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A grande família


Por GUSTAVO PENNA

29/11/2015 às 07h00

Jogadores do JF Vôlei e da ADJF posam no heliponto do Independência Trade (MARCELO RIBEIRO/25-11-15)

Jogadores do JF Vôlei e da ADJF posam no heliponto do Independência Trade (MARCELO RIBEIRO/25-11-15)

Entre as centenas de torcedores que encheram o Ginásio da UFJF para torcer pelo JF Vôlei contra o Minas na última quarta-feira, um grupo tem se tornado tradicional em partidas da Superliga. Atletas da equipe de handebol da ADJF compareceram para apoiar os colegas de concentração, já que boa parte dos elencos faz do Independência Trade Hotel o lar de uma grande família. Apoio que tem sido recíproco, seja nas partidas ou no dia a dia, em uma convivência que tem criado laços de amizade e fortalecido o trabalho dos dois representantes de Juiz de Fora na elite do vôlei e do handebol nacionais.

ADJF e JF Vôlei montaram equipes com atletas vindos de todos os cantos do Brasil, e muitos não tiveram a oportunidade de trazer os familiares para Juiz de Fora. Dos 16 jogadores do vôlei, nove não são da cidade e vivem no hotel, enquanto 12 dos 16 representantes do handebol estão na mesma condição. Todos estes estão hospedados no patrocinador de ambas as equipes. E se a distância de casa é um ingrediente comum no esporte, a saudade da família e amigos tem sido compensada pela convivência entre os grupos, que trocam experiências de alegria e frustração do dia a dia, aliviando a tensão de quem passa meses vivendo longe de casa.

“Quando temos oportunidade, vamos assistir aos jogos deles, e eles assistem aos nossos também. É uma ligação bem legal”, afirma o ponta da ADJF Elias. “São experiências diferentes, embora os mundos sejam parecidos. Eles vivem as mesmas coisas que a gente. Estão longe das famílias, sentem falta de tudo. A gente convive e já tem uma amizade.”

Além de amenizar a saudade dos amigos, a convivência entre os dois mundos cria caminhos para a evolução profissional. Conhecer a dificuldade vivida pelo próximo traz amadurecimento, segundo o técnico do JF Vôlei, Alessandro Fadul, que também vive no Independência Trade Hotel. “Todos vivemos realidades bem diferentes. Se compararmos o handebol nacional com o voleibol, o vôlei está um pouco à frente em termos de organização e investimento. Essa troca de experiência de realidades diferentes amadurece não só o atleta, mas a pessoa também. É importante para somar forças. Tanto o handebol quanto o vôlei têm jogadores de altíssimo nível.”

Para o ponteiro do JF Vôlei Mark Plotyczer, que dedicou o ciclo olímpico de 2012 ao voleibol do Reino Unido, ficou claro que as dificuldades enfrentadas por atletas dos dois esportes são comuns, seja no Brasil ou exterior. “O pessoal do handebol conta que existe muito problema de calote. Mas essa não é uma exclusividade do Brasil. Aconteceu também na própria Grã-Bretanha, no handebol e no vôlei após os Jogos Olímpicos, quando encerraram os projetos dessas modalidades por lá. Foi um trabalho de seis anos que começamos do zero, e eles acabaram com tudo depois do ciclo olímpico.”

Fanfarronice e videogame

Para acelerar a integração entre os grupos, dois atletas usaram seus perfis extrovertidos. Brincalhão, o ponta da ADJF Elias se identificou com o central do JF Vôlei Ninão. São os dois que mobilizam o restante dos atletas, seja organizando torneios de videogame no hotel ou marcando presença no Ginásio da UFJF quando umas das duas equipes está em quadra. Para Elias, viver concentrado em um hotel exige que criatividade. “Jogamos videogame, às vezes saímos. Vamos pra piscina quando está calor. Não temos muitas opções, né? É bom que ficamos mais unidos. No handebol, principalmente, a gente é família.”

Ninão, por sua vez, garante que sua afinidade com os colegas de “casa” também vem da admiração pelo esporte. “Sempre fui um adorador do handebol. Eu gosto de dificuldade. Cheguei a jogar futebol, basquete, mas optei pelo vôlei por ser mais técnico. E o handebol me traz muito disso também. Não é um esporte fácil. Você precisa quebrar várias barreiras para chegar ao seu objetivo. É um esporte bonito de se ver. Não é qualquer um que vai chegar ali e jogar.”

O armador da ADJF Welton veio de Recife, e na cidade natal era companheiro de clube de Ninão, embora em modalidades diferentes. Mas a referência dada por alguns amigos serviu como cartão de visitas de que aqui, em Juiz de Fora, ele encontraria alguém em quem confiar. “Ele é um cara muito gente boa, cabeça aberta. É muito bom estar ao lado de pessoas confiáveis, das quais a gente gosta. Minha vida de atleta foi fora de casa. Estou acostumado. Mas quando tem uma rede de amigos que se confiam, tudo fica mais fácil.”

Na alegria e na tristeza

Os atletas mostram união na hora da alegria, mas também nos momentos de tristeza. No dia 18 de outubro, a ADJF recebeu o Pinheiros-SP no Ginásio da UFJF. Além do sabor amargo da derrota por 38 a 28, a partida foi marcada pelo rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho direito de Elias, lesão que tirou o ponta do restante da temporada.

“Uma contusão é frustrante para todo mundo”, diz Ninão. “Naquele jogo, cheguei um pouco depois da lesão, vi o Elias ali no banco e já achei estranho. Ele é um cara brincalhão, e vendo-o naquela situação, quis dar uma mão amiga. Falei com ele, ‘por mais que não sejamos da mesma modalidade, o que você precisar, pode contar comigo’. Nessas horas, por estarmos tão próximos, nossa família acaba sendo um ao outro. Tentei passar tranquilidade para ele.”

O recado fez a diferença. Apesar de seguir afastado das atividades profissionais, Elias levantou a cabeça e agora ajuda como pode, principalmente apoiando as duas equipes, ADJF e JF Vôlei, quando estão em quadra. “Depois da lesão, meus amigos têm sido primordiais. Ainda mais para mim, que sou um cara extrovertido. Eles sempre estão comigo, o quarto sempre está cheio com a galera, conversando, jogando videogame. E isso ajuda. Sem essa galera seria bem mais difícil do que está sendo”, afirma Elias.

E até nos duelos no videogame entre atletas de handebol e vôlei, o esporte segue em destaque. No desafio virtual é o futebol que acirra a rivalidade. “A gente fez uma amizade muito grande. Contra os outros atletas do vôlei eles conseguem jogar, dá umas partidas boas. Mas contra mim não dá pra eles, não (risos)”, afirma Ninão, iniciando mais uma provocação típica dos bons amigos.