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‘A vida não acaba. A política continua’


Por RICARDO MIRANDA

09/12/2012 às 07h00

ENTREVISTA/Flávio Cheker, vereador

Até pela força do hábito, vai ter muito juiz-forano incluindo o professor Flávio Cheker (PT) na relação de vereadores da legislatura a ser iniciada em 1º de janeiro de 2013. E não é para menos, afinal, foram 20 anos ininterruptos dedicados às atribuições da Câmara de Juiz de Fora. Porém, o que seria o seu sexto mandato acabou não acontecendo. Mesmo tendo recebido a maior votação da sua história de disputas eleitorais (3.834 votos), o vereador com maior tempo na função acabou ficando de fora. Sua avaliação da derrota, entretanto, é repleta de serenidade. Houve empate técnico nas votações dos três vereadores do PT. Isso demonstra aprovação dos nossos mandatos. Em entrevista à Tribuna, Cheker fala do seu longo período na Câmara Municipal, nega qualquer propósito de aposentadoria e avalia com otimismo o atual estágio do PT. Por fim, defende um maior entendimento com a base aliada nacional também em Juiz de Fora. A campanha apresentou uma série de afinidades entre os dois partidos (PT e PMDB) sob o ponto de vista programático.

Tribuna – Qual o balanço é possível fazer da Câmara Municipal nesses seus 20 anos de atuação?

Cheker – Sou otimista em relação à política. Acho que as coisas vão se depurando. Aqui na Câmara Municipal, quando eu entrei, a estrutura era muito precária, e, mais do que isso, o espaço para coisas erradas era muito grande, até por conta de indefinições da legislação ou mesmo da ausência de mecanismo de controle social. Lembro-me de ter apanhado muito quando apresentei o projeto que acabava com as subvenções sociais. Era um recurso considerável disponibilizado a cada um dos vereadores para ser investido onde eles quisessem, sendo prioridade, em tese, em ações sociais ou áreas com necessidades específicas. Isso, na verdade, funcionava de maneira muito precária. Quando estourou em Brasília o escândalo dos Anões do Orçamento, que envolvia justamente essa questão, o meu projeto aqui ganhou força. Aprovamos a matéria. Hoje essas verbas são distribuídas pelo Executivo. Isso foi uma contribuição importante. Mas, de uma forma geral, ao longo do tempo, as coisas avançaram muito na Casa. Do ponto de vista de estruturação, por exemplo, foi feito um progresso muito grande, embora haja muito para avançar.

– No seu caso em particular, foram praticamente 20 anos na oposição – o PT participou da terceira gestão Tarcísio Delgado 2001-2004. Atuar longe das benesses do Executivo é mais complicado?

– O período governista foi curto e sem maior aprofundamento, sem autonomia. Na verdade, considero que os 20 anos foram de oposição. Não senti o gosto de poder executar. Isso é um pouco angustiante. Os vereadores mais velhos diziam que a atividade parlamentar acaba sendo meio angustiante por conta de não poder chegar à solução. Você caminha, você luta, você batalha, mas a canetada final não está com você. Os parlamentares sofrem com isso. Há, entretanto, um lado positivo, gratificante. Não é só angústia. Como se sabe, os meus mandatos sempre foram ligados aos movimentos sociais. Quando se alcança alguma conquista nesse segmento, quando se vê o brilho nos olhos das pessoas, isso não tem preço. O caso do Leito da Leopoldina, por exemplo, foram décadas de lutas até se conseguir assentar aquelas pessoas que ficaram sem suas casas. No dia que elas foram para o prédio, foi muito gratificante. Não que você seja o pai da criança, mas sua luta foi importante. Sob o ponto de vista da legislação, há também reconhecimento. Na campanha, uma senhora do Bairro Milho Branco disse que votava em mim por conta da lei de minha autoria instituindo a obrigatoriedade do exame da orelhinha.

– O sr. acompanhou a maior parte do ciclo de 30 anos com três prefeitos (Tarcísio Delgado, Alberto Bejani e Custódio Mattos). Isso fez mal ao município?

