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Destino do Sport em votação


Por PEDRO BRASIL

10/11/2013 às 07h00

O futuro de um dos principais clubes da cidade está nas mãos de aproximadamente 470 pessoas. A proposta de construção de um shopping center no local onde hoje existe o Sport Club Juiz de Fora foi aprovada pelo Conselho Deliberativo do clube. O órgão convocou assembleia geral dos sócios-proprietários do Sport para hoje. Em pauta, a adesão ou a recusa ao projeto. "A primeira chamada será feita às 8h, e o período de votação se estende até as 13h. Estamos consultando a sociedade do Sport para decidir o destino do clube. A decisão será tomada pela maioria de voto, ou seja, 50% mais um ", afirmou o presidente do Verdão, Paulo Cézar Gasparete.

Localizado em área nobre – entre as Avenidas Brasil e Rio Branco – e vivendo dificuldades financeiras, o Sport sempre foi alvo de especulação imobiliária. Desta vez, de acordo com Gasparete, a Saphyr Shopping Centers, responsável pelo empreendimento, fez uma proposta de incorporação do clube a um estabelecimento comercial. O presidente refuta a ideia de venda, já que no projeto, acima dos três pavimentos comerciais com cinema, lojas e praça de alimentação, ficaria a nova sede, com a estrutura para os sócios.

Na "cobertura" do novo centro de compras estariam disponíveis para os associados campo de futebol, quadra poliesportiva, sauna, piscina, academia de ginástica, salão de festas, de jogos e uma área descoberta que poderia ser usada em eventos como shows, por exemplo. Os sócios beneméritos teriam direito a vagas de estacionamento reservadas no complexo comercial. A Saphyr pagaria R$ 18 milhões pela área, e o clube teria direito a 10% do lucro do empreendimento. Para a construção da sede social, R$ 3 milhões seriam disponibilizados pela Saphyr.

Caso a proposta seja aprovada pelos sócios, o próximo passo da diretoria é negociar a possibilidade do destombamento da antiga sede social e da arquibancada do Sport Club, projetadas por Arthur Arcuri. Caso o Poder Público defina de forma favorável à construção do shopping, as obras seriam iniciadas imediatamente, segundo Gasparete. Nesse período, estimado pela Saphyr em dois anos, as atividades esportivas seriam realizadas por meio de parceria, em outro clube da cidade, cujo nome não foi revelado. "A partir do momento em que a negociação sair do papel, nós faremos uma parceria para que os sócios não fiquem sem o seu espaço. A verba será investida no esporte. Poderíamos até construir um Centro de Treinamento", projeta Gasparete.

 

Destombamento

De acordo com o diretora em exercício da Divisão de Patrimônio Cultural da Funalfa, Valéria Leão Ferenzini, o tombamento da antiga sede social e da arquibancada do Sport Club, projetada por Arthur Arcuri, constam no decreto 10.871, de 11 de agosto de 2011, sob a justificativa de valor histórico, artístico, técnico e cultural. A antiga sede foi construída no estilo art déco em 1938. Segundo ela, ainda não houve nenhuma solicitação formal para reunião do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural da Funalfa (Comppac), formado por 13 integrantes, entre representantes do Poder Público e da sociedade civil.

Valéria acrescenta que o procedimento de "destombamento" de um imóvel é permitido por lei, desde que seja apresentada uma justificativa fundamentada para a reunião do Comppac. "Para o destombamento, a fundamentação tem que ser muito bem feita. Como o local possui um forte apelo histórico e arquitetônico para a cidade, acredito que seria necessária uma argumentação muito forte para convencer o conselho." Caso os sócios aprovem a construção do shopping hoje, e o resultado da eventual reunião do Comppac seja favorável à ação, a decisão ainda passaria por sanção do Executivo, já que o conselho é consultivo.

 

‘Atentado à história do esporte da cidade’

A construção do shopping está longe de ser consenso entre os sócios. Parte dos associados do Verdão argumenta que a proposta pode sentenciar o fim da história quase centenária do Sport, fundado em 1916. "Estamos nos mobilizando para acabar com essa ideia. Espero que não só os sócios, mas toda a sociedade juiz-forana se organize para evitar esse atentado à história do esporte da cidade", afirmou o ex vice-presidente do clube, Márcio Guerra.

Sobre a situação econômica , o ex-dirigente afirma que a estrutura do Verdão é subutilizada e acrescenta que o clube pode ser melhor administrado. "Nós vemos o que aconteceu com o Tupi, que vendeu parte da sua sede. Esse não é o caminho. Falta criatividade para tornar o clube rentável. As escolinhas estão com menos alunos, o restaurante foi fechado, e os eventos que lotavam o clube praticamente não existem mais", lamentou.

Para o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil – Núcleo Juiz de Fora, Marcos Olender, a preservação da sede social, da arquibancada e da piscina suspensa são fundamentais para contar a história do município. "A arquibancada e a piscina são projetos ousados para a época em que foram criados. São um marco da arquitetura e da engenharia juiz-forana pela inovação modernista que apresentaram e também pela autoria deles, de Arthur Arcuri, um dos principais arquitetos do Brasil. Já a sede social é um testemunho vivo da história do clube e do esporte em Juiz de Fora, já que é a única entre os grandes clubes da cidade que se mantém intacta desde que o Sport se instituiu na Avenida Rio Branco", explicou Olender.

De acordo com a divisão de patrimônio cultural da Funalfa, além da antiga sede social e da arquibancada, protegidas como patrimônio desde 2011, a piscina do clube, a primeira piscina suspensa da América Latina, também poderá ser tombada. O pedido dos sócios beneméritos Edson Costa e Luiz Carlos de Oliveira Soares foi encaminhado recentemente ao Comppac, que vai realizar os procedimentos internos para analisar a possibilidade de execução da ação.

 

O shopping

O projeto de construção de um shopping center na sede do Sport Club Juiz de Fora iria demandar um investimento de aproximadamente R$ 220 milhões e poderia gerar 4 mil empregos diretos e até 12 mil indiretos, segundo informações da empresa responsável pelo empreendimento, a Saphyr Shopping Centers. O complexo comercial teria 32 mil metros de área bruta locável (ABL), com 112 mil metros de área construída e 1.771 vagas de estacionamento no subsolo.

O empreendimento ainda contaria com um hotel com 189 apartamentos e outro prédio com 197 salas de escritório, disponíveis para locação. O espaço teria um perfil para as classes de A, B e C, contando com um complexo de cinemas de última geração, com 270 metros quadrados de telas, pelo menos cinco lojas-âncoras e outras seis megalojas distribuídas em três andares.