Juiz-forano que representou MG nos Jogos Escolares da Juventude almeja ir além
Criado entre ciclistas, Luiz Miguel Assis planeja correr no Pan-Americano e nas Olimpíadas

Estreante nos Jogos Escolares da Juventude, o ciclista Luiz Miguel Assis, 14 anos, representou Juiz de Fora e Minas Gerais no campeonato estudantil este ano. Quem vê o menino sobre duas rodas não imagina a história que há por trás dessa paixão, que o motiva a continuar pedalando e buscando alcançar novos níveis. Iniciante no mundo das competições, mas com um futuro a ser construído, Luiz Miguel é um exemplo de como a dedicação e a paixão de uma família pelo esporte ajuda na formação de um atleta de base.
Tudo começou com uma oficina de bicicletas. Quando pequeno, Jorge Américo, o tio de 39 anos, costumava pegar as ferramentas do pai e, com o tempo, começou a trabalhar na manutenção de bicicletas. Para promover o negócio, ele e alguns amigos organizavam passeios para visitar cidades próximas e atrair clientes para a loja. O interesse pelo ciclismo se estendeu ao irmão e, anos depois, seus sobrinhos e seu filho também se entregaram àquilo que se tornou a tradição da família.
Gabriel Assis, 24, se lembra de receber incentivo do tio ainda na infância. “Eu praticava hipismo, com provas de tambores e balizas, mas perdemos nossos animais por uma fatalidade. Então eu desiludi e comecei a pedalar, começamos com passeios e foi se tornando algo mais sério”, comenta o rapaz, que chegou a participar de competições amadoras e hoje administra a oficina que herdou do tio.
Mas foi em seu irmão que a família enxergou o potencial de um atleta de alto rendimento. “Luiz Miguel é aquele menino que dorme e acorda pensando em bike. E pela experiência que temos, a gente vê que ele sabe administrar o potencial que tem, quanto à resistência e à técnica, sabe o momento certo de estar atacando e respirando. Isso é muito importante para um atleta que compete, porque não é só chegar lá e pedalar, você trabalha tudo, e a chave principal é o psicológico”, observa Gabriel.
Brasileiro, Pan e Olimpíada

Há dois anos, Luiz Miguel participou de sua primeira disputa, e tamanha é sua dedicação que Jorge diz não se lembrar de nenhuma prova em que o sobrinho não tenha subido no pódio. “Depois da primeira corrida, eu fui praticando mais, até chegar ao nível de andar com os atletas da frente em todas as competições”, conta o adolescente. Como resultado, este ano Luiz Miguel participou pela primeira vez dos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) e foi campeão, conquistando classificação para os Jogos Escolares da Juventude, organizado pelo Comitê Olímpico do Brasil.
Competindo na modalidade estrada, o atleta terminou na nona posição geral, com uma diferença de 21 segundos para o primeiro colocado, paranaense. Segundo Gabriel, o irmão chegou a receber um certificado, alegando que ele foi o primeiro juiz-forano a se classificar para a etapa nacional da modalidade. A Escola Municipal Carlos Augusto de Assis, onde estuda e a qual representou, também chegou a fazer homenagens. “A escola me apoia muito”, ressalta o atleta.
“Foi uma emoção muito boa, mas ano que vem pretendo chegar mais forte, evoluir a cada dia para pegar um pódio. Já alcancei uma etapa, que era chegar nos Jogos Escolares, agora quero ganhar o Brasileiro, provas maiores. Eu quero representar Minas Gerais no ranking brasileiro, correr no Pan-Americano e nas Olimpíadas”, comenta o jovem, demonstrando uma maturidade que não condiz com sua pouca idade. “O que chama atenção nele é a perseverança e a força de vontade”, avalia o irmão. “Se ele não conseguiu fazer algo, ele quer voltar e fazer até conseguir. Nosso maior medo por ele ter ido à etapa nacional era que se decepcionasse. Mas quando ligávamos, ele dizia ‘estou aqui aprendendo. Acho que dessa vez não vim aqui para levar resultado, foi para ter experiência'”, relembra.
Ao lado de um atleta profissional
Para conquistar uma vaga na etapa nacional e ficar entre os dez melhores, Luiz Miguel contou com o apoio de um atleta conterrâneo. Desde a classificação do jovem para o JEMG, Felipe Marques atua como treinador, com base em sua experiência em provas profissionais de nível estadual e nacional, tanto em speed quanto em mountain bike. Amigo da família há alguns anos, ele se dispôs a ajudar Luiz Miguel voluntariamente. “Ele corria muito mountain bike e não tinha experiência nenhuma em andar no asfalto (speed), então a família me pediu orientações sobre treinos similares à prova que ele iria disputar”, conta. Esse é o segundo atleta de base que Felipe auxilia. “Ajudo porque muitas vezes eles não têm condições de pagar um treinador e não têm noção do que fazer, podendo errar por exagero. A base é o principal momento dos atletas. O ciclismo brasileiro vem passando por um momento muito drástico, de aversão ao dopping, e uma coisa que sempre alertamos é que esse não é o caminho”, conta.
Por motivos de rotina, os dois raramente conseguem se encontrar para treinar juntos, mas diariamente Felipe passa orientações ao atleta e recebe feedback dos treinos. “Ciclismo é tempo, tem que correr para aprender. Acredito que ano que vem ele estará muito mais preparado para os Jogos Escolares”, avalia o experiente ciclista, que acredita nas chances do jovem de chegar ao nível profissional. Para o ano que vem, a dupla irá planejar um calendário de competições e treinamento. “Eu falei para ele dar ênfase nas principais provas do cenário nacional, o Campeonato Brasileiro e a Copa Internacional, que são provas de nível altíssimo, onde está toda a mídia do esporte e, se ele tiver bons resultados, dali é possível conseguir contratação para alguma equipe”, comenta, ressaltando, porém, que sempre incentiva que, nessa fase, o esporte seja tratado de maneira leve, para não pressionar o jovem atleta.
Inspirado em personalidades como o brasileiro Henrique Avancini, o holandês Mathieu van der Poel e o suíço Nino Schurter, além do próprio treinador, Luiz Miguel afirma se encantar tanto pelo speed quanto pelo mountain bike. Conciliando com os estudos, ele realiza treinos diários, revezando entre os dois estilos de ciclismo. “Quero dar tudo de mim, me esforçar mais para chegar no alto nível”, diz. Depois de 30 anos no ciclismo, tio Jorge se sente gratificado em observar os frutos da semente que plantou. “Fico muito orgulhoso de saber que o incentivei e que ele está se dando bem.”









