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Jair Bolsonaro é vítima de atentado em Juiz de Fora

Candidato à Presidência foi agredido a faca enquanto descia Calçadão da Rua Halfeld

Por Daniela Arbex, Gabriel Ferreira Borges, Leticya Bernadete, Marcos Araújo, Pedro Capetti e Renato Salles

06/09/2018 às 16h10- Atualizada 07/09/2018 às 21h23

Leitora flagra o momento em que o candidato foi esfaqueado (Foto: Raysa Leite)

O candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), 63 anos, foi vítima de esfaqueamento durante campanha em Juiz de Fora. O crime aconteceu no Calçadão da Rua Halfeld, no Centro, na tarde de quinta-feira (6), quando fazia corpo a corpo com os eleitores em visita à cidade, chocando o país e o mundo. Flagrantes feitos por cinegrafistas amadores mostram o momento exato em que Bolsonaro é atingido no abdômen por um facão, mesmo estando sob a escolta da Polícia Federal. Carregado nos ombros pelos apoiadores de campanha, ele sente o golpe e cai para trás. Houve pânico e correria entre a multidão que compareceu ao ato. Socorrido às pressas, o candidato foi colocado em um carro dirigido por sua segurança particular e levado para o Hospital Santa Casa, onde passou por cirurgia. Ele sofreu ferimentos graves na região abdominal, com volumosa hemorragia, necessitando de intervenção imediata.

O primeiro boletim médico da Santa Casa, divulgado no início da noite, informou que o estado de saúde de Bolsonaro era estável, descartando lesão hepática. No entanto, foi constatada lesão da artéria mesentérica superior – que foi reparada -; lesão transfixante do cólon transverso (intestino grosso), que também foi reparada, e três lesões em intestino delgado. Após a cirurgia, Bolsonaro encontrava-se com pressão arterial normal e sem risco iminente de morte, embora ainda esteja em estado grave. A Santa Casa informou que o presidenciável deu entrada no hospital por volta das 15h40. Ele foi atendido na urgência, passou por um exame de ultrassonografia, sendo encaminhado para o centro cirúrgico.

A chegada de Bolsonaro ao hospital foi tensa. Seguranças do candidato gritavam “emergência”, mobilizando toda a unidade. Cícero de Lima Rena, chefe de Departamento de Cirurgia, foi o responsável pela equipe que prestou atendimento imediato ao paciente. Ele apresentava lesões múltiplas e hemorragia interna. Luiz Henrique Borsato, da equipe de cirurgia geral, disse que o candidato tinha sinais de choque, volumosa hemorragia interna, lesão de uma veia do abdômen e outras lesões em órgãos abdominais. Também apresentava uma lesão grave no cólon transverso, no intestino grosso. “Optamos por fazer uma ressecção da lesão e colocamos uma colostomia dada à gravidade do paciente. Todas as lesões que colocavam em risca o vida do paciente foram tratadas. Ele está estável no momento, mas ainda não tem condições imediatas de transferência”, afirmou o médico, após mais de duas horas de cirurgia.

De acordo com o cirurgião Gláucio Silva de Souza, uma equipe do Hospital Sírio Libanês vem à cidade para monitorar o caso. “Tinha uma perda sanguínea grande que o colocava em risco de vida. Isto foi controlado durante a cirurgia”, informou. O cirurgião avalia que a recuperação do candidato poderá levar duas semanas. “Depende de como ele vai evoluir. A evolução na UTI tem sido muito boa. Não foi feita a emenda do intestino. A opção temporária foi pela colostomia que pode durar um período de até dois meses. Depois, o candidato deverá passar por uma nova cirurgia para a retirada do procedimento”, explicou.
Os médicos não descartaram risco de infecção intra-abdominal, informando que Bolsonaro está sendo tratado com antibióticos. Até o fechamento desta edição, ele estava respirando normalmente e já tinha recuperado a consciência. Bolsonaro também havia recebido a visita dos filhos.

 

A agressão contra Jair Bolsonaro ocorreu no Centro, na altura do cruzamento entre as ruas Batista de Oliveira e Halfeld, quando o presidenciável seguia com sua comitiva em direção à Praça da Estação, onde faria um comício. Segundo o movimento Direita Minas, cerca de 15 mil pessoas acompanhavam a comitiva no momento do atentado. Já a estimativa de um cabo da Polícia Militar, que estava no local, aponta que era de cinco mil pessoas. A multidão foi dispersada por policiais responsáveis pela escolta do candidato após o crime. “Eu não consegui ver sangue, porque tinha muito empurra-empurra. Mas ele (o suspeito) acertou. O golpe foi diretamente no peito do Bolsonaro. O agressor estava no meio da multidão, do nosso lado. A população o agarrou, e ele foi linchado, por todo mundo que estava perto”, contou o advogado Eduardo Jeyson, de 42, que estava próximo ao candidato no momento.

