Estado esclarece investigações de óbitos entre vacinados
Nota enviada na terça citava a notificação de 542 mortes por eventos “em decorrência da vacina”; posteriormente, explicou que 362 casos já foram investigados e passam de “meras associações temporais”
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) investiga 180 óbitos ocorridos após a vacinação contra a Covid-19 em Minas Gerais. A informação foi passada pela pasta à Tribuna após, inicialmente, a SES-MG informar a notificação de 542 “óbitos por eventos adversos graves em decorrência da vacinação contra a Covid-19” entre os dias 18 de janeiro e 25 de maio. O número foi atualizado posteriormente pela secretaria, confirmando que a maior parte dos casos comprovadamente se tratam de “meras associações temporais”. Em entrevista à reportagem, um especialista ratificou a segurança dos imunizantes.
Por meio de nota encaminhada à Tribuna na terça-feira (29), a SES-MG revelou a existência de 542 notificações de óbitos por eventos adversos à vacinação. A pasta ainda havia complementado que “investiga, em parceria com o Ministério da Saúde, as referidas ocorrências”. Anteriormente, a secretaria havia confirmado o recebimento de 17.409 notificações de reações aos imunizantes, sendo que 92,5% foram classificados como “não grave”, referentes a reações mais comuns como febre, dores no corpo, mal-estar generalizado, dor de cabeça e vertigem.
Após insistência da reportagem, ao longo de toda a quarta-feira (30 de junho), a pasta estadual ofereceu maior detalhamento. Dos 542 óbitos notificados referidos pela pasta até o dia 25 de maio, “362 foram investigados e foi constatado que são meras associações temporais, isto é, ocorreram ao mesmo tempo que outro agravo de saúde, mas não foram ocasionados pelo uso das vacinas”, afirma. A parcela restante, 180 notificações, seguem em investigação. Ainda de acordo com a pasta, conforme o Programa Nacional de Imunizações (PNI), orienta-se que todos os eventos, não graves ou graves, incluindo os erros de imunização, “deverão ser notificados e investigados de forma criteriosa para que seja esclarecida se está relacionado ou não com a vacina”.
A SES-MG ainda afirmou que o sistema de informações utilizado pela pasta não revela o nome das cidades de ocorrência dos casos, de modo que não é possível saber em quais cidades ocorreram as notificações. “Essa análise é realizada de forma manual e minuciosa, o que exige um período maior de tempo para retorno”, complementa. Questionada sobre a observação do problema na cidade, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) confirmou a existência de efeitos adversos não graves, mas negou a ocorrência de reações graves.
‘Precisa ter uma investigação complexa caso a caso’
O protocolo estratégico de vacinação contra a Covid-19 prevê o acompanhamento à população vacinada até um ano após a imunização, a depender do tipo de evento adverso que poderia ser resultado da vacinação. “Muitos desses eventos adversos pós-vacina, às vezes, vão ter relação só temporal”, explica o médico infectologista Rodrigo Daniel. O especialista explica que até mesmo um atropelamento de pessoa recentemente vacinada precisa passar por uma investigação, que vai apontar “se ela foi atropelada porque teve algum descuido ou se ela foi atropelada porque sentiu algum mal causado pela vacina. Muitas dessas mortes, serão relacionadas apenas temporalmente com a vacina, e precisa ter uma investigação complexa caso a caso”, afirma.
Em Minas Gerais, até o momento, não existe nenhuma morte comprovadamente relacionada à vacina. “Quando a pessoa toma a vacina e imediatamente passa mal, fica mais fácil de relacionar. Mas quando acontece um evento adverso com muitas causas e uma delas pode ser a vacina, determinar que isso foi causado pela vacina ou não é extremamente complexo”, complementa.
Em âmbito nacional
Em todo o país, entre janeiro e maio deste ano, o último boletim epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde aponta que foram computados em todo o país 44.886 eventos adversos pós-vacinação. Assim como em Minas, a imensa maioria são de casos não graves: 97%. As notificações que correspondem a óbitos supostamente relacionados a efeitos adversos da vacinação somaram 2.277 casos. Qualquer correlação entre a inoculação do imunizante e as mortes já foram descartadas na maioria dos casos. Em 55,9% dos casos, a notificação foi considerada “inconsistente ou coincidente”; em 15,6%, “inclassificável”; enquanto 28,4% das situações ainda são apuradas.
