Os pés pelas mãos
O problema não é a derrota em si, mas a assimilação da derrota. Ver seu time ser subjugado por outro de menor expressão pode ser menos intragável se o resultado implicar, por exemplo, no rebaixamento do seu arquirrival. Há também aquela malandragem de deixar-se sucumbir por um adversário mais fraco para evitar o cruzamento com um oponente mais encorpado na fase seguinte da competição. Ainda tem a aposta no resultado negativo como gota d’água para uma mudança radical na equipe.
Embora muitas dessas situações sejam estrategicamente pensadas, na maioria das vezes são usadas como forma de assimilação por torcedores e comentaristas. E, verdade seja dita, não é fácil para nenhum tupiniquim falar da saída da Seleção Brasileira de futebol ainda na fase de quartas de finais de uma Copa América disputada na Argentina. Isso, claro, sem considerar as quatro penalidades chutadas para fora.
O processo de assimilação começou ainda durante o jogo. Já no início da prorrogação a coisa começou a ganhar forma. Um narrador foi lá e lembrou que, em 2001, o Brasil perdeu para Honduras na Copa América, mas sagrou-se pentacampeão mundial um ano depois. Passados mais alguns minutos, o mesmo memorioso recordou que, nos últimos anos, perder a Copa América é um bom sinal em relação à Copa do Mundo.
Quando veio a derrota de fato, com as vexaminosas cobranças de pênaltis, entrou em campo o segundo momento da assimilação. Em tom grave, apareceu um comentarista e lascou com total despudor um foi até bom. A justificativa: Nossos meninos precisavam disso para acordar. O verbo no final pode variar para amadurecer, crescer, melhorar.
Mas talvez ninguém tenha assimilado tão rápido e com tanta fidelidade o que se passou na Argentina quanto o torcedor que carregava um pôster do atacante Neymar – garoto propaganda da seleção – com a inscrição: Perdeu, playboy.









