Morre Villani Côrtes

Ex-presidente do Sindicato dos Bancários de Juiz de Fora e da Cooperativa de Consumo dos Bancários, José Villani Côrtes faleceu na noite desta terça-feira (14), aos 88 anos, em decorrência de uma pneumonia, após ter sido internado para uma cirurgia neurológica no último dia 9. Cidadão benemérito de Juiz de Fora conforme legislação municipal de 1996, Villani tem um grande histórico de militância política e é considerado um dos primeiros presos políticos do período que ficou conhecido como ditadura militar. O ex-sindicalista, que após perseguição política reconstruiu sua vida como funcionário do Banco do Brasil e na diretoria da Associação Funcionários Aposentados Banco Brasil (AFABB), deixa viúva e cinco filhos. Villani foi velado e enterrando, na tarde desta quarta-feira (15), no Cemitério da Glória.
A perseguição política a Villani começou antes mesmo do movimento militar que instaurou a ditadura no país por um período de 21 anos. Aos 35 anos e pai de quatro filhos pequenos à época, o sindicalista foi preso ainda em 30 de março de 1964, um dia antes da tropa do general Olympio Mourão Filho deixar Juiz de Fora e marchar em direção ao Rio de Janeiro pela BR-040 – então chamada de BR-3 -, na ação considerada o início do golpe militar. “Eu acredito que tenha sido o primeiro preso da revolução do Brasil inteiro”, afirmou em depoimento à Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora (CMV-JF) em setembro de 2014. Na ocasião, Villani acabara de chegar na Cooperativa de Consumo dos Bancários, quando foi abordado por policiais e militares e levado para a delegacia de Juiz de Fora, então na Rua Batista de Oliveira, no Centro. “(Quando cheguei) não tinha ninguém preso lá, só tinha eu”.
Logo após a insurgência militar, o ex-sindicalista amargou quase um ano de cadeia. Villani não sofreu apenas com a prisão arbitrária durante o longo hiato em que os militares se perpetuaram no poder. Segundo levantamentos da CMV-JF, o ex-sindicalista foi uma das 151 pessoas que sofreram algum tipo de violação de direitos em Juiz de Fora durante a ditadura militar. Entre outros documentos, a comissão analisou arquivos da Auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar, que julgava presos políticos de Minas Gerais, Goiás e do antigo Estado da Guanabara.
Em seu depoimento à CMV, o ex-bancário relatou situações de torturas físicas e psicológicas. Após ter sido mantido em desrespeito às condições humanas em Juiz de Fora, ele relatou ter sido vítima de violência física no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de Belo Horizonte. “Levei muitos chutes, socos, tapas e pontapés”, contou à comissão. Um dos motivos para a prisão de Villani era o temor dos militares diante da influência exercida pelo então líder sindical da cidade e sua capacidade de mobilização para atos em apoio a João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar de 1964. “O meu movimento aqui era o mais corajoso. Eu fazia greves e fechava os bancos”, relatou à CMV.
Ex-sindicalista completou 88 anos há duas semanas
Filho mais novo, Victor Villani Côrtes relatou à reportagem os últimos dias do pai. Segundo Victor, o rompimento de uma veia na última quinta-feira provocou um hematoma cerebral, o que fez com que o ex-sindicalista fosse submetido a uma neurocirurgia no mesmo dia. “Entre a última segunda-feira e ontem (terça-feira, 14), ele se recuperou bem e os prognósticos eram excelentes. Mas ele acabou desenvolvendo um quadro de pneumonia”, contou. O ex-bancário faleceu às 22h30 de terça-feira.
No último dia 2, havia completado 88 anos e comemorado ao lado dos familiares. “Fizemos um almoço de família. Ele estava muito lúcido, como sempre. Seguia trabalhando até hoje (integrava a diretoria da AFABB)”, lembra Victor. “Meu pai foi um lutador. Lutou pela democracia, pela igualdade de direitos, por melhores condições de trabalho e pela educação. Trabalhou sua vida toda se dedicando ao Banco do Brasil e depois à AFABB, onde ajudou muitos aposentados e viúvas pensionistas. Ele deixou sua marca na história do banco, da associação, da cidade e do país e deixa um exemplo de caráter, retidão, força e coragem para lutar”, resumiu, emocionado.
Reconhecimento
O reconhecimento à história de Villani vai além de seu círculo pessoal. Jornalista e integrante da CMV-JF, Fernanda Sanglard conheceu o ex-sindicalista ainda em 2013, quando o entrevistou para uma reportagem. “Dotado de boa memória, ele me concedeu uma entrevista emocionante e, desde então, não perdemos mais o contato. Lembro que tanto eu quanto o repórter-fotográfico nos impressionamos muito com sua narrativa e sua história de vida. Sem dúvida, Villani é um personagem histórico”, considera.
A jornalista ainda destaca a importância do depoimento do ex-bancário para os trabalhos da comissão e a identificação de abusos cometidos na cidade ou contra cidadão juiz-foranos durante o período da ditadura militar. “Villani integra o primeiro grupo de presos políticos em decorrência do golpe civil-militar de 1964 e foi peça fundamental na reconstituição do sistema repressivo local feita pela Comissão Municipal da Verdade”, reforça Fernanda.
Além de Fernanda, os demais comissários e pesquisadores que integraram a CMV-JF lamentam a morte de José Villani Côrtes, personalidade que vivenciou um período doloroso da história de Juiz de Fora e do país. Suas memórias ficarão eternizadas no relatório da comissão, pois é graças à coragem de cidadãos como ele que hoje podemos usufruir dos benefícios democráticos e conhecer melhor nosso passado.









