Ouça agora

Prefeitura sinaliza nova carreira para a categoria, mas sindicato considera ‘muito pouco’


Por Ricardo Miranda com colaboração de Julia Pessôa

04/05/2011 às 07h00

Os médicos servidores públicos municipais encerraram o segundo dia de greve com a sinalização da Prefeitura de Juiz de Fora favorável à criação de uma nova carreira para a categoria. As diretrizes do propósito da Administração foram apresentadas ontem aos dirigentes do Sindicato dos Médicos pelos secretários de Administração e Recursos Humanos, Vítor Valverde, e de Saúde, Cláudio Reiff. Também foi firmado o compromisso de o Governo enviar para a Câmara uma mensagem estabelecendo o piso de R$ 4 mil para urgência e emergência, que vigora atualmente em caráter provisório. As conversas prosseguem hoje quando o prefeito Custódio Mattos (PSDB) vai apresentar aos profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF) proposta específica para a atenção primária. Outras reuniões ainda podem acontecer antes das 19h30, quando os médicos fazem assembleia para avaliar a continuidade ou não do movimento grevista.

Vítor Valverde afirmou que vai aguardar uma resposta dos médicos quanto à lógica que será adotada para a criação de uma nova carreira. Em linhas gerais, a proposta esboçada pela Administração prevê um salário inicial mais alto, com progressão mais moderada. Atualmente, segundo Valverde, os profissionais começam com um salário menor, mas possuem aumento de 10% a cada triênio. O secretário ponderou, no entanto, que os direitos adquiridos pelos atuais profissionais não seriam afetados pela nova carreira, voltada para novas contratações. Quanto ao ponto biométrico, que foi criticado pelos médicos na audiência pública na semana passada, Valverde esclareceu que não há qualquer possibilidade de mudança, por se tratar de um acordo firmado com o Ministério Público.

Em relação às negociações de ontem, o presidente do Sindicato dos Médicos, Gilson Salomão, considerou as sinalizações como muito pouco frente às demandas da categoria. Ainda assim, ele disse que a situação pode avançar a partir das ações previstas para hoje. Ele não comentou o reajuste linear proposto pela administração de 8,23%, referente ao IPCA de 2010 /2011 e parte das perdas de 2009.

Sem ganho real

As demais categorias receberam o percentual de reposição com pessimismo. Em nota, o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserpu), Cosme Nogueira, disse os anseios da categoria não foram atendidos. Devido à ausência de ganho real nos últimos anos, a proposta apresentada pelo Executivo é insatisfatória. O vereador e coordenador do Sindicato dos Professores (Sinpro), Roberto Cupolillo (Betão, PT), lamentou o fato de a Administração brincar com os números. Na prática, estão oferecendo o IPCA parcelado em duas vezes, o que é muito pouco. Ele antecipou que a categoria vai brigar por implicações do piso nacional do magistério, como a questão da atividade extra-classe. Os professores têm paralisação prevista para o dia 10. Em caso de não haver avanços, não está descartada greve. Já o Sinserpu aguarda a nova rodada de negociações prevista para amanhã, às 10h, para definir a data da assembleia.

Menor movimento de pacientes em unidades

No segundo dia de greve dos médicos municipais, o movimento nas unidades foi menor que o habitual, porque grande parte dos usuários já estava ciente da paralisação. A Tribuna percorreu as principais instituições de saúde na manhã de ontem e constatou que houve defasagem na assistência aos pacientes. No HPS, apenas os casos mais graves de urgência e emergência foram atendidos. Na sala de espera, havia pessoas deitadas sobre os bancos, aguardando pela assistência que não sabiam se iriam receber. Sofri uma pancada e acho que posso ter quebrado o nariz. Fui na Regional Leste e me disseram que lá eu não seria atendido de jeito nenhum, então vim para cá e estou esperando, diz o aposentado João Paulo Dias, 45 anos.

De acordo com a assessoria de comunicação da instituição, o quadro de profissionais estava completo na manhã de ontem, mas os próprios médicos estavam fazendo triagem sobre os casos que precisavam ser atendidos e os que poderiam esperar. Com isso, nem todos os que estavam nas filas receberam assistência médica. Trouxe meu irmão para cá desmaiado, e não sei o que ele tem e nem se é grave. Várias pessoas já entraram e ele continua deitado aqui. Não é possível que isso não seja uma emergência, reclama o lavrador Vicente Geraldo de Almeida.

Na Policlínica de Benfica,na Zona Norte, o gargalo de atendimento foi grande, e pacientes permaneceram nas filas por longas horas. Foi o caso da dona de casa Maria José Senhorim, 59, que se queixava de fortes dores no braço direito e de febre depois de ter levado um tombo. Já tinha vindo aqui ontem (segunda-feira), e esperei tanto que desisti de ser atendida. Comprei remédios para dor por conta própria e decidi voltar hoje (ontem). Mas já estou esperando há umas duas horas e até agora nada. De acordo com os usuários, a concentração de pessoas na policlínica é consequência da falta de médicos na Uaps de Santa Cruz, na mesma região. Estive lá antes de vir aqui e me disseram que não poderia ser atendido, afirma o aposentado Airton Setembrino, 61.

Na Regional Leste, houve pouco movimento durante a manhã, mas os pacientes reclamavam da demora para serem atendidos. Sei que a unidade está funcionando, mas parece que estão escolhendo quem vai ser atendido ou não. Se demorar muito, não vou esperar, diz a dona de casa Maria da Glória Alves, 48. De acordo com a diretora da unidade, Adriana Fagundes, não houve ausência de profissionais, mas , assim como aconteceu no HPS, os médicos estavam fazendo uma triagem entre os pacientes de urgência e emergência, de acordo com a gravidade de cada demanda. As pessoas devem saber que são os médicos que estão de greve, e não a instituição. Serviços como raio-x, enfermagem ou demandas administrativas estão funcionamento em ritmo normal, ressalta a diretora. Podemos garantir que quem chegar aqui receberá uma ficha para ser atendido, mas não podemos assegurar que receberão assistência, porque isso não depende da unidade.

No PAM-Marechal, no Centro, a procura também foi bem menor do que a habitual, mas alguns usuários ainda foram surpreendidos com a interrupção de parte dos serviços. Vim marcar uma cirurgia cardíaca para minha mãe, e me orientaram a esperar a greve terminar. Até então, nada pode ser agendado, diz a dona de casa Luciene Dutra, acompanhada pela mãe Aparecida Dutra, 72. De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde, o trabalho das equipes do Samu e do Resgate, que fazem parte da rede de urgência e emergência, não foi comprometido. Nas demais unidades, segundo a assessoria, o movimento foi similar ao de segunda-feira, sendo que 70% das UAPs funcionaram.