Na orelha da bola
Aquelas frases inesquecíveis
O que eu sinto falta mesmo é das frases de efeito. Tem gente que acha um gol como o do Drogba na última terça poesia no futebol. Talvez seja uma pintura. Mas poesia mesmo é o Vicente Matheus dizendo que "jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático". Claro, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Millôr e outros homens de letras cunharam pérolas tão ou mais eloquentes sobre o esporte bretão, mas não com a espontaneidade daqueles que vivem diretamente da bola.
Como Garrincha, sincero depois de ganhar a Copa de 1958: "Campeonatinho mixuruco, nem tem segundo turno!" Ou Ghiggia, carrasco do Brasil na final da Copa de 1950, cheio de razão: "Só três pessoas silenciaram o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu". Ou Gil, campeão pelo Cruzeiro, irracional na entrevista a uma "rádio católica": "Só não vale dar o …, o resto vale tudo!"
Acontece que a patrulha ideológica não deixa mais o pessoal largar o verbo. Imaginem um atleta falando algo como aquilo que o Romário disse sobre Eurico Miranda, ele próprio e Edmundo nos tempos de Vasco: "Agora a corte está toda feliz: o rei, o príncipe e o bobo". Bravatas como as de Túlio Maravilha ou Renato Gaúcho, então, são impensáveis hoje. Diferente de um tempo mais fanfarrão, quando o povo não tinha tanto tempo livre para se preocupar com bobagens nem levava o falatório tão a sério.
Na falta dos boleiros, as autoridades é que têm salvado as frases da semana. É um Joaquim Barbosa aqui, mandando fulano "chafurdar no lixo" ou dizendo que as associações de magistrados agiram "de forma sorrateira na aprovação" da criação de novos tribunais – é muito boa essa palavra, "sorrateira" -, ou o presidente uruguaio José Mujica ali, flagrado dizendo que "a velha é pior que o vesgo", em referência à chefe de estado argentina Cristina Kirchner e seu finado marido, Nestor Kirchner. Esta, aliás, é candidata a melhor do ano.
Confesso que eu morro de rir, mas ainda espero, embora duvide, que o futebol volte a ser mais engraçado do que a política. Que os boleiros assumam que o campo está mais para circo que para tribunal. E entendam que, como dizia o velho Matheus, "quem está na chuva é para se queimar".








