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Os pés pelas mãos


Por RENATO SALLES

13/09/2013 às 07h00

Não somos deuses

Desde que desceu das árvores e, em um golpe de sorte, começou a andar em pé, o ser humano tem a temerária mania de tentar ser Deus. É o caso dos genocidas senhores da guerra que, sentados em seus confortáveis gabinetes refrigerados, jogam War no tabuleiro da vida real, sentindo-se no direito de exterminar vidas inocentes a troco da manutenção do poder. Há também aqueles cientistas malucos, que trabalham às escondidas métodos questionáveis como clonagem humana ou manipulação genética em busca do ser superior. Tudo por medo do fim.

A ganância por se tornar divindade existe desde que o mundo é mundo. Só não imaginava que a brincadeira de ser Deus chegaria às quatro linhas de um campo de futebol. Sei que alguns jogadores midiáticos sentem-se acima do céu e da terra por seus talentos sobre-humanos e tentam, a todo custo, driblar os destinos por um lugar no reino eterno dos ídolos. Porém, é uma ambição válida, que faz do esporte o que é. O inadmissível é um mortal querer ser um dos deuses do futebol tentar manipular partidas como uma trave furtiva ou um montinho artilheiro. É o cúmulo do absurdo um sujeito invadir e, como se fosse uma providência divina, mudar as leis naturais do jogo.

Eu nunca quis ser Deus, porém perdoo o tal Esquerdinha. Mesmo depois de muito xingá-lo na arquibancada do Municipal. Se o gaiato quis ser divindade, capaz de mudar destinos, mostrou-se um ser humano falho, com seu medo do fim inevitável. O massagista não é nenhum senhor da guerra ou cientista antiético. Não merece ser execrado além de sua insignificância na história do futebol, mas, sim, ser perdoado e condenado ao esquecimento. O imperdoável mesmo será qualquer decisão do STJD que não seja a eliminação do Aparecidense. É o mínimo que se espera da justiça do homem. Se é que ela existe.