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Mas tem que amar muito mesmo


Por WALLACE MATTOS

20/10/2013 às 08h00

Juiz de Fora conquistou, no último dia 10, o título inédito dos esportes coletivos nos Jogos de Minas, competição criada há dois anos para suceder os antigos Jogos do Interior de Minas Gerais (Jimi). As conquistas do ouro no vôlei masculino e no handebol em ambos os naipes, além dos vice-campeonatos do basquete e do futsal masculinos foram as colocações que levaram a cidade a comemorar a hegemonia estadual na disputa que hoje em dia envolve também times de Belo Horizonte.

Dos componentes da delegação local, que teve o apoio da Secretaria de Esporte e Lazer (SEL) com transporte e alimentação, somente os rapazes do vôlei da UFJF são profissionais. Ambas as equipes de handebol da Associação Desportiva Juiz de Fora (ADJF)/Instituto Vianna Júnior, os jogadores de basquete do Vianna e de futsal do Clube Bom Pastor são times sem dedicação exclusiva. Sendo assim, a vitória dos juiz-foranos pode ser considerada o triunfo do amadorismo, superando problemas já conhecidos, como falta de patrocínio e apoio financeiro.

Uma conversa com quem construiu a conquista local revela que, acima de tudo, o amor ao esporte e o sonho ainda vivo de ser um atleta são os fatores que impulsionam esses atletas. Antes mesmo de serem os representantes locais na fase final dos Jogos de Minas e enfrentarem os melhores do estado em Varginha, no início do mês, os obstáculos já apareciam no dia a dia, como mostra o ala do basquete e estudante de direito Rodrigo Lopes, 23 anos. "Em função da falta de horários, venho treinar mais à noite, de 22h40 à meia-noite. Procuro treinar três vezes por semana arremessos, sozinho mesmo. Pego a chave do ginásio e vou. Algumas vezes, vem alguém mais. Somente no sábado, a turma que joga se reúne para um grande bate-bola aqui no Vianna. Não é um treino a rigor, mas o que temos de mais parecido. A agenda é uma dificuldade. Faço estágio de manhã, estudo em casa à tarde – além de ter que usar esse tempo para frequentar academia ou correr – e tem a faculdade à noite", relata.

 Conciliar interesses

Com um sistema que se assemelha mais à rotina de uma equipe profissional, a ADJF também faz da noite seu horário de treinos nos dias de semana, como explica o técnico de ambos os times da entidade, Carlos Dias. "Para podermos contar com a maioria dos grupos, treinamos das 22h à meia-noite, duas ou três vezes por semana, e sempre aos sábados. Quando estamos perto das competições, também tem treinamento no domingo. É como dá para intensificar."

Já no futsal, o técnico Sérgio Moraes comanda um grupo sub-20, garotos em um momento decisivo de suas vidas, no qual dividem a atenção entre o desejo de tornar realidade o sonho de ser um atleta profissional e os estudos. Assim, o comandante do Bom Pastor fica muitas vezes em uma sinuca. "Nunca vou pedir para que eles deixem os estudos de lado. Como educador, não posso fazê-lo. Mas há dias nos quais não os tenho para treinar, nem há número suficiente. Nessas horas, temos que fazer da melhor maneira", diz o treinador.

Para competir fora da cidade por seis dias consecutivos, os desafios aumentam. Então quem tem de jogar é a habilidade de convencimento, como conta o ponta da ADJF e operador de telemarketing Pablo Reis, 28 anos. "Temos que negociar nossas horas livres para o handebol. Para competir em outras cidade é bem complicado. Nesses Jogos de Minas, usei minhas férias para estar lá", revela o jogador, que tem em seu time o central e professor de educação física Evandro Lopes, 24, que pede ajuda para estar nas disputas. "Para as viagens, tenho que pedir para alguém dar as aulas para mim." Quando não há jeito, o prejuízo é certo, como revela o pivô de futsal e estudante do ensino médio Lucas Pereira, 17. "Temos que fazer muitos sacrifícios, perdendo diversos compromissos em Juiz de Fora como provas e trabalhos", lamenta o jogador que compôs o time do Bom Pastor com apenas mais cinco companheiros em Varginha por conta justamente de problemas de agenda de seus colegas.

