar. Mas não sei como vou participar. Pela primeira vez na história do PSDB, há divisões locais, como havia em outros partidos. São divisões significativas, que temos que dar conta do que fazer com isso. Pretendo continuar como cidadão e militante.
– Então o senhor não fecha as portas para uma possível candidatura em 2014?
– Como tenho tempo para ver se isso corresponde a uma motivação interna (do partido), passado esse período de certa tristeza e cansaço, vai depender da minha motivação pessoal, da análise de viabilidade e de qual projeto vou estar inserido. Se o Aécio for candidato a presidente da República, e eu tenho convicção que ele é muito necessário para o país, eu estarei na infantaria, na artilharia. Como soldado ou como sargento, eu estarei nesse projeto. Isso é um elemento de motivação. Outra questão é: tenho voto, tenho apoio para me eleger? Mas gostaria de enfatizar que não tenho mágoa. Saio sem mágoa nenhuma. Tenho uma enorme honra de ter sido prefeito de Juiz de Fora. As pessoas vão ter tempo de amadurecer o juízo sobre tudo que aconteceu. Eu saio muito otimista, satisfeito e grato pela oportunidade que tive e pela equipe que tive.
– E qual foi o peso dessa equipe, principalmente do secretariado, nas vitórias e nos problemas desta gestão?
– A maior motivação que tenho é ver a evolução das pessoas e da equipe. Interfiro muito, mas procuro ser muito leal com as pessoas que se dedicaram. A equipe é minha responsabilidade. Acho que fizeram um belíssimo trabalho, porque as circunstâncias eram difíceis.
– Qual conselho daria para o próximo prefeito?
– O que eu diria para o prefeito é que a política é um instrumento, não é um fim em si mesmo. É um instrumento de fazer coisas e prestar serviços para quem precisa. Ela não é um processo de autorrepetição.









