Os pés pelas mãos
A fera voltou
Desde o jogo do Tupi, uma luta de Mike Tyson se tornou recorrente em meus pensamentos. Foi lá em 1995, quando o polêmico ex-campeão dos pesados voltou aos ringues para enfrentar um adversário de talento questionável. Um tal de Peter McNeeley. Tão gaiato que se autointitulava O Furacão Irlandês. Bastaram 89 segundos para Tyson fazer o oponente virar brisa e embolsar 25 milhões de doletas. Nocaute no primeiro round de um embate para lá de duvidoso. Apesar do retorno do ídolo torto de minha geração, o que mais me marcou naquele dia foi a narração burlesca do locutor número um da televisão brasileira. Durante a transmissão, Galvão Bueno usou repetidamente o bordão de um dia só: a fera voltou! No que permite minha memória adolescente, a frase foi dita 267 vezes. Antes, durante e depois do combate. Posso estar exagerando, mas só um pouco para quem tinha seus 16 anos à época.
Dito tudo isso, vem a justificativa do porquê alinhei Tupi e Tyson em uma mesma frase. Quarta-feira, no Municipal, tive meu momento ufanista. Meu dia de Galvão Bueno. A fera voltou! foi o bordão cada vez que Ademilson pegava na bola. O castigo forçado e sem merecimento recebido pelo Carijó, obrigado a ficar 25 dias longes dos jogos oficiais por conta das armações de bastidores dos times do Centro-Oeste, foi até bom. Recuperado de lesão, o camisa 9 pôde comandar o Carijó em uma vitória épica. Nos 4 a 1 contra a Anapolina, Adê fez de tudo. Perdeu gol feito quando o jogo estava 0 a 0 e foi aplaudido pela arquibancada. Torcedor sabe das coisas. O apoio resultou em um, dois, três gols. Se não bastasse, o atacante mostrou a generosidade dos ídolos, que sabem dividir seus momentos com os companheiros. O gran finale do grande de dia de Adê foi a assistência açucarada para Henrique, que fechou o placar e asfaltou o caminho para a Série C.
O placar elástico não reflete tanto o que foi o jogo. Nem precisa. O Tupi foi inteligente, eficiente, mas ficou longe de ter o domínio amplo, geral e irrestrito. A Anapolina teve seus momentos. Mas o Galo tinha Ademilson e Ademilson tem estrela. Fez o que se espera de um ídolo. Mordeu a orelha da Xata. A fera voltou, e a Série C é logo ali. Fica a 90 minutos da redenção.









