Malabarista, datilógrafo e atleta
Correr uma maratona é um dos desafios mais duros do atletismo mundial. A distância de 42.195m exige corpo e mente em perfeita sintonia e cobra seu preço. Agora, imagine fazer o percurso se equilibrando em cima de um monociclo. Pois é esse misto de esporte com arte circense que o barbacenense Carlos Felipe Otta, ou simplesmente Cafi Otta, 34 anos, datilógrafo, contínuo, malabarista e palhaço – como ele mesmo se define -, escolheu para buscar desafios mundo afora.
Impedido de disputar provas da distância no Brasil – no país não existem corridas específicas de monociclo -, a carreira de Cafi teve que começar na Alemanha. Em 2012, fez seu primeiro desafio na Maratona de Dusseldorf – prova que tem uma divisão especial para os monociclistas – e já está em ritmo intenso de treinos e com tudo pronto para sua segunda vez na prova, domingo que vem. "Ano passado fiz a distância em 2h36min37s. Gostaria de fazer abaixo de duas horas esse ano. Estou treinando focado e comprometido. A logística está resolvida: passagens, hospedagem, excesso de bagagem, tudo certo", comemora o datilógrafo.
Na planilha de treinos, além da pouca rotina de um artista de circo, atividades variadas. "Duas vezes por semana faço condicionamento físico em academia. Um treinamento funcional com pouco peso e muita estabilização. Uma vez por semana eu treino com o monociclo, correndo cerca de 15km no ritmo mais forte possível. E duas vezes por semana eu tento nadar, para relaxar mesmo. Fora isso, tem treinos esporádicos de skate e surf, que ajudam a descontrair, mas deixam o equilíbrio em dia. Ah! E tem a parte artística, que segue firme e forte, com duas apresentações de espetáculo por semana, em média. Mais a família, filho, esposa, gato, casa…", conta Cafi.
Mais provas pela frente
A proibição de participar de provas em seu próprio país não desanima o contínuo. Ainda em 2013, ele pretende ser o único brasileiro em uma das corridas mais inusitadas do mundo. "Depois de Dusseldorf, o próximo desafio é a Maratona do Sol da Meia-Noite (no dia 22 de junho). Um prova incrível em uma cidade no Norte da Noruega chamada Tromsø. Fica perto do Círculo Polar Ártico. A prova acontece à noite, mas com o sol rolando forte. Fiquei mais de um ano em contato com a organização tentando a liberação para correr com o monociclo, e eles toparam. Penso nisso todo santo dia. Quero tirar muitas fotos, porque não devo voltar lá tão cedo", deseja o atleta.
No ano que vem, Otta quer disputar uma competição voltada especificamente para os monociclos na América do Norte. "Em 2014 quero representar o Brasil no Campeonato Mundial de Monociclos, no Canadá. É uma prova de 100km, e eu espero estar lá. E a manchete depois disso poderia ser: ‘Mineiro de Barbacena é a revelação da prova mais intensa do monociclismo mundial’. Quem sabe?"
Do sítio para o circo e para o esporte
A história de Cafi com o monociclo começou no circo, onde se especializou também em técnicas de malabarismo, equilibrismo, acrobacia e palhaçaria, trabalhando profissionalmente desde 1997. "Comecei o aprendizado circense aos 10 anos de idade. Enquanto morava em Minas Gerais, minhas férias eram sempre em São Paulo, com meu pai, basicamente com a perna para cima, vendo televisão, comendo comida de vó e engordando. Um belo dia, minha mãe me disse que eu não passaria as férias em São Paulo, e pior, que eu iria fazer um curso de circo em Belo Horizonte. Não gostei nem um pouco, imaginei que seria a maior roubada da vida. Mas no primeiro dia de aula me apaixonei completamente pelo circo. Aprendi que o circo é divertido para o público e para o artista… e continuo me divertindo até hoje, 24 anos depois."
Também da infância, Otta carrega memórias de suas viagens a Juiz de Fora, antes de se mudar para São Paulo. "Durante cerca de três anos, tive que ir semanalmente a Juiz de Fora para cuidar do aparelho dental. Era divertido sair de Barbacena, onde morava em um sítio na zona rural, e ir para a cidade grande, para a metrópole. E a melhor parte era comer um sanduíche na lanchonete Oasis, na Avenida Rio Branco. Em 2003, com o Grupo Namakaca, ganhei o prêmio de melhor ator de teatro de rua no Festival de Teatro de Juiz de Fora", lembra.
Há uma década, o monociclo deixou de ser apenas um apetrecho para as apresentações circenses de Cafi para se tornar também um equipamento esportivo. "Como artista circense, sempre tive que me cuidar: condicionamento físico, alimentação saudável e qualidade de vida fazem parte da minha rotina há bastante tempo. Há cerca de 10 anos tive meu primeiro contato com o monociclo esportivo e, desde então, pratico a
modalidade", conta Cafi, que começou praticando o trial e agora fincou pé nas maratonas. "O trial tem muito impacto e explosão muscular, coisas que depois dos 30 ficam meio distantes… Então, comecei a procurar uma modalidade mais adequada, e as longas distâncias são perfeitas."








