Histórias de João Caniato e Gabryelle Silva mostram o papel das mães na formação esportiva

Goleiro ex-Tupi e nadadora destaque em Juiz de Fora têm mães como principal ponto de apoio; relação se fortalece na rotina e decisões sobre a carreira


Por Davi Sampaio

10/05/2026 às 07h00- Atualizada 10/05/2026 às 09h30

O silêncio antes do pênalti é o momento mais solitário do futebol. Para o goleiro João Caniato, porém, a solidão nunca foi um problema. Nas traves do Estádio Municipal de Juiz de Fora, quando defendeu o Tupi, ou agora, na conquista do acesso para a Série A3 do Paulista, com o Inter de Bebedouro, o juiz-forano de 23 anos sabe que, em algum lugar da arquibancada ou do outro lado de uma tela de celular, existe um par de olhos que não desvia o foco. Simone Aparecida Caniato Moreira, auxiliar de saúde bucal de 56 anos, é a base onde o atleta construiu sua segurança. Na natação, a história se repete com Gabryelle Cristina Silva, de 18 anos, que encontra na mãe o apoio para seguir competindo e buscando espaço nas águas abertas.

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João Caniato comemora com a mãe (à direita dele) vitória do Tupi (Foto: Leonardo Costa)

“Amor maior do mundo”

Tudo começou no banco de trás de um carro, ainda criança, a caminho do primeiro treino. No volante, estava Simone, presença constante desde os primeiros passos do filho no futebol, no Sport Club Juiz de Fora. Antes das luvas, vieram as tentativas de convencê-lo a jogar na linha. “Eu brigava com ele”, lembra Simone, rindo. Não adiantou. O gol venceu. E, com o tempo, ela também passou a defender aquele sonho.

Vieram então as rotinas: levar, esperar, buscar, repetir. Treinos, jogos e viagens. Algumas longas o suficiente para atravessar estados dentro de um ônibus. Uberlândia, Florianópolis, Goiânia. Simone esteve presente desde as defesas heroicas na Copa Bahamas até o primeiro contrato aos 17 anos com o Athletic.

No ano passado, após anos fora, Caniato retornou à Juiz de Fora para defender o Tupi na Segunda Divisão do Campeonato Mineiro. Durante toda a competição, foi o destaque do clube, sendo ovacionado pelos torcedores juiz-foranos em diversos jogos.

Ver o João sendo reconhecido pela torcida, no mesmo estádio onde o levávamos quando criança, é gratificante demais“, conta a mãe. Quando João concentrava no próprio lar, havia um ritual: acordar no dia do jogo com o café pronto. “Era o jeito dela me dar força antes de eu sair”, relembra. Horas depois, já no estádio, o apoio vinha da arquibancada. “Quando eu entrava para aquecer, ela já estava lá, mandando beijo. Era uma sensação muito especial”, fala Caniato.

dia das maes caniato. foto arquivo pessoal
Simone esteve presente em jogo na cidade de Jaú (Foto: Arquivo pessoal)

Já neste ano, depois do acesso para a Série A3 do Paulista conquistado com a Inter de Bebedouro, a comemoração ainda acontecia no campo quando o celular mostrou uma chamada perdida. Era de casa. Após retornar, encontrou a alegria do outro lado da tela. Mais tarde, vieram as mensagens, os pedidos de vídeos, a necessidade de reviver todos os momentos.

Do lado de cá, Simone acompanhava tudo pela televisão, com ansiedade e esperança. Quando o apito final confirmou o objetivo, a reação foi imediata. “É uma felicidade muito grande ver ele conquistando o que busca com tanto esforço”, conta.

Para João, a presença virou fundamental para o sucesso profissional. “Ela me ajuda principalmente a manter a cabeça no lugar, a tomar decisões com calma, usando mais a razão do que a emoção. Além disso, me apoia em qualquer fase, independente do momento que eu estou vivendo“, comenta. Dessa forma, o amor pela mãe é o “maior do mundo”.

“Minha mãe é tudo pra mim. Ela é incrível, muito forte, sempre conseguiu conciliar o trabalho com o fato de estar presente na minha vida, me levando e buscando nos treinos. Eu a amo muito e sou extremamente grato por tudo que ela já fez e continua fazendo por mim. Nada disso que estou vivendo seria possível sem ela. Se eu cheguei até aqui, é por causa dela e do meu pai, que sempre estiveram ao meu lado”, elogia o filho.

“Atravessaria o oceano para te ver feliz”

Rosãngela é combustível para Gabryelle seguir o sonho (Foto: Arquivo pessoal)
Elisângela é combustível para Gabryelle seguir o sonho (Foto: Arquivo pessoal)

No caso de Gabryelle Silva, de 18 anos, tem sempre uma voz que vem de fora da água. Moradora do Dias Tavares, Zona Rural, a atleta – que representa o SESC e a equipe “Tubarões”, de São João Nepomuceno – tem se destacado em águas abertas com um impulso decisivo: o incentivo da mãe.

A inspiração para começar na natação veio de uma reportagem sobre a campeã olímpica Ana Marcela Cunha. Mas foi dentro de casa que o sonho ganhou força. “Minha mãe foi a primeira a me apoiar, a dizer ‘vai’. Sem isso, eu nem teria começado”, conta a filha.

Nem sempre foi possível estar em todas as bordas de piscina. O trabalho, muitas vezes, impôs distância física. Ainda assim, nunca faltou presença. “Ela sempre perguntava como foi o treino, valorizava todos os detalhes”, lembra Gabryelle. Nos dias de competição, quando consegue olhar e encontrar a mãe ali, tudo muda. “Me traz conforto. Mesmo com a pressão, isso me dá força”, pontua.

Do outro lado dessa história está Elisângela Cristina Santos, de 53 anos, recepcionista, mãe de dois filhos e avó. É ela quem organiza a rotina, rearranja horários, busca caminhos para que a filha siga competindo. “Já troquei folga e vou trocar quantas vezes for preciso pra viajar com ela”, garante.

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Mãe busca estar presente em todas as competições da filha (Foto: Arquivo pessoal)

A relação entre as duas se ergue nas viagens longas, muitas vezes com o orçamento apertado; nas arquibancadas improvisadas, seja na piscina, na represa ou no mar; nas conversas depois de cada prova. “Eu acabo sendo um pouco de tudo: mãe, ‘nutricionista’, ‘treinadora’, incentivadora”, conta Elisângela.

Para garantir que a filha esteja nas competições, ela vai além da rotina de recepcionista. Faz horas extras, aceita outros trabalhos, soma funções. Tudo para não deixar faltar o essencial. “É pra alimentação, passagem, hospedagem… E ela reconhece”, diz, com orgulho.

Ao mesmo tempo em que tem todas essas atribuições, a mãe busca patrocínios para a filha para viabilizar a disputa de competições. diz juda de um patrocínio e como isso faria a alegria de uma mãe “Se eu tivesse que definir minha mãe, diria que ela é força. Tenho um orgulho imenso dela“, afirma Gabryelle.

E, quando fala de futuro, a presença da mãe segue como base. É quem incentiva a buscar novos desafios, quem acredita quando ainda parece distante. “Ela me ajuda a pensar grande ,a sempre ir atrás de competições. É a pessoa que acredita que eu possa ir além, sempre gritando e vibrando por mim. Eu te amo, mamãe, e atravessaria o oceano inteiro nadando só para te ver feliz”, finaliza.