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Brincadeira de criança-atleta


Por PEDRO BRASIL

09/06/2013 às 07h00

A corrida de rua é um dos esportes que mais ganha adeptos no Brasil. Seja pela liberação da endorfina – hormônio ligado à sensação de bem-estar – ou pelo alto gasto calórico da atividade, fato é que a cada dia é possível perceber o maior número de coraredores pelos parques e avenidas. Com o crescimento da prática entre os adultos, os filhos veem nos pais um espelho para iniciar no esporte. E não se trata das tradicionais brincadeiras de pique ou pega-pega. Juiz de Fora possui corridas organizadas especificamente para o público infanto-juvenil, com atletas numerados e pódio para os vencedores.

De acordo com Orlando Benício, coordenador do ranking de corridas rústicas de Juiz de Fora, a proposta inicial era da criação de um ranking infantil, nos mesmos moldes do adulto, ainda em 2013, mas a ideia foi postergada. "Preferimos fortalecer as corridas infantis que já existem, realizadas um dia antes das atividades do ranking. Em um segundo momento, talvez em 2014, poderemos fazer o infantil", afirma.

No mês passado, aproximadamente 350 crianças participaram da segunda prova do Ranking no ano, no Campus da UFJF – a primeira, a Corrida da Saúde/Suprema, foi em 5 de maio. As atividades começaram às 9h e os atletas-mirins foram divididos em cinco categorias, com a distância percorrida aumentando de acordo com a idade. Os garotos de 6 e 7 anos correm 100m; os de 8 e 9, 200m; para as crianças de 10 e 11 anos, o trajeto é de 300m; os corredores entre 12 e 13 anos competem na prova de 600m; e na última categoria, para jovens de 14 e 15 anos, o percurso possui 1km.

De acordo com o organizador da prova e professor da Faculdade de Educação Física e Desportos (Faefid), Jorge Perrout, a razão das distâncias serem pequenas é evitar uma disparidade entre os atletas e não correr o risco de desmotivar nenhuma criança. "Nosso objetivo é colocar esses garotos para correr. De acordo com as pesquisas, de cada três crianças, uma está acima do peso. Hoje, as crianças não se socializam como antes. Elas estão nas telas, seja do videogame, da televisão, do computador, do celular. O esporte, além de trabalhar pela saúde das crianças, ajuda na socialização", destaca Perrout.

Atualmente, quatro provas são organizadas separadamente exclusivamente para criançada. A próxima acontece em setembro, na Corrida Infantil Medquímica/Granbery, e última, a Corrida Camilo dos Santos/Associação dos Cego, em novembro. Benício acrescenta que em junho, na prova de Chácara, e em novembro, no XTerra, estão programadas corridas infantis, porém eles serão no mesmo dia das provas dos adultos.

 

Na infância, atividade deve ser totalmente lúdica

Para os especialistas, a atividade física é benéfica, mas deve ser realizado um acompanhamento médico e de um educador físico. Ex-coordenador médico das divisões de base do Cruzeiro, o ortopedista Fernando Mascarenhas explica que os ossos das crianças são mais flexíveis e atenta para o fator crescimento. "As crianças e adolescentes não são adultos em miniatura. Durante o crescimento e desenvolvimento do sistema musculoesquelético, o nosso organismo vai passando por alterações".

O médico alerta que, com o aumento da prática esportiva de alto rendimento para crianças – cada vez mais jovens -, o número de lesões por excesso de treinamento está aumentando. "A sobrecarga de treino pode gerar alterações ósseas, cartilaginosas, tendíneas e nas regiões de crescimento, e, como consequência, sequelas incapacitantes, incompatíveis com o alto rendimento esportivo. O mal gerenciamento dessas patologias pode levar à interrupção precoce da carreira de atletas com grande potencial", alerta.

Mascarenhas ressalta a importância do educador físico para prescrever o exercício e determinar a carga e a intensidade para cada idade, respeitando o biotipo e a fase do crescimento e desenvolvimento do esportista. "Ao menor sinal de dor, edema ou desconforto, o atleta deverá ser encaminhado para um ortopedista", afirma.

 

Por partes

O doutor em ciência do desporto e membro da Academia Brasileira de Treinadores do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) Jeferson Vianna acrescenta que o trabalho com crianças e adolescentes tem que ser dividido em etapas para não comprometer o desenvolvimento físico e motor dos jovens. Segundo ele, antes da puberdade, o objetivo do trabalho é lúdico, para aprimorar a realização de movimentos, sem preocupação com desenvolvimento físico e com a utilização de jogos para aumentar a motivação dos garotos na prática esportiva. "O jogo é um motivador tanto para o vencedor quanto para o derrotado. Acredito que a derrota é a melhor forma de motivar um garoto. Ele tem que saber perder e aprender de que forma ele pode evoluir e melhorar, para, posteriormente, vencer", afirma.

Ainda de acordo com Vianna, a partir da puberdade – entre 12 e 14 anos – os treinamentos técnicos e físicos de força, velocidade e impacto são, paulatinamente, intensificados para não haver o risco de ocasionar algum tipo de lesão na coluna ou nas articulações. Entre os 16 e 17 anos, a carga de treinamentos já pode ser aumentada de forma mais expressiva. Porém essa é a fase em que acontece o maior número de abandonos. "O período com a maior carga de treinamentos coincide com a época que os estudos demandam mais tempo. E, muitas vezes, os atletas não conseguem conciliar as duas coisas."

 

Primeiros passos

A busca pela corrida acontece por diversos caminhos. Um dos mais comuns é o incentivo dos pais, como é o caso da família Cedrola de Souza. O filho mais velho, Gustavo Cedrola de Souza, tem 12 anos e, segundo a própria contagem, 26 medalhas no currículo. "No começo eu não gostava, mas com as competições comecei a tomar gosto", diz ele. A paixão chegou até a caçulinha da família, Isabelly, de 6 anos. De acordo com o pai, Júlio César de Souza, a pequena começou aos 4, quando a família morava nos Estados Unidos, incentivada por uma colega que praticava o esporte. "Ela já chegou a fazer distâncias maiores, de quilômetros, mas aqui no Brasil não é permitido. Acho que o esporte faz parte da educação da garotada. Dá mais disciplina", acredita o pai.

Além do incentivo da família, a garotada que deseja iniciar os trabalhos para a corrida possui outras alternativas, até com orientação profissional. Realizado por meio de uma parceria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) com o Governo do Estado, o projeto Minas Olímpica dá a jovens de 6 até 17 anos a oportunidade de conhecer o universo do atletismo. "As crianças iniciam os trabalhos de uma forma mais lúdica, com brincadeiras e inserções em outros esportes, como o futebol. A partir dos 12 anos, a carga de trabalho e os treinos técnicos do atletismo propriamente dito, com uma rotina mais especializada, vão sendo intensificados" , afirma o coordenador do projeto, Jorge Perrout. Segundo ele, mais de cem crianças, hoje, vão até a UFJF para treinar não só corrida, mas outras modalidades do atletismo. "Nós buscamos as escolas para difundir o projeto. A resposta vem sendo muito boa."

Uma das crianças que entrou no projeto após uma visita da comissão nas escolas foi Noemi Alves da Cruz, 12 anos. "Eles foram lá na Fernando Lobo e me falaram que eu poderia competir. No começo, eu cansava muito, mas agora já consigo respirar melhor e, com isso, correr melhor. O resultado são as vitórias na pista", conta, orgulhosa, a jovem atleta.