Diálogo direto com eleitor é desafio para políticos
Não faltam exemplos, nas histórias políticas brasileira e mundial, de líderes famosos por seu dom de incendiar as massas com discursos inflamados e litros de retórica como combustível, por mais díspares que fossem suas ideologias. De Cícero a Churchill, de Hitler a Nelson Mandela, de Mussolini a Fidel Castro, de Getúlio Vargas a Lula. E as multidões reagiam uníssonas, acaloradas pelo som da voz que as conduzia. Como se comportariam esses oradores inatos em tempos de blogs, Facebook e mensagens de 140 caracteres é um exercício de imaginação. Afinal, dificilmente se encontra uma plateia homogênea por trás das telas dos computadores, agindo em conjunto como o coro no teatro grego. O que há, na maioria das vezes, são individualidades exprimindo pensamentos próprios que, por mais que sirvam como mobilização social, quando encontram uma queixa ou um propósito comum, exigem um "tête-à-tête" de nível muito mais pessoal do que o corpo-a-corpo nas ruas a qual estão afeitos os políticos em campanha.
"A classe política está acostumada a lidar com a massa. A internet coloca a eleição no nível do indivíduo", aponta o cientista político Marco Aurélio Zuchi, da Quaso Pesquisa. Ele classifica o ciberespaço como uma nova ágora: "ágora eletrônica". Na Antiguidade clássica, a ágora era a praça principal da pólis, o lugar onde ocorriam as discussões políticas e os tribunais populares, onde todos os cidadãos tinham direito a voz. Era o símbolo do exercício da cidadania. De certa forma, as redes sociais restituíram aos cidadãos da atualidade o espaço para opinar acerca da vida político-social de sua cidade. Foi na praça virtual do Facebook, por exemplo, que surgiram, na última semana, as principais críticas à nova travessia de pedestres no cruzamento da Avenida Rio Branco com a Presidente Itamar Franco, sejam elas feitas ao modo de reclamações indignadas ou como brincadeiras irreverentes. E esse é só um exemplo de um fenômeno com o qual os pretendentes a cargos eletivos em Juiz de Fora já estão tendo que lidar.
Dos seis principais pré-candidatos à PJF – do prefeito Custódio Mattos (PSDB) ao ex-prefeito Alberto Bejani (PSL), passando pelos opositores Bruno Siqueira (PMDB), Júlio Delgado (PSB), Margarida Salomão (PT) e Victória Mello (PSTU) -, apenas a petista ainda não possui uma página pessoal no Facebook. O deputado estadual Bruno Siqueira tem quatro perfis em seu nome. O federal Júlio Delgado, dois. Recém-chegado à rede social, na qual ingressou em março, o atual chefe do Executivo conta também com o auxílio do grupo "Amigos do Custódio", cuja descrição de objetivos é "difundir a verdade acerca da Administração", o que não deixa de ser uma maneira de rebater as críticas que, como no caso da faixa de pedestres, fomentam-se justamente na web.
"A classe política ainda tem usado a internet de forma errada", considera Zuchi. "Põe matérias prontas, paga outras pessoas para alimentar os conteúdos. Ninguém quer ver ‘Perfil Lotado 1, 2, 3…’. Isso é para quê? Fazer mala direta depois para as eleições? Os internautas não querem o discurso ‘Venha a mim ver o que estou falando’. Querem o ‘Tenho algo a dizer sobre o que você está falando’, querem respostas a seus questionamentos. Querem a interação, o diálogo direto, o ‘Venha me convencer’", acrescenta. "O movimento de pessoas insatisfeitas com a atual Administração, por exemplo, usa o meio com eficiência, tanto em relação à conversa de rua, cotidiana, que vai para a internet quanto no sentido inverso, da crítica que nasce na internet e repercute nas ruas. Só reverte o posicionamento das pessoas nesse meio quem tiver argumento."
Prestação de contas, críticas e sugestões
Bruno Siqueira e Júlio Delgado, até por força dos mandatos parlamentares, já possuem sites próprios há alguns anos (www.brunosiqueira.com.br e www.juliodelgado.com.br), no qual apresentam suas ações nos legislativos municipal, estadual e federal – e, no blog de Bruno, também sobre a pré-candidatura peemedebista, como o calendário para formatação do plano para a "Nossa Juiz de Fora", mote da pré-campanha da legenda, em oposição clara ao "Nova Juiz de Fora" do atual Governo. No caso de Custódio e Margarida, a situação muda, já que dois movimentos antagônicos, mas com a mesma intenção de driblar essa dificuldade e conversar diretamente com o eleitor, foram lançados por seus respectivos grupos na web nos últimos meses, chamando a atenção para o papel da internet nas eleições de outubro.
