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Estudo da UFJF aponta como Lula ampliou vantagem em Juiz de Fora no 2º turno

Mobilização nas ruas e redes, visita do presidente à cidade, atuação de lideranças locais e queda da abstenção ajudaram petista a chegar a 57,7% dos votos válidos


Por Fernanda Castilho

01/11/2026 às 07h00

Voto e Cidadania 2026

Após terminar o primeiro turno das Eleições 2026 atrás de Flávio Bolsonaro (PL) em Minas Gerais e país, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou sua vantagem em Juiz de Fora no segundo turno. Mobilizações nas mídias sociais e nas ruas, a visita do presidente à cidade, a articulação de lideranças locais do Partido dos Trabalhadores (PT) e a redução da abstenção estão entre os fatores apontados pelo estudo “O que as urnas revelam sobre a força de Lula e Flávio nas eleições de 2026 em Juiz de Fora”, do Núcleo de Estudos sobre Política Local (Nepol/UFJF), realizado exclusivamente para a Tribuna de Minas, uma semana depois do segundo turno.

Para compreender a dinâmica eleitoral do município, o estudo comparou as duas etapas da eleição de 2026 e também as de 2022. A análise do Núcleo mostra como a candidatura de Lula ampliou seu apoio e como Juiz de Fora voltou a dar maioria ao petista, contribuindo para o desempenho do presidente em Minas Gerais.

O estudo é assinado pelo doutor em Ciências Sociais pela UFJF Gustavo Paravizo e pelo doutorando em Ciência Política pelo IESP-UERJ Guilherme Duque. Também contou com a colaboração do bolsista do Nepol Miguel Carvalho.

Juiz de Fora é, conforme mencionado pelo documento, o principal polo urbano da Zona da Mata, região que reúne 142 municípios e cerca de 2,2 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022. “Fazer campanha aqui significa também ampliar a presença em uma região importante para o resultado mineiro. Além disso, desde 1998, todo presidenciável que venceu na cidade também ganhou no Brasil”, destaca o estudo.

Lula cresce em JF no segundo turno

Consta no estudo que, entre o primeiro e o segundo turno, Lula somou 33,4 mil votos a mais no município, crescimento de 22%. Flávio Bolsonaro, por sua vez, somou mais 8,9 mil votos, alta de 7%.

No primeiro turno de 2026, Lula teve 151.552 votos, e Flávio, 126.964. Na disputa final, o petista conquistou 184.952 votos, enquanto o bolsonarista alcançou 135.835. A vantagem de Lula em Juiz de Fora praticamente dobrou: passou de 24,6 mil para 49,1 mil votos.

Ao fim, o presidente reeleito ficou com 57,7% dos votos válidos no município. Em 2022, quando disputava contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula alcançou 56,1% no segundo turno. A análise aponta que Lula não apenas ampliou sua votação no município entre os dois turnos, mas também terminou 2026 com desempenho superior ao registrado na disputa presidencial de 2022.

“Isso significa que a cidade começou a eleição de 2026 votando menos no atual presidente do que em 2022 e terminou o segundo turno dando a ele uma vitória mais folgada do que a de quatro anos antes”, conclui o estudo.

estudo nepol ufjf tribuna de minas

Segundo o estudo, o primeiro turno de 2026 foi o pior desempenho de Lula na cidade nas duas últimas eleições. Mesmo terminando na frente, obteve menos da metade dos votos válidos nas urnas locais: caiu de 52,6% para 49,6% e perdeu 15,4 mil votos em relação a 2022.

Dos 174 locais de votação considerados nas duas eleições, Lula melhorou seu percentual em apenas 20. Nos mesmos 174 locais, Flávio superou o percentual registrado por Jair Bolsonaro em 164. O filho do ex-presidente terminou em primeiro lugar em 36 locais, o dobro dos 18 de 2022.

