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Com pandemia, atletas sentem treino e bolso impactados

Atletas juiz-foranos comentam dificuldade para manter condicionamento físico e contas em dia devido à paralisação das competições


Por Fabiane Almeida, estagiária sob supervisão da editora Juliana Netto

12/04/2020 às 07h05

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Atleta profissional, Eberth Silvério depende das conquistas de pódio como forma de sustento (Foto: Acervo Pessoal)

Duas vezes por semana, Eberth Silvério, 28 anos, tem calçado seus tênis logo cedo, rumo a alguma região onde possa treinar sem que encontre outras pessoas. Desde o início da pandemia da Covid-19, sua rotina mudou completamente. Antes, se programava para as competições do calendário, treinava com foco no pódio e pensava em quanto podia ganhar com as premiações. Hoje, é difícil manter a motivação e o ritmo com tantos eventos cancelados e a incerteza do próprio sustento.

Com a dificuldade enfrentada pelo momento atual, parte dos seus treinos e aquecimentos acontecem em casa, onde mora com a esposa, que está de férias por causa da pandemia.

“É muito difícil ficar em casa, o corpo da gente sente muito, pois fazíamos um treinamento muito pesado e não tem como manter esse volume. Não tenho um objetivo claro nesse momento, já que todas as provas foram canceladas. Evito sair todos os dias, mas o meu treinador indicou tentar continuar com a rotina para não sentir tanto, sobretudo no psicológico. A gente sente muita falta e, como o atletismo para mim é uma forma de trabalho, ficamos ainda mais preocupados porque não temos estabilidade e não sabemos como irá ficar”, compartilhou à Tribuna por telefone.

No domingo passado, o fundista disputaria a Maratona internacional de São Paulo, adiada para 2 de novembro. O atleta também ia correr a Maratona do Rio, marcada inicialmente para 14 de junho, mas reagendada para 12 de outubro. Já a Asics Golden Run 21K, em São Paulo, que teria a largada em 10 de maio, foi suspensa, sem remarcação de data.

Sem a renda das provas e sem poder contar com seus três patrocinadores, Eberth depende da ajuda da esposa e da família para lidar com as despesas da casa e manter a motivação. “Temos que pensar positivo, que vai passar. Agora é tentar ver qual será a prioridade, porque as datas ficaram muito próximas e não terei como fazer todas as provas”, reflete o atleta quatro vezes campeão da Corrida da Fogueira e do Ranking de Corrida de Juiz de Fora.

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Vice-campeão brasileiro de ciclismo, André Novaes conta com Bolsa Atleta para os próximos meses (Foto: Acervo Pessoal)

“Vou deixar de pagar algumas contas”

“Eu corro desde meus 12 anos e nunca parei de competir. A bicicleta sempre fez parte da minha renda e da minha vida”, expõe o ciclista e educador físico André Novaes, 46 anos. Vice-campeão brasileiro, sua única certeza de renda para os próximos meses é a Bolsa Atleta, concedida ao top 3 do ranking nacional. O benefício, porém, corresponde a 30% do que costuma ganhar mensalmente, tanto como atleta, quanto como personal trainer e treinador. Apesar de ter adaptado sua rotina, dando aulas de spinning através de lives na internet, até mesmo o emprego fixo incerto.

“As academias onde dou aula fazem mecanismos para recebermos de alguma forma, fazendo lives para atender aos alunos, mas estamos sem saber o que vai acontecer. Outro dia fui receber o pagamento do mês e já se falava em suspensão de contrato de trabalho. Com o pouco de dinheiro que tenho, vou deixar de pagar algumas contas”, calcula.

Antes da pandemia, André planejava competir a Copa ACT de Ciclismo, no Rio de Janeiro, os rankings Carioca e Brasileiro, o Circuito Pan-Americano de Ciclismo de Pista e Estrada e o Campeonato Brasileiro de Ciclismo de Pista. No entanto, o calendário de provas foi suspenso pela Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) até 30 de abril, podendo ser prorrogado.

“São provas que estão ligadas ao calendário internacional e têm verba do governo e de patrocinadores. Se não acontecer, pode ter muito prejuízo também para atletas e treinadores. Já têm várias equipes cortando patrocínio e despedindo atleta. Se voltar à normalidade só ano que vem, será muito tumultuado e vai confrontar com datas de competições estaduais”, prevê o juiz-forano.

Acostumado a pedalar 100km por dia, o treino foi adaptado às quatro paredes de casa, e as corridas na rodovia se tornaram raras, em locais e horários de menor movimento. Ao lado da esposa, que também é educadora física, André procura manter o condicionamento com o auxílio de plataformas de treino e competição virtual. “Outro dia fiz um treino que simulava uma subida na Suíça com uma imagem real.”

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Professor de jiu-jitsu, Flávio Salles sente queda na renda, mas afirma: “Se pedem para ficarmos em casa, é melhor cumprir” (Foto: Acervo Pessoal)

“É difícil manter o condicionamento físico em casa”

Há poucas semanas, Flávio Salles, 44, costumava ver sua academia de artes marciais repleta de alunos e atletas. Hoje, quando chega à sala de treinamento, localizada no mesmo prédio onde mora, só lhe restou a própria companhia. Sua dor aumenta quando pensa no Grand Slam, que estava para competir esta semana, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.

“Eu tinha alunos de 7h até 21h. Todo fim de semana viajava para campeonatos. Mudou muito a rotina por não poder treinar e também tivemos que bolar aulas de vídeo e lives, mas que não deram muito certo, por causa de alunos policiais e enfermeiros que não conseguiam acompanhar. Então gravei aulas com exercícios e posições que dão para fazer em casa, para que eles não fiquem desatualizados, nem percam a motivação”, conta o profissional de jiu-jitsu, que há 15 anos se dedica à modalidade. Enquanto atleta e professor, o juiz-forano já percebe o baque financeiro. “Sem lutas, um atleta de ponta pode perder a premiação, além de patrocínio. Quem também dá aulas perde até 25% da renda”

Até o momento, os campeonatos brasileiros já foram cancelados, e o Rio Challenge não tem previsão de nova data. Outros, como o Sul-Americano e a Copa América, organizados pela Federação Sul-Americana de Jiu-Jitsu, estão, a princípio, agendados para o fim do ano. “Acho que não deve ter competições importantes antes de junho, e o calendário vai ficar apertado. Primeiro devem acontecer campeonatos regionais para os atletas voltarem ao ritmo.”

E voltar ao ritmo é de fato uma preocupação, pois mesmo que o atleta se esforce em casa, é difícil manter o rendimento da academia. “O aluno vai treinar em casa para manter a vida saudável, mas o condicionamento é muito difícil. A academia tem aparelhos e treinos específicos, em uma superfície que não machuca, com adversários e companheiros que ajudam. Também não posso indicar treinos forçados, porque se a pessoa se machucar, não tem como ir ao hospital para ser atendido, e lesões são recorrentes em atletas, principalmente em alto rendimento”, observa.

Apesar das dificuldades, Flávio entende a necessidade do isolamento social como prevenção neste momento. “Como leigo, a gente lamenta ter que ficar fechado e ver a economia parando. Mas se existe alguém qualificado para o cargo e entende do assunto, como o Ministro da Saúde, que, com certeza, sabe mais que nós, se ele pede para ficarmos em casa, é melhor cumprir”, finaliza.