Campeão da Copa Rio, Alex Nascif analisa formação, gestão e desafios do futebol em JF

Em entrevista ao programa Dá Jogo, treinador relembra trajetória, destaca importância da base e aponta falta de estrutura e planejamento como entraves para o desenvolvimento local


Por Davi Sampaio

20/03/2026 às 10h40- Atualizada 20/03/2026 às 12h50

O treinador Alex Nascif foi o convidado do programa Dá Jogo, transmitido no YouTube da Tribuna de Minas, na última quarta-feira (18). Na oportunidade, o ex-treinador de Tupi e Tupynambás, com passagem também por projeto da Universidade Federal de Juiz de Fora, falou sobre ideias de jogo, formação e os desafios do futebol local.

Ele, que teve o Betim e a Portuguesa-RJ como últimos trabalhos, relembra o início da própria trajetória e os caminhos que o levaram ao futebol profissional. Com vivências por diferentes funções dentro de comissões técnicas, o treinador construiu sua carreira de forma gradual, acumulando experiências que hoje refletem na forma como enxerga o jogo e o desenvolvimento de atletas.

alex nascif
Alex Nascif foi campeão da Copa Rio em 2025 (Foto: Arquivo pessoal)

Tribuna: Alex, conta um pouco da sua trajetória no futebol.

Alex: Minha carreira como treinador começou no Clube Cascatinha, no futsal. Depois disso, entrei para a comissão técnica do Tupi, em 2011, naquela Série D épica em que fomos campeões com o Ricardo Drubscky. A partir dali, segui minha trajetória como auxiliar e, depois, tive a oportunidade de assumir como treinador no projeto UFJF. Mais recentemente, tive a felicidade de passar por grandes clubes e, nesses últimos dois, três anos, já como treinador profissional, conquistei títulos e acessos importantes, como na Série D e na Copa do Brasil. No Betim e na Portuguesa, por exemplo, consegui disputar competições nacionais no mesmo ano, por clubes diferentes.”

Tribuna: Qual foi a importância do projeto da UFJF na sua formação?

Alex: O Futebol UFJF começou, em 2011, com um grupo de estudos – pouca gente sabe disso. Esse grupo, inclusive, virou um livro em 2020. Eu e o professor Marcelo Matta conseguimos transformar tudo o que estudamos em um projeto que saiu da teoria e foi para a prática, formando muitos jogadores. Hoje você vê atletas como o Redney, que se destacou em Goiânia, o Max, que está no Sport, e vários outros que cresceram dentro desse projeto. Ele passou por muitas pessoas desde o início, e sempre acreditamos que Juiz de Fora tem muito potencial, mas que precisa ser lapidado.

Tribuna: Como você enxerga o trabalhos dos clubes de base na cidade hoje?

Alex: Fico feliz em ver clubes como o Sport e o Uberabinha trabalhando a base, mas ainda falta estrutura e investimento. Não só dos clubes, que já têm dificuldade para captar recursos, mas de um modo geral. Falta um investidor forte, alguém que realmente aposte na cidade. Se a gente comparar com estruturas como a do Tombense ou até do Athletic, ainda estamos atrás. Falta estrutura física para revelar talentos. Imagina se o Sport tivesse quatro campos? Ou o Uberabinha? A quantidade de jogadores formados seria muito maior. Juiz de Fora produz muito talento. Isso é inegável. Mas falta estrutura para lapidar esses jogadores. E, sem isso, muitos acabam saindo cedo. Hoje, você vê crianças de 5, 6 anos descendo a serra para treinar no Flamengo ou no Botafogo. Eu conheço vários casos assim. E por quê? Porque falta um clube forte na cidade, que seja referência. Eu até brinquei outro dia: as crianças de hoje já não sabem mais o que é o Tupi. E isso é muito triste. Na minha geração, todo mundo queria jogar no Tupi. A gente ia ao estádio, sonhava com aquilo. Hoje, esse sonho local praticamente não existe mais. E isso impacta diretamente. Se a criança não vê perspectiva aqui, ela vai buscar fora. Então talento a gente tem – o que falta é estrutura, investimento e um projeto forte que segure esses meninos.

Tribuna: E como isso reflete nos técnicos?

Alex: Sem dúvida, isso também impacta os treinadores. Se o Tupi e outros clubes estivessem em um momento melhor, com base estruturada e calendário, os técnicos teriam mais oportunidades. Hoje, falta espaço. E também falta escutar quem está no mercado. Eu, por exemplo, nunca fui chamado para conversar sobre o que falta, sobre o que pode melhorar. Acho que os clubes poderiam ouvir mais os profissionais da área.

Tribuna: O que você pensa que falta evoluir no futebol brasileiro de hoje?

Alex: O grande problema é a gestão. Os treinadores são contratados pelas ideias e demitidos pelos resultados. Falta acompanhamento do dia a dia. Tem dirigente que só vê o jogo, não acompanha o treino. Não entende o processo. E o futebol não é só o jogo de domingo. Às vezes, o jogador não rende por uma série de fatores: alimentação, descanso, recuperação… mas isso não é analisado. Só olham o resultado final. Se o Guardiola estivesse no Brasil, será que teria resistido a uma temporada ruim como teve recentemente? Provavelmente não. Aqui, a cultura é imediatista demais.” Sobre os treinadores estrangeiros, vejo muito como uma transferência de responsabilidade. Quando o dirigente traz um treinador de fora, ele divide a pressão com esse nome. Se traz um brasileiro, principalmente um mais novo, a pressão recai muito mais sobre quem contratou. Então muitos preferem buscar um nome estrangeiro. Mas não falta treinador no Brasil. Temos ótimos profissionais surgindo, uma nova geração muito qualificada. O problema é a falta de oportunidade e de respaldo.

Tribuna: Como você define seu estilo de jogo?

Alex: Eu procuro trabalhar com adaptação. Esse é o meu principal conceito. Gosto de um jogo apoiado, de construção, mas preciso olhar para o que eu tenho em mãos. Não adianta querer jogar como o Diniz se os meus jogadores não têm essas características. Então eu adapto o modelo ao elenco e também ao adversário. Se dá para jogar curto, a gente joga. Se o jogo pede bola longa, a gente usa. Treino diferentes formas de jogar justamente para isso: ter uma equipe preparada para se adaptar. Eu sempre falo que o treinador precisa ser como um camaleão — se ajustar ao ambiente, aos jogadores e ao jogo.