Amadores, profissionais da várzea
Começou ontem a rolar a bola para valer na maior festa da várzea juiz-forana. A edição 2013 da Copa Prefeitura/Bahamas de Futebol Amador é a maior de todos os tempos, com 346 equipes inscritas. Até dezembro, desfilarão pelos principais campos da cidade craques mostrando toda sua habilidade em defesa de agremiações tradicionais, times de amigos e grupos dos mais diversos cantos da cidade. Dentro dessa verdadeira celebração da vontade de manter viva a chama do mais puro amadorismo, torcedores e quem conduz os confrontos também têm sua vez e, ao lado de quem luta em campo por uma vitória, fazem parte do colorido charme da competição.
Não é difícil notar em uma rápida passagem pelos campos de várzea locais no segundo semestre de cada ano que, na principal categoria em disputa na Bahamas, a adulto, a presença de jogadores em atividade sem contrato e ex-atletas profissionais é grande. Seja dentro de equipes que defendiam antes de se profissionalizarem ou em times que conheceram mais tarde, jogadores e ex-jogadores emprestam seu talento à várzea juiz-forana e acabam virando referência para companheiros amadores.
Esta semana, na disputa da Supercopa dos Campeões da Bahamas, cuja final será realizada hoje, quem foi ao Estádio Municipal pôde ver em campo ex-atletas como o meia Fabiano Guru, o centroavante Wesley e o zagueiro Darlesson, ou ainda jogadores em atividade, aguardando propostas, como o atacante Allan e o goleiro Victor Hugo. "A competitividade é grande, o público prestigia e a vontade de ganhar é tão grande ou maior do que no profissional", revela Guru, hoje com 35 anos e atuando como volante do Tô Maluco.
"É minha origem. Gosto muito. Até brinco que fui revelado pela Copa Bahamas. É sempre uma satisfação enorme jogá-la", garante Allan que, ao 34 anos, mantém o contato com a bola defendendo as cores do América do Progresso, no qual foi observado pela comissão técnica do Tupi em 2006. Após um período de testes no Carijó, ele começou sua carreira profissional, cujo auge veio em 2011, com a conquista do Campeonato Brasileiro da Série D.
Da Zona Rural
Mas nem só os ex-atletas profissionais ou inativos se destacam nos times locais. A maioria das fileiras das equipes são formadas por pessoas comuns que ganham seus sustento durante a semana e, aos domingos, sonha jogando que os problemas do dia a dia estão indo embora. É o caso do artesão Júlio César "Nem Rato" da Silva, 35 anos, meia esquerda do LFC e morador do Barbosa Lage. Com simplicidade, o atleta amador ganhou destaque e foi eleito o melhor jogador da competição em 2011.
Para Nem Rato, o envolvimento dos times e torcidas é a maior atração da disputa local da qual nem era muito fã antes de jogá-la. "Essa é a quarta vez que disputo a Copa Bahamas. Tive a felicidade de, há dois anos, ser eleito o melhor jogador da competição. Nunca gostei de jogar na terra. Jogava o Distrital e competições na Zona Rural por Dias Tavares. Mas um amigo me chamou uma vez, comecei a atuar pelo LFC e adorei. É emocionante jogar a Copa Bahamas. Uma competição difícil, entre muitas equipes e com bastante público sempre na torcida", define o jogador.
Segundo o gerente de marketing do Supermercado Bahamas, Nelson Júnior, um dos idealizadores da competição e organizador desde sua primeira disputa, a participação de quem já esteve em campo profissionalmente abrilhanta o torneio, mas a competição é mesmo feita para os amadores. "Para quem é amador, a Copa Bahamas é a Copa do Mundo. Sonhar todos já sonharam em ser jogador profissional, mas a maioria não realiza. Assim, fazem dessa competição a grande disputa de suas vidas. Por isso atingimos números tão expressivos. Fazemos a competição para essas pessoas, procuramos dar tapete vermelho para retribuir a dedicação delas à disputa", diz o promotor, lembrando as marcas de 9.960 jogos realizados, 27.079 gols marcados, além 6.060 inscrições de equipes, já contando com os números de 2013.
Olho no olho
A sintonia entre profissionais, ex-atletas e amadores é importante para o sucesso da equipe. E quem está em campo garante que, com apenas um pouco de esforço, tudo se encaixa e as peças se ajeitam sem nem mesmo se conhecerem. "No futebol profissional tem aquela rotina de treinos, funções táticas definidas e um trabalho todo voltado para o jogo. Já em uma competição amadora como essa, você se reúne com os companheiros somente no domingo, e o entendimento tem que ser ali na hora da partida mesmo", diz Fabiano Guru.