Mas às vezes não há maneira de conciliar as agendas. Assim, algum aspecto da vida dos amadores tem que ser suprimido. As companheiras de ADJF Aline Ribeiro, central de 24 anos, e Tuane Ferreira, armadora de 22, viveram situação parecida na disputa desses Jogos de Minas e não puderam jogar toda a competição. "Faço faculdade de fisioterapia e tinha que apresentar trabalho na semana da fase final da competição. Não pude jogar no sábado e tive que voltar na quarta-feira. Assim, perdi a primeira rodada e não joguei a final", explica Aline. "Só pude estar no sábado e no domingo. Voltei para trabalhar na segunda-feira", emenda Tuane, auxiliar administrativa. Já a solução encontrada pelo ala Thiago de Paula, 19, foi apostar tudo no esporte. "Acabei parando de estudar no fim do ensino médio, no ano passado. Agora, me dedico ao futsal e ao futebol. Até o próximo ano, vou batalhar assim", projeta.

 

 

Mantendo o sonho de ser atleta sempre vivo

Sem remuneração, muita vezes tendo que se indispor com patrões e professores, além de, por vezes, ter que financiar do próprio bolso as viagens, a vontade de estar em quadra e a esperança de ser descoberto é o que faz esses amadores persistirem, levando o nome da cidade e trazendo para ela conquistas a reboque. Lucas Pereira aposta no esporte, mas com a segurança da educação. "Estou em uma hora decisiva da vida e busco uma oportunidade de viver do esporte. Se não pintar, vou me voltar para os estudos, trabalhar com meu pai. Tenho essa segurança, mas hoje estou focado em me tornar jogador", deseja o pivô. Pesar os prós e

contras do sacrifício pelo esporte é importante, mas o sonho de se profissionalizar continua vivo mesmo para quem tem resultados fantásticos como o handebol da ADJF, hexacampeão no feminino e duodecacampeão no masculino somadas as conquistas dos Jogos de Minas e do Jimi. "Todo atleta amador sonha em poder viver do esporte que pratica, mas acredito que a idade começa a pesar. Se recebesse uma proposta boa, largaria tudo e iria jogar profissionalmente", garante Tuane, para fazer uma ressalva em seguida: "As conquistas no amador compensam, por agora, todo o esforço que fazemos". Evandro já teve a oportunidade de deixar Juiz de Fora, mas preferiu não arriscar. "Já tive chance de sair, aos 17 anos, mas para onde iria, não poderia estudar. Aqui ganho uma bolsa de estudos e preferi ficar. Como estamos no amador, você tem que pensar bem no que compensa."

 

Um novo caminho

Quem milita no esporte amador local sabe que a situação atual, na qual as conquistas chegam trazidas por meio de muito sacrifício pessoal de atletas e técnicos, está mais do que na hora de mudar. Para Carlos Dias, é preciso buscar um caminho ainda não trilhado. "Estou há 30 anos no esporte amador de Juiz de Fora. As conquistas vieram, e sempre tive a esperança de que no ano que vem iria melhorar, mas nunca aconteceu. Temos que achar um meio de transformar esses resultados em melhorias de qualidade de treinamento, de estruturas físicas e condições para os atletas. Sabemos que, para isso, é preciso melhorar a parte financeira, pois assim atingiremos as outras metas. Mas o ‘como’ é que é complicado", analisa.

Para Sérgio Moraes, a estrutura de hoje é a possível, mas é preciso pensar em uma saída. "Estivemos conversando isso com vários professores em Varginha. O trabalho que fazemos é realizado da melhor forma. Só para se ter uma ideia, jogamos a semifinal contra o Praia Clube (de Uberlândia). O Bom Pastor tem cerca de mil associados. Eles têm 65 mil e uma área esportiva que é o dobro da nossa. Vencemos, apesar dessa diferença. Sabemos que nosso clube faz o máximo, e a Prefeitura também fez nos dando transporte e suporte de alimentação de primeira. Mas é preciso encontrar um novo jeito de evoluir, porque a gente fica feliz com os resultados, mas ao mesmo tempo um pouco triste, porque vê uma gama de talentos em nossa cidade e região serem desperdiçados. E isso com a certeza de que poderíamos fazer mais."