Então, qual é a Boa?
Se alguém dissesse, no início de 2011, que um time do interior de Minas Gerais iria trocar de cidade, mudar o nome e sair do Módulo II do Campeonato Mineiro para brigar por uma vaga na elite do futebol nacional, provavelmente seria chamado de maluco. Mas, em uma dessas histórias que só o futebol pode contar, com ingredientes por vezes comuns, mas que combinados dão um colorido especial que permite sonhos altos mesmo a todos quem têm a coragem de entrar em campo e disputar uma competição, isso é possível.
O bom ano e a atual campanha empolgante do Boa Esporte Clube, de Varginha, despertaram a atenção do restante do estado e do país. Hoje, o time mineiro está em 9º lugar na Série B do Brasileirão, após perder em casa, por 2 a 1, no confronto com o Vitória, ontem, pela 33ª rodada da competição nacional.
Os dirigentes do clube, que no começo do ano ainda se chamava Ituiutaba e tinha como sede a cidade do Pontal do Triângulo Mineiro, receberam a reportagem da Tribuna no último dia 21, em Varginha, quando o time do Sul de Minas jogou em seus domínios contra o Bragantino, que acabou saindo de campo com a vitória por 2 a 1. Ao descobrir um pouco mais da história desse ano atribulado e de sucesso do Boa, pode-se perceber que não existe uma fórmula mágica para campanhas surpreendentes e que, gradativamente, clube e cidade vão se envolvendo em um caso de aor mútuo.
A troca
Em 2010, ainda chamando-se Ituiutaba e mandando jogos no Pontal, o Boa terminou o Campeonato Mineiro rebaixado para o Módulo II. A volta por cima veio no segundo semestre, quando, na disputa da Série C do Brasileiro, o clube conseguiu o acesso para a Série B, após empates de 1 a 1 fora de casa e 0 a 0 no Estádio da Fazendinha, com a Chapecoense, de Santa Catarina.
Ainda na Série C de 2010, a equipe foi obrigada a deixar Ituiutaba para disputar as semifinais da competição, pois a Fazendinha, liberada à época para 3.500 torcedores, não tinha a capacidade para 10 mil espectadores exigida pelo regulamento da Terceirona. Na busca por uma vaga na decisão, o time mineiro enfrentou outro catarinense, o Criciúma, empatando de 1 a 1 tanto na casa do adversário como no Parque do Sabiá, em Uberlândia, local de mando provisório do Boa, avançando à final nos pênaltis. Na decisão, o Ituiutaba novamente jogou no Parque do Sabiá, onde perdeu para o ABC de Natal por 1 a 0. A segunda partida da final ficou empatada sem gols, e o time mineiro terminou com o vice-campeonato da Série C.
Paralelamente aos jogos finais da Terceira Divisão do ano passado, a diretoria do time mineiro procurava solucionar a questão da sede de suas partidas depois de conseguido o acesso, já que o regulamento da Série B exige arenas liberadas para, no mínimo, 10 mil torcedores. Foi então que surgiu a possibilidade de transferência para Varginha.
"Acompanho o futebol como todo torcedor brasileiro e tomei conhecimento da situação do Boa", conta o prefeito da cidade do Sul de Minas, Eduardo Carvalho. "Pensei que eles precisariam de um estádio, e nós precisávamos e um time. Então, segui o mesmo procedimento que tenho com a atração de grandes empresas. Apresentando um projeto que incluía não só o que a prefeitura tinha a oferecer ao time, mas a cidade, em termos de atendimento médico, localização, qualidade de vida, entre outros. Deu certo e eles vieram para cá, mesmo tendo negociado com outras localidades também", conta o chefe do Executivo local.