Muitas pessoas que transitavam pela região onde o crime aconteceu ficaram assustadas. Havia boatos de que um tiro tinha sido disparado, causando pânico e afetando o trânsito. Surgiram focos de briga entre admiradores e opositores de Bolsonaro. Estabelecimentos localizados na região central fecharam as portas com medo do tumulto generalizado. Mesmo após o socorro prestado ao candidato, a multidão ainda permanecia na área, chocada com o ocorrido.

Polícia protege o suspeito do atentado da multidão, que tentou linchá-lo (Foto: Gabriel Ferreira Borges)

Autor diz que agiu a ‘mando de Deus’

O autor do crime foi identificado como Adelio Bispo de Oliveira, 40, natural de Montes Claros. Ele tentou fugir do local se refugiando em um prédio próximo, mas foi impedido por populares, sendo detido pela polícia e, depois, levado para a sede da Polícia Federal (PF), onde foi autuado em flagrante. Adélio sofreu uma tentativa de linchamento e precisou ser escoltado no caminho para a delegacia.

Um inquérito policial foi instaurado para apurar as circunstâncias do fato. Um segundo homem também foi detido pela Polícia Militar e encaminhado à Delegacia da Polícia Federal por supostamente ter incitado Adelio a cometer a violência. De acordo com o boletim de ocorrência da Polícia Militar, em conversa com o autor, ele afirmou ter saído de casa com a faca de uso pessoal, a fim de acompanhar a comitiva. Disse ainda que atentaria contra a vida do candidato, logo que tivesse uma oportunidade. Confuso, alegou ter “motivos pessoais” para cometer o crime e que a violência teria sido cometida “a mando de Deus”. Um terceiro homem, suspeito de participar do atentado, também foi detido pelo Polícia Militar e encaminhado para a delegacia de Polícia Federal.

 

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Relato

Faca utilizada no crime (Foto: Reprodução)

Conforme Eduardo Jeyson, advogado de 42 anos, que estava próximo ao candidato no momento em que fora agredido. “Eu não consegui ver sangue porque tinha muito empurra-empurra. Mas ele (o suspeito) acertou. O golpe foi diretamente no peito do Bolsonaro. O agressor estava no meio da multidão, do nosso lado. A população o agarrou e ele foi linchado, por todo mundo que estava perto.”

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Ao fundo, a expressão de dor do candidato Jair Bolsonaro (Foto: Felipe Couri)

‘Ganhará no primeiro turno’

Muito abalado, o presidente da Associação Comercial, Aloísio Vasconcelos, comentou que Juiz de Fora iria registrar, nesta quinta-feira (6), “o maior evento da história da cidade”. Ele lamentou a fatalidade, mas se disse otimista de que o candidato reverterá o quadro e “ganhará a eleição no primeiro turno”. Aloísio foi um dos organizadores da vinda de Bolsonaro a Juiz de Fora. Aloísio disse que o candidato estava muito feliz com o apoio recebido pela classe empresarial e pela população, superando todas as expectativas. “Ele estava em uma alegria radiante. É uma situação que não tem explicação, que a gente não entende. Deus há de ajudar.”

O autor

Nas redes sociais, o perfil do suspeito do crime está sendo atacado por apoiadores do candidato Jair Bolsoraro. Em sua conta no Facebook ele mantém publicações relacionadas a política, inclusive alusivas ao candidato. Em uma delas, Adélio escreveu “da nojo só de ouvir, que dizer que a ditadura deveria ter matado pelos uns 30 mil comunistas”.

OAB se manifesta

A 4ª Subseção de Minas Gerais da Ordem dos Advogados do Brasil também manifestou repúdio ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro. Eis a nota:

“A Ordem sempre defendeu de forma intransigente o Estado Democrático de Direito e a livre manifestação de todo cidadão, dentro dos limites da lei. O processo eleitoral deve ser pautado pelo respeito às opiniões e manifestações, não podendo coadunar com quaisquer atos de violência contra qualquer candidato ou qualquer eleitor.

A manutenção da democracia depende da serenidade, respeito e possibilidade de embates tão somente no campo das ideias, não sendo admissível a prática de atos de violência, que atentam contra toda a sociedade.

A OAB está acompanhando os acontecimentos, sempre pronta para defender os interesses e princípios do Estado Democrático de Direito.”

 

‘Inadmissível’

Para o cientista político Paulo Roberto Figueira Leal, é inadmissível que um candidato à Presidência sofra um atentato. Ele defende uma apuração rigorosa e uma punição “seríssima” a quem quer que esteja envolvido. O cientista político condena também o clima de incitação à violência criado, de forma irresponsável, por lideranças políticas, para criar um ambiente de ódio e radicalismo. Na sua opinião, uma candidatura que incita a violência aumenta a chance de episódios como o acontecido, nesta tarde, em Juiz de Fora. Na sua opinião, é preciso que a apuração seja ágil, até para que não exista uma exploração política do fato.

 

 

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