Papo de gandula
Caxirola neles!
Caros e caras, não precisava ser gênio para saber no que ia dar a distribuição da caxirola no último domingo, no Ba-Vi. A torcida que tivesse o maior nível de revolta ia mesmo tacar o pequeno chocalhinho no gramado, obviamente. E não venham dizer para mim que o torcedor tem que ser mais educado. Cobrar sanidade de um apaixonado por futebol é o mesmo que querer tirar a paz de um monge budista, ainda mais dentro do estádio, no calor da partida.
Concordo que os fãs do viril esporte bretão por aqui devem e podem ser mais educados, mas isso é trabalho para muitos anos e não é só nos estádios. Nós – me coloco no saco também, que fique claro – brasileiros temos que ser mais educados no trânsito, no trato profissional, nas relações interpessoais e em um montão de outros aspectos, mas não se muda isso na marra. É uma evolução que começa no seio da família, passa pelos bancos de escola e continua para o resto da vida em um policiamento próprio constante que não nos impede de errar mesmo assim.
Enquanto isso não acontece, não se coloca um objeto facilmente arremessável nas mãos de um público tão volátil, sujeito a chuvas e trovoadas de uma paixão incontrolável por seu time. Claro que quem jogou a caxirola no campo da Arena Fonte Nova – a torcida do Bahia, revoltada com a péssima atuação do Tricolor e com sua diretoria – tem culpa da confusão, mas quem deu a ideia de distribuir o apetrecho e o entregou aos torcedores tem de dividir a responsabilidade. Como diria o capitão Fábio, de Tropa de Elite: é fifty-fifty.
A própria história da caxirola já é toda cheia de problemas. O tal do instrumento foi criado – leia-se copiado do tradicional caxixi, tocado com berimbau há uns 200 anos – pelo Carlinhos Brown, chancelado pelo Governo federal e pela Fifa como oficial da Copa do Mundo do Brasil e ainda vai gerar royalties para o músico fundador da Timbalada – nada contra o Brown, mas para cima de mim não, né? Serão distribuídas 50 mil dessas peças à torcida nos jogos do Mundial. Aí pode, porque esse pessoal que vai à partidas na Copa 2014 geralmente não nutre por sua seleção, qualquer que seja, a paixão visceral que tem por seu clube. Elas serão compradas da multinacional The Marketing Store – adivinha com dinheiro de quem… – e, para o público geral, vai custar R$ 29.
Por tudo isso, acho que o instrumento não representa a mim e a muita gente, para usar uma expressão da moda. Esse seria um motivo legítimo e incontestável para atirá-lo em alguém, mas aí o torcedor teria que ter braço para arremessar para cima, já que quem toma essas decisões e arma essas concordatas costuma frequentar camarotes. E é bom esse pessoal pensar bem antes de distribuir a caxirola em jogos da Seleção Brasileira antes ou durante a Copa das Confederações. Afinal, com a bola que não está se vendo na equipe do Felipão, é bem capaz dos chocalhinhos virarem instrumentos de protesto de novo, basta alguém gritar: caxirola neles!