O presidente do Boa, Rone Moraes, não fala mais sobre a mudança. No início do ano, em uma série de entrevistas para rádios, jornais e redes de televisão, justificou a troca de cidades por conta da impossibilidade de mandar seus jogos em Ituiutaba. Hoje, o cartola deixa claro que está satisfeito com a nova casa do Boa. "Chegamos a Varginha no início do ano, e a desconfiança por parte do torcedor existia, naturalmente. Mas, viemos conquistando passo a passo essa credibilidade de hoje. Encontramos aqui toda a estrutura e oportunidade de continuar isso e estamos felizes", diz Moraes.
‘Se o ET veio, se o Boa veio…’
A ida do Boa para Varginha não envolveu dinheiro da administração municipal diretamente. "Não damos dinheiro ao time", garante Eduardo Carvalho. "O que oferecemos foi a estrutura sem custos. O Estádio Municipal Dilzon Melo (Melão) e o antigo campo do Flamengo de Varginha (principal local de treinos do clube) são mantidos pela Prefeitura e utilizados pelo clube. Cuidamos de toda a parte de manutenção, com convênios como o com a Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi), na qual presos trabalham em serviços gerais em ambos os locais, recebem e reduzem dias de suas penas. Além disso, buscamos parceiros como empresas de adubo para os gramados, de tintas para as pinturas. Nos dias de jogos, a bilheteria, bares e outras receitas são todas do Boa", explica. A contrapartida? Segundo Carvalho, é a divulgação do nome de Varginha, além da opção de lazer para a população local. "Hoje, o maior outdoor de Varginha é o Boa. Até brincamos: ‘se o ET veio, se o Boa veio, porque você não vem para Varginha também?’"
Linha dura
Talvez um dos segredos do sucesso do Boa seja um estilo diferente de administração. O clube é gerido pela família Moraes, que tem à frente das decisões, além do presidente Rone, seus irmãos, Roberto e Rildo, diretores e homens de confiança. "O Rone cuida mais da papelada, contratos, aspectos jurídicos junto à Federação Mineira de Futebol. O Roberto lida com a contratação, avaliação de atletas. Eu fico mais na parte operacional", explica Rildo.
Além da estrutura enxuta de administração, o Boa tem uma filosofia de trabalho peculiar, como atesta o técnico Nêdo Xavier. "Essa é a quarta vez que trabalho aqui. É um clube diferente. Eles são rígidos com o comportamento do atleta, e todo jogador que chega assina dois documentos: o contrato e a rescisão. Porque ele já vem sabendo que, se não produzir, vai embora. Tem que viver futebol 24 horas por dia", explica o treinador.
Com um orçamento apertado, o clube tem claro o perfil de atletas que busca para compor seus elencos. "Hoje, contamos com o patrocínio do BMG, da Lupo e da Coutinho, além das rendas dos jogos e do repasse da TV. Não há uma sobra financeira, e nossa folha de pagamento é sabidamente a menor da Série B, girando em cerca de R$ 200 mil. Trabalhamos com jogadores não tão conhecidos, a maioria jovens, sem oportunidade em grandes centros. Os que se destacam, buscamos uma conversa e apostamos em um contrato a longo prazo. Alguns vão trazer receita ao clube, como é o caso do Carlos César, hoje emprestado ao Atlético-MG", explica o presidente.
Atitude rara
Talvez pelo perfil diferente de sua gestão, a diretoria do Boa tenha tomado uma atitude rara no futebol brasileiro logo nos primeiros jogos em sua nova casa. Em um país acostumado com as demissões de treinadores após uma série curta de insucessos, Nêdo Xavier foi mantido mesmo após um início ruim de Módulo II do Campeonato Mineiro, quando o time acumulou quatro derrotas nos sete primeiros jogos da primeira fase, empatou dois e só ganhou um. "Nosso início foi difícil, mas, resolvemos, como sempre, apostar no trabalho do treinador. Reformulamos o elenco, e o resultado foi o título", lembra Rone. Segundo Xavier, o episódio mostra um dos benefícios de se trabalhar no Boa."Tem a vantagem de o clube ser gerenciado por esses três irmãos. São eles que mandam, e não há interferências de conselheiros, outros diretores e afins. Temos um diálogo muito bom, eles não interferem no que faço e cobram os resultados. Isso é bom, você trabalha tranquilo", conta.
