Minha academia, minha vida
Fenômeno mundial, talvez as artes marciais mistas (MMA), que tem no Ultimate Fight Championship (UFC) sua maior entidade, sejam o esporte que mais cresce no mundo nos últimos anos. Movimentando milhões de dólares e com mais fãs arrebanhados a cada transmissão, a elite da modalidade é a meta de dez entre dez lutadores. Mas até chegar lá, a vida trata de preencher de passagens inusitadas a formação dos ídolos. A história de um dos mais aclamados campeões do UFC da atualidade, José Aldo, 26 anos, deve ganhar as telas de cinema com o ator Malvino Salvador no papel do atleta e tem uma de suas épocas mais marcantes quando o hoje detentor de um dos cinturões mais cobiçados do mundo das lutas, dos peso pena – até 65kg -, morou durante um ano em uma academia no Rio de Janeiro.
Em Juiz de Fora, uma dupla de lutadores que sonha vencer no esporte vive uma situação parecida com a de José Aldo quando este deixou Manaus, capital do Amazonas, para viver na Cidade Maravilhosa. Os também peso pena Vinícius Costa (Francisco Cerdeira Filho Implantodontia/Performance Suplementos), 22 anos, e Daniel Siqueira (MZN Nutrição Esportiva/Gravina Esportes), 26, estão completamente envolvidos pelo mundo das lutas e passam praticamente todas as horas de todos os dias no décimo andar do número 239 da Rua Batista de Oliveira, na Academia Master, à qual representam em combates de MMA. Além de treinarem para se manter prontos para os confrontos, eles também dão aulas de artes marciais e são funcionários de serviços gerais.
Siqueira e Costa trabalham na academia para sobreviver, já que combates de menor projeção não distribuem bolsas elevadas e não há muitos patrocinadores dispostos a investir em atletas em desenvolvimento. Os dois então se tornaram uma espécie de dupla dinâmica de Santos Rocha, 55 anos, mestre de taekwondo, kung fu e muay thai, dono da academia e treinador da equipe de MMA da Master. O misto de patrão e treinador, desde os 10 anos de idade envolvido com as artes marciais, confirma a rotina de dedicação total ao esporte de seus comandados. "Eles chegam cedo, almoçam, jantam, fazem tudo dentro da academia. Só falta dormirem, e tem vez que, precisando, eles dormem também aqui dentro."
Mergulhados na rotina da Master mais de 15 horas por dia, a dupla sabe muito bem porque está ali. "Vivo da academia. De treinar, ministrar aulas e fazer o que for preciso. Vivo da e para a luta. É um pouco desgastante, cansativo, mas não vejo dificuldades enormes. Encaro isso aqui como minha vida, como meu trabalho, ganha-pão, meu sustento", diz Siqueira. "Vivemos nesse regime porque gostamos. Tem gente que vem aqui só para fazer um treino e não volta mais, não consegue. É pesado", completa Costa.
Treino e trabalho
Com uma academia inteira, o dia todo, à disposição, os treinos diários se misturam às obrigações. "Temos um horário fechado só para os lutadores de MMA mesmo, no qual o mestre Santos ministra o treino, das 11h ao meio-dia, duas vezes por semana. Três vezes na semana treinamos jiu-jítsu, e duas outras vezes, muay thai. Musculação é todo dias. No resto do tempo, estamos aqui para fazer o que tiver para fazer", diz Siqueira, que ministra aulas de muay thai e kung fu, enquanto Costa é o professor de jiu-jítsu.
De acordo com o mestre e patrão, a dupla lida com as obrigações de atletas e funcionários com muito compromisso. "Nossos treinos não são muito leves, e eles aceitam bem essa carga, sem reclamar. Os dois cumprem horários e regras à risca. São bons funcionários também, estão sempre dispostos. Por vezes a gente tem que chegar mais cedo e sair mais tarde. Meia-noite, uma hora da manhã, feriado… não tem tempo ruim com eles. A manutenção nas máquinas da academia, a limpeza, tudo eles é que fazem", explica Santos Rocha. "Somos pau para toda obra. Parte elétrica, hidráulica, carpintaria, mecânica nas máquinas, limpeza e organização no final do expediente, quando todos vão embora", detalha Vinícius Costa. "Chego às 7h e, depois que o último sai, eu saio também. O MMA é meu mundo, minha vida, e a academia é a minha casa", resume.
Em meio à preparação, a dupla aperfeiçoa a área de treinamentos da academia. "Estão montando o octógono agora, o que exige que eles trabalhem fora do horário", conta Rocha."Só faltam alguns detalhes e levantar uma grana para colocar a grade e os acolchoamentos para termos nosso próprio octógono", explica Siqueira. Segundo ele,
as histórias de lutadores brasileiros que passaram por situação parecida inspiram, mas o exemplo para seguir na batalha vem bem de perto. Um grande inspirador é meu mestre (Santos Rocha), com 45 anos de artes marciais e hoje podendo oferecer essa estrutura para nós, além da oportunidade de treinar e tirar nosso sustento da luta."
Dedicação faz a diferença
Tantas horas em regime de dedicação a se prepararem para as lutas – em média duas por ano – fazem a diferença na hora de os juiz-foranos entrarem em ação. "Tem uma grande vantagem, porque você fica bem e ativo o tempo todo. A qualquer momento que aparecer uma luta, está preparado. Estamos sempre fortes e também temos um tempo para treinar todas as modalidades, o que deixa a técnica apurada", considera Vinícius Costa, que tem no cartel quatro aparições em eventos de MMA, com três vitórias e uma derrota. "Creio que saio na frente por conta de viver nesse regime de concentração total na luta. Ficar aqui de manhã até o anoitecer me diferencia, aumenta minha segurança e confiança na hora do combate", afirma Daniel Siqueira, que lutou dez vezes, sendo derrotado em cinco oportunidades e vencendo outros cinco adversários. O último triunfo lhe rendeu pela segunda vez o cinturão do Full House Battle Home, em Belo Horizonte, em abril.
Para Santos Rocha, o regime intenso de treinos tem influência no desempenho, mas a dedicação conta também. "Estar aqui o tempo todo na academia faz diferença porque eles vivem 100% disso. Existe também uma cobrança extra, pois eles trabalham e vivem disso, então têm que dar o melhor dentro do ringue. Mas ambos têm muita determinação durante as lutas. Estão preparados por conta dos treinos, aos quais se dedicam com afinco sempre, e quando é a hora da verdade, entram no ringue com mais coragem e vontade de vencer", acredita o mestre.