– Juiz de Fora, há mais tempo, busca renovação dos seus quadros políticos. Isso mostra a necessidade de mudança da concepção política do município. O que percebo, ao longo de 20 anos dos mandatos dos prefeitos que acompanhei aqui da Câmara, é que, de modo geral, a máquina administrativa funcionava da mesma maneira. Com uma ou outra exceção, com um ou outro movimento mais ousado, não havia de fato uma tentativa de mudar o funcionamento da máquina. Claro que a máquina administrativa, e o (ex-presidente) Lula sentiu muito isso quando chegou ao poder, não é uma coisa possível de mudar da noite para o dia. Não falo de uma mudança de organograma, mas de uma mudança de mentalidade. Se você não estiver ali inspirando essa mudança de mentalidade, ela não sai nunca. Inspirando já é vagaroso, não inspirando não muda nunca.

– O sr. integra a geração responsável pela fundação do PT e pela chegada do ex-presidente Lula ao poder. É frustrante o fato de o partido não ter conseguido ainda chegar à Prefeitura?

– O Lula foi uma criação política da nossa geração. Nossa criação no sentido de seu nome ter sido construído pelos intelectuais, sindicatos, Igreja e estudantes. Foi assim que sua liderança foi gestada, e ele chegou aonde chegou. Isso é muito gratificante. Com todas as críticas que se pode fazer a ele, não há dúvida de que o Lula fez uma revolução silenciosa no país. Conseguiu fazer um movimento de migração de classe, tirando milhões de pessoas da pobreza. Em Juiz de Fora, nessa última eleição, nós fechamos um ciclo de 30 anos de disputa pelo poder, iniciado lá atrás com o Agostinho Valente e vindo até a Margarida Salomão. Com certeza é algo que nos deixa a sensação de que poderíamos ter feito mais. Não conseguimos chegar ainda no ponto de execução de nossas propostas. Por outro lado, percebo que há, na população de Juiz de Fora, uma visão muito positiva do PT, não apenas pelas excelentes votações do Lula aqui, mas também pelas votações das nossas candidaturas locais. Mas, de fato, ainda não conseguimos dar o pulo do gato, que é chegar à Prefeitura. Temos que calçar as sandálias da humildade e refletir sobre isso. A vida não acaba. A política continua. Se não chegamos ainda, temos a ideia de um dia chegar.

– O que esperar do PT de Juiz de Fora?

– Há um amadurecimento grande do partido, das direções partidárias e dos militantes. Não podemos esquecer que temos tarefas práticas na conjuntura política. As eleições de 2014 estão chegando, e é fundamental pavimentar o caminho para reeleição da (presidente) Dilma Rousseff. Também vamos ter disputa para o Governo de Minas. O PT municipal tem que estar afinado com essa lógica. Isso está muito presente na cabeça das lideranças e dos militantes. Temos que agir aqui, respeitando nossas particularidades, mas não perdendo o foco do projeto nacional de reeleição da Dilma e de eleição dos governos estaduais. Nesse caso, o prognóstico é positivo. A campanha apresentou uma série de afinidades entre os dois partidos (PT e PMDB) sob o ponto de vista programático. A perspectiva é boa para o partido pensar sua atuação. Pensar o que o PT quer para daqui a quatro ou oito anos. Há um espaço para discussão política que temos que aproveitar em uma interlocução positiva com as forças políticas aliadas.

– Uma derrota após tanto tempo arrefece um pouco a disposição de seguir?

– Não estou me aposentando. Não saio nunca da luta política. Enquanto puder servir à cidade, vou estar à disposição, não vou fugir dessa luta. Na verdade, houve empate técnico nas três votações dos três vereadores do PT. Isso foi uma aprovação dos nossos mandatos. No mais, há um reconhecimento nas ruas após a derrota, de que vou fazer falta. Chega a ser surpreendente e, acima de tudo, gratificante. Tem também muita gente hoje falando comigo que deixou de votar em mim porque sabia que eu já estaria eleito de qualquer forma. São coisas da política. O (ex-ministro) Patrus Ananias tem uma frase que tenho repetido muito nos últimos dias. Nós, os derrotados, somos invencíveis.