Ouça agora

Projeto de caratê no Santa Rita busca auxílio financeiro para se manter

Iniciativa modifica vida de jovens há 15 anos em Juiz de Fora


Por Iuri Fontana, estagiário sob a supervisão do editor Bruno Kaehler

22/02/2020 às 21h00

caratê Fernando Priamo
Foto: Fernando Priamo

Era 2003 quando o armador de ferragens Reidner de Lima Ferreira treinava caratê em um campo de futebol no Bairro Santa Rita de Cássia, Zona Leste de Juiz de Fora. O faixa preta ensaiava alguns movimentos da arte marcial quando se deparou com uma pequena sombra, desajeitada, ao seu lado tentando repetir, como podia, o balanço de braços e pernas efetuado por ele. A sombra tinha 5 anos e vontade de aprender; o carateca, por sua vez, muita disposição em ensinar. Ao passar dos dias, o exemplo do jovem se multiplicou em mais sombras, e o carateca se transformou em sensei (instrutor).

Em dois anos, o céu aberto do terrão deu lugar ao teto do centro comunitário do bairro. Os encontros se tornaram aulas do projeto da Associação Comunitária de Apoio Infanto Juvenil – divisão caratê (ACAIJ), uma organização sem fins lucrativos, que definiu como missão mudar a vida de jovens carentes de oportunidades. Hoje, quase 15 anos depois e mais de 500 vidas tocadas pela ação, a iniciativa busca ajuda para continuar transformando realidades.

Esta necessidade de apoio tem um motivo básico: o tempo. Reidner sempre ensinou sozinho, mas hoje, aos 56 anos, sente mais os efeitos da idade do que aos 41, quando deu início ao projeto. “Com 54 anos comecei a sentir um pouco, já não tinha tanta disposição para correr, por exemplo. Eu pretendo continuar orientando, mas preciso dos mais novos para fazer a parte pesada. Percebo que já é hora de ter alguém para me ajudar, pelo menos na parte física da aula”, relata.

caratê Fernando Priamo.jpg 2
Alunos faixas marrons precisam de apoio financeiro para graduação (Foto: Fernando Priamo)

Esse alguém pode ser um dos alunos faixas marrons do projeto, que possuem idade entre 20 e 30 anos e ingressaram na ACAIJ quando ainda tinham menos de 10. Para se tornarem senseis, entretanto, conforme as regras do caratê, precisam avançar a um próximo nível, a faixa preta. “Até a marrom eu consigo graduá-los, porém delas em diante somente as federações podem graduar. O valor que elas cobram é meio alto, em torno de mil reais por graduação. Estamos fazendo uma ‘vaquinha’ para tentar enviá-los para fazer o exame. Não temos condições de mandá-los por conta própria e por isso precisamos de ajuda”, explica Reidner.

Dos postulantes, dois serão enviados para realização da prova, que deve acontecer no meio do ano. Somados todos os custos e taxas, os gastos ultrapassam os R$ 2 mil. Até o momento da publicação desta matéria, menos de 30% do valor foi obtido na vaquinha virtual que pode ser acessada no link. O valor mínimo da doação é de R$ 10 e cada despesa está discriminada na plataforma on-line.

Segundo Reidner, 90% dos materiais utilizados nas aulas são originários de doações. O projeto está continuamente aberto a recepção de equipamentos e uniformes durante as aulas que vêm sendo realizadas aos sábados, de 11h à 12h30, no Centro Comunitário do Bairro Santa Rita de Cássia, localizado na Rua Rômulo Ribeiro Castro, 395.

Muito além do tatame

“O maior objetivo do caratê é a perfeição do caráter”. Essa é uma tradicional máxima da arte marcial e levada muito a sério na ACAIJ. Para que o aluno possa se graduar e conquistar a próxima faixa, deve ser disciplinado e estar com suas obrigações em dia. “Para participar do projeto eles devem estar estudando e tirar boas notas, ou então sofrem a penalidade de não graduar. Devem respeitar os pais, ajudar em casa e não podem se envolver em brigas ou qualquer outro tipo de confusão”, explica o sensei.

caratê Fernando Priamo.jpg 4
Por conta da prioridade ser a disciplina nos estudos, grupo de alunos do projeto estava reduzido no dia do encontro com à Tribuna (Foto: Fernando Priamo)

Fruto dessa metodologia é o próprio filho, Reidner Júnior. O jovem, hoje com 22 anos, tinha sete quando o projeto foi criado. Além da faixa marrom no caratê, que o torna um dos candidatos para a vaga de sensei, um dos principais aprendizes do pai guarda um troféu que o transforma em exemplo para os mais novos e fonte de ensinamentos, mesmo sem ser um instrutor: o diploma de bacharel em Direito. Recém-formado, produziu seu trabalho de conclusão de curso (TCC), intitulado “O Enfrentamento ao Tráfico de Drogas Ilícitas na cidade de Juiz de Fora-MG: O papel desempenhado pela população civil frente à omissão do Estado”, tendo como inspiração o projeto que o fez chegar até a faculdade e concluí-la.

“Durante a adolescência fui algumas vezes suspenso por conta das minhas notas e o mau comportamento na escola. Nessa época eu morava na cidade de Bicas e vinha todo final de semana para praticar caratê e ver meus amigos. Ser suspenso significaria que não veria meus melhores amigos e nem praticaria a arte marcial no projeto. Comecei a estudar para melhorar minhas notas. Hoje eu sou faixa marrom e no final do ano passado, devido ao incentivo que obtive na ação social, me tornei bacharel em Direito com uma bolsa de 100% na faculdade. Se não fosse o projeto talvez não tivesse nem completado o Ensino Médio”, relata.

Questionado sobre o que sente ao ver onde o filho chegou, Reidner, o pai, conta que além da satisfação em ver o caminho traçado por ele, define o jovem como um exemplo dos campeões formados pela ACAIJ. “Sinto uma alegria imensa pela conquista dele. É como eu falo com os alunos, eu não quero faixa preta, campeão mundial… eu quero campeões da vida, de luta. Pessoas honestas, formadas, que tragam coisas boas para a gente, para o bairro e para o mundo.”

caratê Fernando Priamo.jpg 3
Foto: Fernando Priamo