Boxeadora brasileira Viviane Obenauf conta sua trajetória no esporte
Boxeadora, que começou a treinar com Sergipe, pai da atleta da Seleção Brasileira Beatriz Ferreira, está entre as melhores do mundo e conta sua trajetória no esporte
“Garota de Ouro”. O apelido da boxeadora Viviane Obenauf é fácil de explicar: a partir de 2012, seu primeiro ano como lutadora amadora na Europa, a brasileira venceu 10 lutas e empatou uma e pouco tempo depois foi campeã suíça de boxe. Hoje, aos 31 anos, Viviane ainda carrega com o orgulho o fato de nunca ter sido vencida por nocaute no ringue e é a 13ª do mundo pelo ranking da WBA (World Boxing Federation) e primeira brasileira entre as peso-pena, Viviane lembra que há alguns anos recebeu a proposta para perder uma luta na Austrália em troca de dinheiro. Apaixonada pelo esporte e sempre buscando agir com correção, a lutadora afirma nem ter pensado na proposta: “Falaram comigo de uma forma que deixava nas entrelinhas que eu teria que perder. Eu, de prontidão, não aceitei. Acho que na vida não podemos fazer tudo por dinheiro. Eu jamais me venderia e menos ainda em um esporte que eu me dedico dia e noite para ser o melhor que eu posso.”

Superação nos ringues britânicos
Este ano Viviane foi desafiada a lutar pela terceira vez na Grã-Bretanha, um dos principais centros do boxe feminino no mundo. A lutadora já havia sido derrotada duas vezes em solo britânico; a primeira em 2016, quando Viviane perdeu por pontos para uma das melhores boxeadoras do mundo, Katie Taylor, lutadora irlandesa campeã olímpica da modalidade em 2012. “Foi como uma vitória. Todas falavam que eu não iria ter chance nenhuma contra ela, que iria perder por nocaute. Mas eu lutei até o final, aguentei todos os rounds e fui pouco golpeada”, revela. A segunda derrota aconteceu em dezembro do ano passado, ao perder para Chantelle Cameron.
Quando foi convidada para enfrentar Natasha Jonas, destaque do boxe britânico, em Cardiff, no País de Gales, Viviane não pensou duas vezes antes de aceitar o desafio: “Essa é minha última vez. Se eu perder, eu paro de lutar”, pensei. A preparação para enfrentar a britânica Natasha, até então invicta, foi intensa e teve duração de dois meses. Ao pisar no ringue, no dia 4 de agosto, Viviane mostrou que não estava brincando: passou pela britânica por nocaute técnico, no quarto round da luta e conquistou o título da WBF International Continental. Essa foi a primeira derrota de Natasha no profissional, e a inglesa já manifestou interesse em uma revanche. Viviane, que não foge da luta, declarou que também deseja um novo desafio para consolidar seu nome na Inglaterra. “Eu tenho medo é de doença, de pobreza, mas não tenho medo de lutar. Eu não tenho medo de encarar ninguém, eu vou com tudo!”

30kg a menos
Nascida em Três Rios, Viviane mudou-se para Juiz de Fora aos cinco anos e começou a praticar boxe na cidade, aos 18, com o treinador Sergipe, pai da atleta Beatriz Ferreira. Há uma década morando na Suíça, o carinho por Juiz de Fora fica evidente quando ela escolhe onde vai passar as férias e sempre inclui a cidade no roteiro. Neste mês, a lutadora esteve em Juiz de Fora por alguns dias revendo a família e o local no qual iniciou sua trajetória.
Cursando faculdade e sem tanto foco por todas as distrações típicas da juventude, Viviane deixou de praticar o esporte por um bom tempo. Aos 25 anos, já vivendo na Europa, casada e com um filho pequeno, ela retomou os treinos no esporte quando procurava uma atividade física para voltar à velha forma. “Eu estava muito acima do peso depois de ter o meu filho Calvin, então eu voltei a treinar boxe cinco meses após seu nascimento. Em pouco tempo eu já estava treinando todos os dias. Cheguei a perder quase 30kg desde o nascimento de Calvin até o peso que tenho para lutar na minha categoria (59 kg)”
Além de treinar muito, Viviane vive com o filho de 7 anos, tem um outro trabalho além do esporte e uma academia de boxe na Suíça, onde cerca de 80 mulheres treinam. Ela se desdobra para dar conta de tudo e destaca, ainda, a importância das mulheres batalharem por independência, não só financeira como em todos os aspectos da vida. “A Suíça é um país muito caro, então eu tenho foco total no meu trabalho. É trabalho 24 horas por dia, fora e dentro do ringue. Eu não desisto dos meus sonhos e ideais”, conta. Entre seus objetivos, a lutadora cita fornecer boas condições de vida para o filho, poder visitar os familiares no Brasil duas ou três vezes por ano e seguir crescendo no mundo do boxe, esporte que pretende praticar por pelo menos mais quatro anos.
Viviane lembra que foi passada para trás por empresários do boxe no começo da carreira, mas, guerreira como é, conseguiu se levantar após o golpe e venceu também essa batalha. “Eu não sabia de nada nas minhas primeiras sete lutas. Não sabia qual o valor do contrato, não sabia quanto eu ia ganhar. Roubaram muito dinheiro meu no começo. Creio que muitas esportistas passam por isso na carreira”. Hoje a lutadora faz questão de acompanhar de perto o trabalho do empresário, que não toma nenhuma decisão sem que ela concorde. Viviane afirma, ainda, que é essencial ter patrocínios para as lutas e não esconde a alegria ao contar o último presente que ganhou de um dos patrocinadores: um Camaro laranja, sua cor favorita.









