Prova pirata ou ‘pelada’ de moto?
Pouco mais de um mês após o falecimento do piloto Swian Zanoni, 23 anos, que sofreu um acidente fatal em uma apresentação na cidade mineira de Orizânia, na Zona da Mata, a preocupação com o grande número de eventos de motocross realizados sem a autorização da Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM) e das federações estaduais tem aumentado entre os atletas mais experientes. Independente dos diferentes discursos sobre a causa da morte do motociclista – a organização afirma que Zanoni bateu a cabeça no chão após perder o controle da moto, enquanto alguns relatam uma colisão com palmeiras próximas à pista -, o juiz-forano Guto Lima é categórico ao afirmar que os eventos paralelos expõem os competidores. "A maioria das corridas da região é pirata. São muitos os riscos."
O local admite que os próprios pilotos federados, de certa forma, incentivam a prática. "Os organizadores pagam cachê, e o pessoal acaba indo. Eu sempre evitei, mas já participei. É um público muito caloroso. Mas não vou mais." Segundo Guto, a razão que o levou a abandonar os eventos piratas é a falta de segurança. "Muita poeira, pistas feitas de qualquer maneira, desnível entre os pilotos, árvores, postes e público próximos às pistas, ambulâncias sem os equipamentos adequados… são muitos fatores que potencializam os riscos de acidentes."
Para outro veterano, o piloto carioca Jânio Boechat, 50, "estes eventos não têm os mesmos critérios de segurança adotados nas competições oficiais". Apesar de também evitar as provas piratas, Boechat competiu no local onde ocorreu o acidente de Zanoni, atendendo a um pedido do filho de 17 anos, também piloto. "Corri na prova sênior. O problema era a posição das palmeiras. Independente se Swian bateu na árvore ou não, elas estavam muito próximas à pista."
Os pilotos creem que é preciso uma maior união da categoria e uma intervenção mais severa das federações para coagir a realização de eventos não homologados. "Em vez de 20 piratas, que sejam organizados cinco eventos oficiais. Alguma coisa precisa ser feita para amenizar os riscos que já fazem parte do esporte", afirma Boechat. Guto faz coro. "Acaba que a geração nova cresce errado no esporte. O motocross não é isso. A solução é proibir, mas isso esbarra na falta de fiscalização."
Mobilização
De acordo com o vice-presidente da CBM, Roberto Boettcher, a entidade está se mobilizando. "Mudanças podem acontecer em janeiro. No encontro anual das federações, vamos elaborar uma carta que será enviada ao Ministério Público de cada estado solicitando que eles intercedam junto às prefeituras e aos Bombeiros para que tenham maior critério na liberação de alvarás para eventos não homologados."
Um hobby de alto risco
Mesmo os pilotos não federados reconhecem a falta de segurança em alguns eventos. Porém, consideram que há exagero em algumas análises. "Existem pistas não regulamentadas muito seguras. Essa avaliação depende da técnica dos pilotos. Quando identificamos que a pista está perigosa, acabamos tirando a mão", explica o juiz-forano Paulinho 09, 28 anos. Para o piloto amador, estes eventos são uma alternativa para aqueles que têm o esporte como hobby. "Desde moleque sou fissurado pelo motocross. É meu meio de lazer. Não faço por dinheiro ou por fama. Nunca passou pela minha cabeça me federar e disputar competições oficiais. Sou um esportista amador."
Federado no Rio de Janeiro, outro juiz-forano construiu sua experiência nas pistas "piratas". Aos 35 anos, Alemão compete há cerca de 15. "Tem evento que a gente vai pensando que a organização é boa e, quando chega, encontra outra coisa. Nesse caso, deixo de participar para conscientizar o organizador a melhorar as condições. Mas sempre tem aqueles fominhas, que não deixam de competir."
Organizador de provas na região há dez anos, Fabrício Fernando garante a segurança de suas competições. "Todos os nossos eventos são seguros e realizados em boas pistas, com todos os alvarás, inspeções e autorizações em dia. Tudo dentro da lei." Fabrício considera a discussão benéfica, pois separa organizadores experientes de "aventureiros". "Existem alguns concorrentes que, às vezes, pecam em algum quesito. Isso prejudica os promotores sérios. Essa cobrança ajuda a distinguir um do outro e valoriza nosso trabalho."
Ponto de vista
Para Fabrício, atualmente, alguns eventos paralelos são mais estruturados e atrativos que as competições oficiais. "Hoje, este tipo de prova apresenta boas premiações, muitas vezes melhores que as dos campeonatos oficiais, atraindo pilotos de ponta. Tanto que a federação não consegue embargar. Trabalhamos dentro de todas as exigências feitas por eles. Aliás, vamos além."
Fundador e administrador do site "Lamacross", que divulga eventos e reúne adeptos do motocross na região, André Luís Rodrigues entende que essa é a realidade da modalidade. "A maioria das provas realizadas em todo o Brasil não é homologada, e creio que o mesmo acontece com outros esportes, seja por falta de informação, burocracia ou alto custo."
Para André, o termo "prova pirata" é pejorativo, mesmo que, em alguns casos, existam diferenças nas estruturas entre eventos paralelos e federados. "Muitas corridas não passam de uma confraternização entre amigos. É claro que alguns pilotos de ponta discordam disso. Eles podem selecionar os eventos que participam e acabam desconhecendo a realidade. Chamar uma prova de motocross não homologada dessa forma é o mesmo que chamar uma pelada de fim de semana de futebol pirata, guardando as devidas proporções."