Varginha abraçou seu novo time
Quem caminha pelas ruas do Centro de Varginha em dias de jogos do Boa começa a notar que a cidade realmente abraçou o time. Mesmo desde muito cedo, é fácil encontrar torcedores com a camisa da equipe. "O Boa encontrou aqui uma casa. Claro que, no começo, o público não vinha tanto, mas, foi evoluindo ao longo dos jogos. Eu fui um dos primeiros a acreditar, e é legal participar da formação de uma torcida", diz o comerciante Willian da Silva, de 25 anos.
No estádio, entre as 2.368 pessoas que compareceram ao confronto com o Bragantino – o clube de Varginha tem média de cerca de 3 mil torcedores por jogo em casa, com entradas custando R$ 10 e R$ 5 -, a presença de crianças e famílias inteiras se destacava. "Acho que o pessoal já nem sabia mais torcer para uma equipe em competição importante", brinca o estudante Carlos Henrique Franco, 19.
O apoio das arquibancadas vem crescendo, e a vontade da torcida é que a permanência da equipe em Varginha seja definitiva. "Queremos ter o Boa aqui para sempre", diz o aposentado Maurílio Bastos, 68, que se declara ex-torcedor do Flamengo de Varginha e do VEC. "O primeiro contrato foi feito por dois anos, porque termina meu mandato. Mas, desejo que o time fique e que, mesmo se não for eu o prefeito, meu sucessor encampe a ideia", afirma Eduardo Carvalho.
Segundo o presidente do Boa, as perspectivas são positivas. "Assim como a torcida, houve uma desconfiança inicial da empresas. Claro, você só quer associar sua marca a times vencedores. Para o próximo ano, os investimentos de firmas daqui tendem a ser maiores. Queremos um trabalho de longo prazo", garante Rone.
Estrutura muito parecida com a do Tupi
A estrutura de treinos e jogos do Boa lembra em muito a do Tupi. O time de Varginha tem como principal campo de treinos o antigo estádio do Flamengo. Um local que já demonstra as marcas do tempo, mas que atende bem às atividades dos atletas. A principal diferença entre ambos os clubes é que os jogadores da equipe do Sul de Minas não têm que se deslocar para realizar atividades físicas na academia, que fica em um dos vestiários desativados do campo de treinos.
O zagueiro Marcelinho, formado nas categorias de base do Carijó e hoje jogando no Boa, atesta que a condição de trabalho em ambos os times é semelhante. "É bem parecido. Tem um campo de treinos satisfatório, um bom estádio para sediar os jogos e a estrutura em torno é modesta. Mas, não falta nada, e as coisas vêm melhorando. A cidade, como Juiz de Fora, é aconchegante. Estamos muito satisfeitos aqui", diz.
Querendo mais
É apoiado nessa estrutura que o técnico Nêdo Xavier trabalha e vem conseguindo os resultados do ano: título do Módulo II do Mineiro, primeira colocação na Taça Minas Gerais e briga pelo acesso à Série A. Mas, o treinador destaca que sua principal estrela é mesmo o grupo. "Aqui não há vaidade. Sempre falamos para eles que o Boa é um trampolim em suas carreiras. Eles encararam com seriedade, e estamos conseguindo um trabalho bom."
Na avaliação da diretoria, a equipe já cumpriu esse ano seus objetivos principais, mas quer mais. "O planejamento traçado era o acesso ao Módulo I do Mineiro e permanecermos na Série B do Brasileiro. Conseguimos o primeiro com o título do Módulo II, e o segundo, a meu ver, também já alcançamos. Mas, sempre digo isso ao grupo: eles nos colocaram em posição de disputar uma vaga na Série A, e vamos em busca disso. Não tenho medo de subir, tenho medo é de retroagir em todo o trabalho feito até agora", garante Rone.








