Entrevista com Raphael Botti, jogador de futebol


Por GUSTAVO PENNA

27/12/2015 às 07h00- Atualizada 29/12/2015 às 08h28

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(Olavo Prazeres/17-12-2015)

Aos 34 anos, não foram os longos anos na base do Vasco até o lançamento para o futebol profissional que marcaram a carreira do meia Raphael Botti. Após dar os primeiros passos na equipe adulta da equipe de São Cristóvão em 2001, ao lado de craques como Bebeto e Romário, o atleta, nascido e criado em Juiz de Fora, ampliou suas fronteiras rumo à Coreia do Sul, onde defendeu o Jeonbuk Hyundai por cinco temporadas. Na sequência, se mudou para o Japão, atuando pelo Vissel Kobe durante quatro anos, fixando de vez as raízes no continente asiático.

Mesmo retornando para dois anos no Figueirense-SC, a notoriedade no mercado asiático atraiu novamente o meia, que já está há dois anos no Army United, da Tailândia, e, de contrato renovado, já se prepara para mais um ano de desafio em meio às peculiaridades da diversificada cultura tailandesa.

Jogador do mundo, desbravador de novas fronteiras do futebol, Botti aproveita as férias para voltar à cidade que fez parte de sua juventude. É em Juiz de Fora que o atleta mata as saudades da comida mineira e do aconchego da família. Lembrando com carinho do futebol de campo e futsal do Clube Bom Pastor, onde deu os primeiros passos com a bola, o jogador não se esquece também das experiências com as camisas de Sport e Tupi. Um passado distante, mas que segue vivo na memória do juiz-forano.

Tribuna – Antes desses dois anos na Tailândia, você teve muito tempo de experiência na Coreia do Sul e no Japão. Você se sente em casa na Tailândia, com os costumes e tradições?

Raphael Botti – Cara, estou 100% adaptado. É um país que me surpreendeu. Estou morando em Bangcoc, que é uma cidade muito boa. De certa forma, o tailandês é cativante, se parece um pouco com o brasileiro, que é alegre e mais fácil de se fazer amizade. Em relação à língua, a gente sempre fica com dificuldade, né? Mas, por estar na capital, é mais fácil encontrar pessoas que falam inglês, e aí dá para se virar melhor. Com relação à cultura, já tinha vivido dez anos no Japão e na Coreia, então não tive tanta dificuldade. O povo asiático é mais ou menos parecido, e pude me adaptar mais facilmente. Estou satisfeito de viver lá.

– Bangcoc tem uma das maiores densidades demográficas do mundo (mais de cinco mil habitantes por quilômetro quadrado). A sensação realmente é a de viver em um formigueiro humano?

– É isso mesmo. Muita gente acumulada no mesmo lugar. A impressão é que o tailandês só vive em Bangcoc. O tráfego é aquela coisa de louco, aumenta essa impressão ainda mais. Por mais que façam investimentos em ruas é impossível andar de carro, seja na hora que for. Lá o que menos faço é dirigir. Você fica dependente quando pega o carro e sempre corre o risco de chegar atrasado. Sempre prefiro sair de táxi, e, se o trânsito parar, pego o moto-táxi e vou para uma estação de trem. Faço essas doideiras para chegar no horário. Mas para mim foi muito bom. Uma experiência bem diferente do que tinha vivido, e tem sido maravilhoso.

– E como você faz para se virar com a alimentação? Conheceu muita coisa diferente da culinária exótica de lá?

– Tem muita coisa sim, mas sou enjoado para comer. Sou aquele mineirinho do arroz com feijão, farofinha e bife. Já experimentei uma coisinha ou outra, mas esse negócio de comida exótica não é o meu forte. E a comida deles é muito apimentada. Imagina: um calor de 40º comendo uma pimenta que parece fogo. Não é mole. Pelo menos lá tem de tudo que você possa imaginar nos mercados de comida importada. Não preciso trazer nada do Brasil. Sempre acho lá. Além dos restaurantes de todas as nacionalidades.

– Como é a relação do tailandês com o futebol?