Os amadores sabem da importância de ter alguém que já jogou a seu lado, mesmo que isso signifique alguns puxões de orelha de vez em quando. No fim, respeito mútuo é o que prevalece. "Eles (ex-jogadores e profissionais) passam muitas experiência para a gente por já terem jogado. Nos orientam bastante. Respeito muito eles. Viramos uma família dentro do time. O entrosamento ganhamos na base do improviso, no olho", diz Nem Rato. "Me pego de vez em quando cobrando posicionamento como se fosse no profissional, esqueço que estou no amador. Mas respeito muito todos eles. Costumo dizer que, quando não tem contrato em vigor, você é amador como eles", completa Allan.
Na torcida e no apito
Se os craques, amadores ou não, fazem o sucesso da Bahamas dentro de campo, fora dele os torcedores não ficam atrás. "É muito legal ver que em Juiz de Fora ainda se consegue ter torcida do time local, do seu bairro, da sua região. Essas são manifestações mais puras, as mais bacanas. É o grito porque o marido, o filho, o namorado ou a turma da rua está jogando. E se o campo está cheio lá fora, quem está dentro sente essas emoções. Nessas 21 edições, o evento se consagrou porque virou de todos principalmente nesse aspecto", acredita Nelson Júnior.
No contexto das arquibancadas varzeanas, um torcedor se destaca como símbolo. Pouca gente que frequenta os locais de jogos do torneio desconhece Carlos Henrique "Cabeção" Comegumbes. O funcionário público de 46 anos é uma verdadeira torcida de um homem só. "Vejo a Bahamas desde a primeira edição. Conheço a maioria dos donos de times, juízes, pessoal da organização e jogadores. Mexo com todo mundo. Eles me veem e dizem: ‘já vem o Cabeção encher a paciência’. Se está tudo muito calmo, arrumo um jeito de agitar, uma corneta, um megafone, sei lá. O que importa é fazer a festa", define.
Cabeção é tão relevante na história do torneio que já recebeu a maior honraria da competição: a Comenda da Copa Bahamas, em 2006. "Acho que ele é torcedor de várias equipes. É um apaixonado pelo futebol amador, que sobrevive exatamente porque existem essas pessoas", diz Nelson Júnior.
De tão apaixonado pela Bahamas, Cabeção, também atleta da categoria master, não se contenta com um jogo por fim de semana. "Primeiro, vou ao campo onde vou jogar, mas gosto de dar uma passadinha em todos os locais onde estão acontecendo as partidas. Meu roteiro é orientado pelo jogo da rodada (aquele em que os destaques são premiados pelos patrocinadores), que é sempre jogo bom. E assim passo meus domingos no segundo semestre que, para mim, por conta da Bahamas, é sempre bem melhor do que o primeiro", acredita.
Disciplina
Outro nome tradicional que não chuta bola na Bahamas é Carlos Roberto Esperança, 58 anos, destaque entre os árbitros. Até bem pouco tempo, ele tinha o hábito de pedir para ser escalado em locais com potencial risco de confusão. "Ele gostava de apitar na Zona Rural quando as partidas eram realizadas nos distritos (hoje, acontecem em Benfica). Outros árbitros temiam justamente por ter uma chance de acontecer algum problema. Ele trata os jogadores com muito respeito e recebe isso de volta. Brinca, aceita uma gozação, conduz o jogo leve. Por isso, as gerações passaram e ele continua firme", elogia Nelson Júnior.
Para o árbitro, a fórmula para não estragar a festa do futebol varzeano local é simples. "Para mim é uma honra estar há 21 anos na arbitragem das partidas da Copa Bahamas. O segredo é ter honestidade, dignidade e responsabilidade para conduzir o jogo. Converso com os jogadores, brinco com alguns, sou didático, explico minhas marcações e isso me ajuda a levar bem os confrontos."
Decisão hoje
Hoje acontece a decisão da Supercopa dos Campeões da Bahamas, torneio que envolve equipes que já venceram a categoria adulta em outras oportunidades. Na finalíssima, o América do Progresso enfrenta o atual campeão da Supercopa, LFC, a partir das 10h10, no Campo do Polivalente, no Teixeiras. Caso o vencedor não seja definido no tempo regulamentar, o caneco vai para quem levar a melhor nas penalidades máximas.








