Nada no balaioRicardo Miranda Profissional
Ser profissional, na acepção do meu tio Gilberto, não é ter apenas zelo ou seriedade com a profissão. Também não tem nada a ver com ser o melhor naquilo que se faz. Para ele, o profissional tem algo diferente do senso comum. Tem estilo próprio. Tem borogodó. Com esse conceito sempre à mão, meu tio está pronto para provocar discussões infindáveis. E não é para menos, afinal, suas adjetivações acabam mexendo com algo sagrado para a maioria dos seus interlocutores.
Na sua avaliação, por exemplo, Charlie Chaplin, embora genial, nunca foi profissional. Ao contrário de Buster Keaton, que em uma simples aparição revelava ter mesmo algo diferente. Cidadão Kane, de Orson Welles, ainda é o filme mais importante da cinematografia mundial, mas cinema profissional, pelo menos para meu tio, ainda se vê apenas em Rastros de ódio, de John Ford. Ele tem Deus e o Diabo na Terra do Sol como o melhor filme brasileiro, mas o Glauber profissional está em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.
A coisa piora quando meu tio entra em campo. As paixões, nesse caso, afloram-se ainda mais. Pelé foi o maior jogador de futebol do mundo. Não há dúvida, segundo ele. Porém, profissional mesmo foi Garrincha. Ronaldo foi o fenômeno, maior artilheiro da história dos Mundiais, mas quem tem borogodó é o Romário. Muricy Ramalho e Vanderlei Luxemburgo colecionam títulos, mas nem de perto ameaçam o profissionalismo do Telê Santana. Reinaldo, do Atlético-MG, foi um senhor centroavante, mas, provoca o tio, não tem o estilo do Tostão.
E as comparações vão aparecendo ao gosto do interlocutor. Há alguns dias, ele desbancou o Neymar. O menino é bom, mas ainda peca no estilo, cutucou. No que contrapus: E o golaço contra o Flamengo? Veio a resposta. Foi mesmo bonito, mas foi o possível a ser feito naquela jogada. O impossível é saber o tempo exato em que a barreira vai pular. Isso é coisa de profissional. De fato, o Ronaldinho é mesmo profissional, embora às vezes se esqueça disso.