– O futebol está crescendo uma barbaridade. As grandes empresas da Tailândia começaram a patrocinar os times de futebol. Automaticamente a imagem do esporte ganha divulgação. O futebol é uma febre no país. É uma quantidade muito grande de garotos acompanhando os jogos. Essa geração vai crescer, e provavelmente o futebol vai se tornar o esporte número um da Tailândia. Os times estão evoluindo taticamente, estão conseguindo jogar a Liga dos Campeões da Ásia, passando de fase. Está sendo muito bom.

– Em um comparativo, você se sente mais seguro atuando fora do Brasil, onde já conquistou terreno, apesar de não ser seu local de origem?

– Com certeza. Fora de campo é inegável. É um lugar tranquilo para viver. E no futebol, apesar de não ser tradicional como no Brasil, é super organizado, tem uma margem muito grande de crescimento, e você vê um esforço dos clubes para que haja esse crescimento. Me impressiona o respeito. Quando os jogos acabam, você pode ter perdido ou ganhado por 5 a 0, todos os times vão cumprimentar as torcidas. Vão até a torcida adversária para agradecer por terem ido ao estádio. É uma coisa que para a gente não existe. É uma cultura que, apesar do futebol estar abaixo do brasileiro, de certa forma já evoluiu em coisas que ainda não conseguimos evoluir. Infelizmente ainda vemos brigas, agressões, quando era para haver rivalidade só dentro de campo.

– O que você espera do seu futuro? Ainda quer retornar ao Brasil ou se vê encerrando a carreira no lugar que te valorizou?

– Com 30 anos, a minha intenção era voltar para o Brasil, que foi o que aconteceu. Fiquei dois anos (no Figueirense). Mas agora estou satisfeito. Para eu voltar seria por conta da idade. Mas como estou feliz e a família também, fico satisfeito. Sou reconhecido pelo trabalho que faço, tenho boas amizades. No momento não vejo razão para voltar. Vou jogar por mais um tempo, e quem sabe no futuro representar algum clube no qual joguei, dando um suporte para esse time. Seria maravilhoso.

– Você passou toda a sua formação como jogador e a primeira temporada como profissional no Vasco. O que pensa sobre a situação do clube com essa sequência de rebaixamentos?

– Primeiro preciso dizer que fico triste. Pela grandeza do Vasco e tudo que representa para o futebol brasileiro estar passando por um momento como esse. Mas a gente sabe que isso é uma coisa que vem lá de trás, de uma dificuldade muito grande. Os grandes clubes do Brasil infelizmente estão afundados em dívidas gigantes. Nem todos os clubes conseguem equilibrar e montar times competitivos. A gente sabia que o Vasco iria passar por essa dificuldade. Quando você tem um time que está se formando para disputar um campeonato brasileiro, com times que seguem com os mesmos jogadores por dois, três anos, é muito difícil. Fica a minha torcida para que o Vasco consiga sair dessa situação e voltar para o lugar que merece.

– Por outro lado, sendo de Juiz de Fora, imagino que você tenha ficado satisfeito com o Tupi na Série B. Como foi para você acompanhar essa conquista?

– Fiquei super feliz. Foi uma data histórica para a cidade. Acho que é algo que vai divulgar e movimentar a cidade. Série B é outro nível. Uma quantidade muito maior de pessoas vai acompanhar o Tupi, até para o envolvimento de jogadores para o futuro. Vai ser uma coisa maravilhosa, então espero que o Tupi consiga permanecer na Série B e consolidar essa vaga conquistada.

– A permanência do Tupi na Série B passa por se estruturar melhor. Nesse caso, chegando à Série B e com perspectiva futura de se firmar, chegou a pensar em um dia jogar pelo Tupi?

– É lógico que vendo o Tupi nessa condição eu fico com vontade. Mas acho que por conta da idade, talvez fique difícil. Mas independente de o Tupi estar na Série B, quando eu voltar e parar de jogar, e se o Tupi precisar de algum tipo de ajuda e quiser contar comigo em algum momento, será um prazer poder ajudar. Vou estar na minha cidade, realizando com o maior prazer para o Tupi conquistar seus objetivos.