Na orelha da bola
Vencedores e perdedores
Eu não sou muito fã de vale-tudo. Ou mixed martial arts, como gostam de chamar agora, em que nem tudo vale. Respeito o esporte como qualquer outro, vi o Anderson Silva nocauteando o Vitor Belfort como qualquer outro, mas, como esporte de luta, não é algo que me atrai muito. Sou daqueles da velha guarda. O boxe, mesmo que moribundo, ainda é para mim a nobre arte. Gosto de abrir minha cerveja na madrugada de uma quinta-feira qualquer e investigar no YouTube lutas clássicas, rounds monumentais, ver Frazier, Ali, Jofre, Tyson e aquela coisa toda.
Me chateia quando leio no jornal que um mané – ou um grupo de manés – que pratica esta ou aquela arte marcial resolveu dar uma surra em alguém, fazendo um azarado de saco de areia. Não me chateia só pela violência, que por si só já é suficiente para deixar qualquer pessoa desgostosa. Me chateia pelo fato de fazer que a notícia do crime leve muitas pessoas a relacionarem os esportes de luta à violência. Não me importa se tem motivação ou não: um faixa-preta brutamontes que usa sua técnica e força para massacrar alguém é como uma pessoa armada atacando uma desarmada. Não é bravura, é covardia.
Alguém aí já ouviu dizer que a Natália Falavigna pegou uma piriguete de bicuda na boate? Ou que o Flávio Canto moeu um camarada que o olhou torto na orla de Copacabana? Ou que Anderson Silva deu um pau em fulano de tal em saída de festinha na casa do Ronaldo? Mas aí você diz, mas o Tyson bateu em mulher, em homem, em bicho…. É, mas o Tyson é um caso completamente à parte em todos os aspectos. Inclusive no esportivo. A vida desse daí dá uns cinco livros de 800 páginas cada um.
As notícias de praticantes de artes marciais que agridem gente despreparada, infelizmente, não são tão incomuns. O que Falavigna, do taekwondo, Canto, do judô, e Silva, do MMA, têm em comum, além do fato de não se envolverem em brigas de rua, é o fato de serem campeões. Uma determinada conduta, uma determinada disciplina, que os verdadeiros mestres das artes marciais tradicionalmente pregam para seus alunos, foi perseguida por estes e outros grandes atletas. Este respeito por si próprio e pelo outro, a compreensão da finalidade do desenvolvimento de seu talento e habilidade, é parte do que os levou a tornarem-se grandes vencedores. Diferente dos perdedores que jamais saberão que ganhar uma briga é algo completamente diferente de vencer uma luta.









