Na orelha da bola – Uma ponte de pedra
Eu me lembro da primeira vez que coloquei os pés sobre uma construção com mais de mil anos. Era uma ponte construída com pedra. Lá do outro lado tinha uma plaquinha contando sua história, mas antes de lê-la eu tratei de imaginar a minha. O som dos cascos dos cavalos dos viajantes, das rodas das carroças transportando a colheita, dos passos dos fiéis em procissão, o brandir de espadas, o sangue regando o chão, declarações de amor na noite opaca, cantorias, uivos. Pensei nisso tudo e fiquei lá parado um tempão, absorto em imagens de habitantes de vilas, peregrinos, soldados e suas lanças, cruzados, comerciantes, saltimbancos e, por fim, turistas.
O calçamento mais antigo que havia pisado era o de Parati, de Ouro Preto, de Tiradentes. Cidades mágicas, mas de trezentos, trezentos e cinquenta anos?
Toda vez que se fala na demolição do quase centenário Sport Club Juiz de Fora, me vem à mente a lembrança daquela ponte. E dos "coliseus". Quando os romanos se espalharam pela Europa, construíram aqui e ali estes grandes anfiteatros para se divertirem com os jogos – invariavelmente homem matando homem, homem matando bicho, essas coisas – e espetáculos variados. Restam hoje, em toda a Europa, salvo engano, sete arenas romanas. E outras três na Tunísia e na Líbia. Em nome do progresso, poderia não haver nenhuma.
Felizmente, na Itália, na França e na Croácia, e na Líbia e a na Tunísia, não em um mas em alguns momentos ao longo dos séculos, houve gente que impedisse a construção de estradas, de conventos, de quartéis, de manicômios e de shopping centers em cima daqueles anfiteatros. Para quê? Entre outras coisas, mais práticas e rentáveis, para que um dia o pessoal pudesse parar diante de suas colunas colossais e ficar com cara de besta, pensando paradoxalmente na grandiosidade do gênio humano e na nossa própria pequenez diante da vastidão da História.









