Atletas de fim de ano sob risco
A estação mais quente do ano começa apenas no dia 21 de dezembro, mas seus sinais já estão nas ruas de Juiz de Fora. Com as altas temperaturas, os cidadãos passam a expor o corpo e, consequentemente, intensificam a prática de atividades físicas. Além disso, o calor impele "atletas em estado de repouso" de retomar os esportes ao ar livre, notadamente a corrida e o ciclismo. Mas, sem a devida orientação médica, o "atleta de fim de ano" pode sofrer graves consequências.
"Problemas cardiovasculares potencialmente fatais, como o infarto, e lesões do sistema musculoesquelético, que possuem o risco de gerar incapacidades permanentes, são alguns dos riscos", afirma o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, Jomar Souza. Ele acrescenta que as atividades de alto impacto, como a corrida, com grande chance de contato entre os atletas, como o futebol, e a musculação com altas cargas são os esportes que apresentam maior risco de lesões.
O ortopedista e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva, Ronaldo Lopes Cançado, explica que a maioria dos atletas de "fim de ano" quer recuperar um longo período de inatividade em curto espaço de tempo. Esse processo acelerado pode causar lesões, sendo as mais frequentes nos pés, tornozelos, joelhos e coluna. "Atividade física deve ser feita ao longo de toda vida. É o remédio mais barato para manter a pessoa saudável. O recomendável é cinco vezes por semana, ao menos por 30 minutos, para não ser sedentário."
Cançado acrescenta que a avaliação médica deve ser o primeiro passo para a longa caminhada rumo ao corpo saudável. Segundo o especialista, até os 40 anos, são necessários, no mínimo, exames clínicos e um eletrocardiograma para avaliação das condições físicas e cardiológicas. Após essa idade, é necessário ainda um teste ergométrico, para análise mais aprofundada do funcionamento cardiovascular, quando submetido a esforço físico gradual, buscando investigar possíveis alterações que não foram detectadas nos demais exames.
Análise profissional
Além da avaliação médica, outros cuidados são importantes para que a pessoa pratique esportes com segurança. Diretor do Instituto Brasileiro de Saúde do Movimento, o fisioterapeuta Anderson Daibert explica que houve uma evolução na possibilidade de avaliação dos praticantes de esportes. Hoje existe uma série de exames físicos funcionais que podem – e devem – ser feitos. Os diagnósticos irão indicar um caminho para que o educador físico possa, posteriormente, escolher a melhor forma de trabalhar a atividade para o interessado. É o chamado check up fitness, formado basicamente por três exames: posturografia eletrônica, baropodometria e acelerometria.
Com esse laudo em mãos, o profissional tem a oportunidade de fazer um trabalho individualizado, minimizando o risco de lesões. "Com essa interação, nós temos um diagnóstico completo. É possível ver se há um encurtamento muscular para a realização de um trabalho de alongamento, por exemplo, ou se a musculatura de determinada área pode ser fortalecida, para evitar uma sobrecarga nas articulações", explica o mestre em educação física e técnico de atletismo Marcus Vinícius da Silva.
Lesões
Mesmo naqueles com corpo "preparado", as lesões podem aparecer, como aconteceu com o funcionário público André Fonseca, 52 anos. Ele anda de bicicleta e corre de quatro a cinco vezes por semana e por isso acreditava que poderia ingressar no circuito de corridas de rua. Participou de algumas provas, mas acabou se contundindo. "Tive uma lesão muscular na panturrilha. Senti muita dor e não consegui terminar a corrida. Acredito que me faltou a preparação adequada, pois a exigência da musculatura é diferente. Agora estou fazendo um acompanhamento com um profissional para voltar ao circuito."
Praticante de musculação há cinco anos, o dentista Frederico Neves de Araujo, 34, resolveu em março desse ano intensificar seus treinos. Entrou para um grupo de corrida e começou a participar de diversas provas, incluindo uma maratona. Em julho, sofreu uma fascite plantar, ou seja, uma inflamação na membrana que envolve a musculatura da planta do pé. "Procurei um ortopedista e estou fazendo fisioterapia até hoje. Talvez a razão da minha lesão tenha sido a intensificação muito grande do treino", acredita.
Dietas mirabolantes: um perigo extra
O mergulho em uma rotina de exercícios físicos, normalmente, vem acompanhada da tentativa de assumir novos hábitos alimentares, o que pode ser igualmente perigoso. A educadora física e nutricionista da equipe de vôlei da UFJF, Mary Tabet Gonçalves, adverte: "Não há formula mágica para o emagrecimento. As pessoas se esquecem que levam quatro, cinco meses para engordar. Querem perder tudo em 30 dias", critica. As dicas básicas da especialista para quem deseja perder peso são conhecidas: alimentação de três em três horas em pequenas porções, beber muita água – o cálculo é de, no mínimo, 30ml por quilo de peso, ou seja, se a pessoa possui 80kg, deve beber 2,4l de água diariamente – comer alimentos integrais, com baixo índice glicêmico, além de frutas, legumes e verduras. "Essas ações aumentam o metabolismo do corpo e aceleram, de forma saudável, o consumo de calorias".
Mary Tabet chama atenção para os riscos das dietas realizadas sem orientação profissional como, por exemplo, a dieta hiperproteica, crescente entre os jovens que buscam a proteína por meio de suplementação alimentar, sem orientação, visando a acelerar o processo de hipertrofia (aumento no volume dos músculos). A longo prazo, a dieta pode interferir na função renal. "O uso de suplementos alimentícios sem recomendação especializada pode ser muito perigoso podendo causar danos muito grandes nos rins e até gerar problemas cardiovasculares."