No dia 15 de abril, durante a plenária em que foi confirmada a pré-candidatura petista à PJF, entrou no ar o site www.jfquerida.com.br, com enquetes sobre os principais temas urbanos e uma "tribuna livre", visando à coleta de opiniões junto à sociedade, a fim de quem sejam debatidas e incluídas no futuro programa de governo do partido. "Nós, do Partido dos Trabalhadores, queremos fazer deste site um mecanismo para ouvir a sua opinião sobre a cidade. Queremos entender, a partir da realidade que você vive, quais são os temas mais urgentes, onde a atenção do Poder Público precisa chegar, por quais caminhos devemos seguir."
Cerca de um mês antes, no dia 16 de março, foram registrados dois sites: o www.juizdeforalegal.com.br, ligado ao site oficial da PJF e com informações sobre a administração, e o Blog do Custódio, no endereço www.custodiomattos.com.br. No blog, num post intitulado "Um espaço para falar e ouvir", o prefeito afirma não temer a exposição e as críticas e assegura que qualquer forma de circulação e discussão sobre assuntos de interesse é bem-vinda e deve ser estimulada. "De fato, as redes sociais têm lá os seus excessos, como toda coisa inovadora. E cabe a nós compreendermos a diferença entre críticas construtivas e sugestões bem intencionadas e outros tipos de comportamento. Até poucos dias, eu não era usuário ativo da internet, mas posso informar que, desde o início deste mandato na Prefeitura de Juiz de Fora, as informações, comentários e sugestões que surgiam na rede eram captadas e processadas por uma equipe responsável por este trabalho. Temos especial atenção ao que nos serve de alerta para erros e sugere eventuais correções de condutas e processos na Administração Municipal."
Internet potencializará o debate
Tanto a mobilização petista para colher virtualmente material para seu futuro plano de gestão, a ser apresentado, a partir de julho, na campanha de Margarida Salomão, quanto a recente incursão do prefeito Custódio Mattos no universo virtual demonstram a posição nuclear que a internet terá no pleito deste ano. Em 2008, na última disputa municipal, a propaganda on-line era enclausurada nos sites dos próprios candidatos e coligações, todos obrigatoriamente registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fora dos quais pedidos de voto eram proibidos. A regra foi flexibilizada em 2010, e as redes sociais puderam ser usadas livremente, com todas as suas possibilidades de interação. Mas aí se tratava de uma eleição de âmbito nacional, com temas que acabam sendo distantes do dia-a-dia do cidadão. "A partir do momento em que se insere o tema local na discussão, a tendência é que a força da internet na campanha cresça bastante, que paute muito mais a eleição. Porque o debate estará no meu quintal. Um cidadão pode discutir limpeza urbana e colocar a foto da sua rua com mato alto, por exemplo", destaca Marco Zuchi. "Não digo que a internet vai ganhar a eleição, porque os meios de comunicação de massa têm muita força. Mas ela vai potencializar o debate. As campanhas vão ter que estruturar um setor só para cuidar disso. Quem não ocupar esse espaço corre o risco de ser pautado pela internet em vez de pautar a eleição."

Limite tênue entre cidadania e campanha
O perigo desses movimentos que começam agora, antes do período de propaganda eleitoral, que só tem início legalmente no dia 6 de julho, é o limite tênue entre o que é prestação de contas ou crítica de oposição e o que é campanha antecipada. Os sites vinculados aos quatro pré-candidatos – do PSDB, do PT, do PMDB e do PSB – não pedem votos nem os apresentam como concorrentes à PJF. O "JF Querida", inclusive, se coloca como um site do PT e nem chega a citar o nome de Margarida. O promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional Eleitoral do Ministério Público de Minas Gerais, Edson de Resende Castro, alerta, contudo, para o respeito às regras. "No caso da publicidade institucional, ela é regulada pela Constituição Federal, que garante que a Administração pode tornar públicos seus atos, serviços, obras, mas não pode promover pessoas. No período de campanhas eleitorais, um cuidado maior ainda tem que ser tomado com essa publicidade, porque a exposição da figura pessoal do administrador acaba rendendo frutos eleitorais, principalmente quando ele está em disputa de reeleição", pondera o promotor, que esteve em Juiz de Fora na última quarta-feira, para uma palestra da Associação Mineira do Ministério Público a respeito da Lei da Ficha Limpa no Instituto Vianna Júnior.
"O grande desafio no processo eleitoral é encontrar esse limite entre o direito – e até o dever – que a Administração tem de informar o cidadão sobre aquilo que está sendo feito em seu proveito com o cuidado necessário para não avançar para a propaganda eleitoral. É um limite tênue, mas que tem que ser examinado caso a caso." Sobre a oposição, Castro, que é autor do livro "Teoria e prática do direito eleitoral", diz que a atenção tem que ser semelhante. "Sempre tem que ser observado se o veículo de comunicação – no caso, a internet – não está promovendo pessoas, ainda que disfarçadamente, enaltecendo, expondo as qualidades, ao ponto de isso agir na consciência do eleitor como uma sugestão de voto."









