Arcelor falta à audiência e causa insatisfação

Durante audiência, produtores relataram dificuldades enfrentadas: ‘Há pessoas passando fome” (HUMBERTO NICOLINE)
O descumprimento da Arcelor Mittal BioFlorestas em contratos firmados com 250 produtores rurais para a realização do Programa Produtor Florestal (PPF) na Zona da Mata foi tema de audiência pública ontem, na Câmara Municipal de Juiz de Fora. O encontro foi proposto pelo presidente do Legislativo, Rodrigo Mattos (PSDB), para que as partes pudessem dialogar e encontrar uma solução, mas a empresa não enviou representantes. A Casa se mostrou insatisfeita com a ausência e garantiu que irá insistir numa reunião presencial ainda amanhã. Uma resposta da Arcelor sobre a possibilidade do encontro ainda é aguardada.
Na abertura da audiência, Rodrigo afirmou que a empresa virou as costas para a cidade. “Infelizmente, o principal objetivo hoje, que era a Câmara mediar um diálogo, não será atingido. A Arcelor virou as costas para os produtores, o Legislativo e para Juiz de Fora.” Ele afirmou que irá junto com os vereadores da Comissão de Agropecuária e da Cooperativa dos Produtores de Florestas Sustentáveis da Zona da Mata (Coopflos) até a empresa.
O proponente leu a carta da Arcelor Bioflorestas, assinada por Maurício Bicalho de Melo, que justificou a ausência por conta de outro compromisso. O documento afirmava que a empresa “busca solucionar o PPF como um todo, e que todos os produtores serão chamados individualmente para uma conversa”. O pagamento estaria previsto ocorrer ainda este ano.
Durante a audiência, alguns produtores relataram as dificuldades enfrentadas por conta da situação. “Eu tinha uma fazenda, em Rochedo de Minas, onde predominava a produção de leite. Depois de várias vezes que a Arcelor me procurou, eu entrei no projeto. Destinei toda a minha área, 250 hectares, para a plantação de eucalipto, mas a empresa não cumpriu o contrato. As dívidas pessoais foram aumentando, e eu vendi a minha propriedade por um preço menor”, relatou o produtor Ronaldo Mendes de Souza.
De acordo com o presidente do Sindicato Rural, Domingos Frederico Netto, o problema se tornou social. “Nunca acreditei nas promessas desse projeto, mas muitos produtores viram nele a possibilidade de uma aposentadoria. Agora há pessoas passando fome.”
O PPF foi implantado em 2005, quando a Arcelor prospectou produtores rurais em 51 municípios da região para adesão ao projeto e firmou contratos de parceria em que eles utilizariam os terrenos para plantarem eucalipto. Em contrapartida, a empresa seria responsável pelo corte, baldeio, retirada e compra da madeira plantada. Segundo os produtores, a empresa nunca cumpriu à risca os contratos firmados.
O presidente da Coopflos, Ivan Milward, destacou o prejuízo econômico para a região, estimado em R$ 7 milhões por mês, e o ambiental. “São 500 mil m³ de lenha apodrecendo.” Ele afirmou, ainda, que a usina da Arcelor tem operado com capacidade máxima, o que tiraria a legitimidade da alegação de crise para o descumprimento dos contratos.