Mobilizações, visita de Lula e queda da abstenção

manifestacao 23 de outubro leonardo costa
Manifestações em prol da candidatura de Lula ocorreram na cidade (Foto: Leonardo Costa)

A ampliação dos votos de Lula entre os turnos na cidade está relacionada, segundo a interpretação dos pesquisadores, ao contexto da campanha. As mobilizações nas redes sociais e as manifestações nas ruas ocorridas em todo o país são apontadas como alguns dos fatores que contribuíram para a mudança do cenário. Em Juiz de Fora, o Núcleo destaca as manifestações protagonizadas por estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Na semana seguinte ao primeiro turno, os estudantes organizaram uma caminhada que partiu da Ágora, localizada no campus da Universidade, e seguiu pela Avenida Olegário Maciel em direção ao Parque Halfeld e à Praça da Estação, no Centro da cidade. Realizada no dia 8 de outubro, quatro dias após a primeira etapa da eleição.

Posteriormente, no dia 23 de outubro, última sexta-feira antes da votação do segundo turno, estudantes voltaram a se manifestar em praça pública. O ato foi encerrado com a exibição do último debate entre os candidatos, promovido pela Globo.

lula e margarida juiz de fora leonardo costa
A prefeita Margarida Salomão participou de ato político ao lado do presidente Lula em Juiz de Fora (Foto: Felipe Couri)

Outro fator destacado pelo estudo é a visita de Lula ao município durante a campanha de segundo turno. Após um primeiro cancelamento, no dia 16 de outubro, a nove dias da votação, o presidente participou de ato político que reuniu milhares de pessoas no Centro. O Núcleo considera a visita um “apelo explícito” a quem não havia votado no primeiro turno. Flávio Bolsonaro, que já havia participado anteriormente de um ato na cidade, cancelou uma segunda visita prevista para a véspera da eleição.

Os pesquisadores também apontam a estrutura política local do Partido dos Trabalhadores como um dos elementos que contribuíram para a ampliação da votação de Lula no município. Juiz de Fora é a terceira maior cidade do país governada pelo partido, atrás apenas de Fortaleza e Contagem. A prefeita Margarida Salomão foi reeleita em 2024 no primeiro turno, com 54% dos votos, na primeira vitória de uma candidatura à Prefeitura já na etapa inicial da disputa no município.

Na avaliação dos pesquisadores, o desastre climático ocorrido em fevereiro impôs desgaste à gestão municipal. No entanto, ao se engajarem na campanha presidencial do segundo turno, a prefeita e outras lideranças petistas da cidade conseguiram mobilizar uma base que, segundo o estudo, havia se dispersado no primeiro turno.

Outro elemento apontado é o aumento do comparecimento às urnas. A abstenção em Juiz de Fora caiu de 18,4% para 15,8% entre os turnos, redução de 2,6 pontos percentuais, acima da verificada no país, de 1,9 ponto, e semelhante à registrada em Minas Gerais, de 2,5 pontos.

Minas acompanha Juiz de Fora

Diferentemente de Juiz de Fora, onde Lula venceu nos dois turnos, Flávio Bolsonaro foi o mais votado em Minas Gerais na primeira etapa da eleição. O estado se tornou o único em que o resultado do primeiro turno se inverteu: Lula passou de 5,19 milhões para 6,35 milhões de votos, um acréscimo de 1,16 milhão, ou 22%, enquanto Flávio foi de 5,78 milhões para 6,24 milhões, aumento de 464 mil votos, ou 8%. A desvantagem inicial de Lula, de 589 mil votos, virou uma vantagem de 109 mil na disputa final.

O Núcleo também destaca Minas Gerais como o segundo maior colégio eleitoral do país e um dos estados mais decisivos nas eleições presidenciais. A reversão do quadro no segundo turno integra o que o estudo classifica como uma virada nacional histórica, “a primeira registrada nesse estágio do processo eleitoral desde a redemocratização”.

Segundo a análise, entre os dois turnos de 2026, o petista cresceu 8,1 pontos percentuais em Juiz de Fora, diante de 7,1 em Minas Gerais e 6,6 no país. Lula terminou com 57,7% dos votos válidos no município, contra 50,4% no estado e 51,8% no país.

“Em um estado onde a disputa foi decidida por menos de um ponto percentual, a vantagem de 49,1 mil votos em Juiz de Fora contribuiu de forma decisiva para sustentar a vitória estadual. O PT venceu em Juiz de Fora em todos os segundos turnos presidenciais desde 2002, com exceção de 2018”, apontam os pesquisadores.