Destas notificações de supostos óbitos, em que na maioria dos casos a correlação já foi descartada, 1.717 estão relacionados à Coronavac; 556 ao imunizante da AstraZeneca; e quatro ao da Pfizer. Cabe lembrar que, até maio, apenas os três antivirais eram utilizados no PNI. A maior parte das aplicações até aquele momento era da vacina Coronavac, percentual que ultrapassa a 65% das doses aplicadas até a ocasião, utilizada principalmente entre a população de faixas etárias mais elevadas à época, o que, de certa forma, pode explicar a discrepância entre os números.
“Ressalta-se, no entanto, que comparações diretas da incidência destes eventos entre as diferentes vacinas devem levar em consideração a população vacinada com cada imunobiológico, que a vacinação se iniciou pelos grupos mais vulneráveis, como os idosos – que apresentam maior risco de ocorrência de eventos adversos graves coincidentes (eventos adversos causados por outras condições e não pelas vacinas) – e profissionais de saúde – que estão mais sensíveis à notificação e aos eventos adversos”, pontua a Secretaria de Vigilância em Saúde.
Neste caso, a Secretaria de Vigilância em Saúde detalha os números relacionados às notificações de investigações envolvendo a Coronavac. Uma vez mais, de todos os casos que tiveram suas investigações concluídas, apenas em uma morte as apurações apontaram para uma “relação causal”. “Sobre os óbitos, após avaliação, 55,9% (1.272 notificações) foram classificados como inconsistentes ou coincidentes, e 44% (264 notificações) ainda não foram encerrados ou são inclassificáveis, aguardando complementação de dados para encerramento da causalidade. Um óbito foi considerado como tendo relação causal com as vacinas Covid-19”, diz o boletim epidemiológico.
O documento do Ministério da Saúde conclui que, até o momento, os dados indicam que essas vacinas apresentam excelente perfil de “risco-benefício” com alta probabilidade de impacto positivo na saúde da população brasileira.
Ocorrência temporalmente associada
O Ministério da Saúde detalha que o “Evento adverso pós-vacinação (EAPV)” é qualquer ocorrência médica indesejada temporalmente associada à vacinação, “não possuindo necessariamente uma relação causal com o uso de uma vacina ou outro imunobiológico. “Um EAPV pode ser qualquer evento indesejável ou não intencional, isto é, sintoma, doença ou achado laboratorial anormal” .
Os dados constantes do último boletim epidemiológico dizem respeito aos eventos adversos notificados no sistema de informação e-SUS notifica, além de dados de vacinação da Rede Nacional de Dados em Saúde e Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização no período de 18 de janeiro a 23 de maio de 2021. A data de atualização dos bancos de dados utilizados foi dia 23 de maio de 2021.
“A estrutura da vigilância dos eventos adversos associados às vacinas COVID-19 está descrita no Protocolo de Vigilância Epidemiológica e Sanitária de Eventos Adversos Pós-Vacinação”, diz o Ministério da Saúde. Para as investigações, a classificação de causalidade é realizada pelo método preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para os cálculos detalhados no mais recente boletim epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, foi considerado o número de 44.714.444 milhões de doses aplicadas até 23 de maio, sendo 14.522.108 (32,5%) doses aplicadas da AstraZeneca/ Fiocruz e 29.417.423 (65,8%) doses aplicadas da Sinovac/ Butantan e 774.913 (1,7%) doses aplicadas da Pfizer/Wyeth, excluindo as doses aplicadas em São Paulo.
“A exclusão das doses aplicadas no estado de São Paulo foi necessária uma vez que as notificações de EAPV do estado não são reportadas no sistema e-SUS notifica, pois utilizam sistema próprio. Neste momento, o Datasus/MS está trabalhando em conjunto com o estado para assegurar a interoperabilidade com o sistema do Ministério da Saúde”, afirma o boletim.
*sob supervisão do editor Eduardo Valente









