Jornalista lança livro sobre o Fla de 1981

Eduardo Monsanto nas Olimpíadas de Pequim
Um dos títulos mais importantes do futebol brasileiro, o maior da história do Clube de Regatas do Flamengo, completa 30 anos no próximo dia 13 de dezembro. Para marcar a data, um petropolitano que tem sua história intimamente ligada a Juiz de Fora resolveu mergulhar na história do time mais marcante do Rubro-Negro em todos os tempos. Terça-feira (8), o apresentador e narrador dos canais ESPN, Eduardo Monsanto, 32 anos, lança, no Rio de Janeiro, o livro "1981 – O ano Rubro-Negro", editado pela Panda Books.
Jornalista formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Monsanto começou a carreira de repórter esportivo na Rádio Solar AM, em 1997, ainda quando era estudante universitário. Ficou na emissora até 1999, quando passou a ser estagiário da TV Panorama e, depois, repórter e apresentador.
Em 2005, Monsanto deixou Juiz de Fora para integrar o time de narradores da ESPN Brasil, emissora pela qual cobriu a Olimpíada de Pequim em 2008 e a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. Desde 2006, apresenta ao lado de José Trajano o programa Pontapé Inicial, que vai ao ar de segunda a sexta, das 10h às 11h30, misturando esporte e cultura.
Nessa entrevista exclusiva para a Tribuna, por e-mail, Monsanto conta como foi a construção de seu primeiro livro, relembra entrevistas marcantes e até revela algumas das curiosidades das páginas de "1981". O livro, que traz depoimentos de Adílio, Andrade, Anselmo, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, Antônio Maria Filho, Baroninho, Bruno Caritato, Cláudio Cruz, Dino Sani, Eduardo Mota, Júnior, Kléber Leite, Leandro, Lico, Marcelo Rezende, Márcio Braga, Marinho, Moraes, Mozer, Nei Dias, Nelsinho Rosa, Nunes, Paulo César Carpegiani, Paulo César Coutinho (Cascão), Peu, Raul, Rondinelli, Tita e Zico, tem previsão de lançamento em Juiz de Fora para o próximo dia 18, e ainda outra premiére em São Paulo no dia 22 de novembro.
Tribuna – O gancho para escrever o livro foram os 30 anos da conquista do Mundial pelo Flamengo. Mas, por que escrever especificamente sobre esse time e esse título em particular?
Eduardo Monsanto – Zico foi meu grande ídolo de infância. Pude curtir como torcedor os anos finais da carreira dele, mas eu só tinha 2 anos quando o Flamengo viveu seu momento mais importante. Isto sempre me deixou meio frustrado. Achei na internet um sujeito que vendia dvds com os jogos antigos daquele Flamengo e fui comprando todos, com as partidas completas! E descobri que aquele time era ainda melhor do que falavam. Era muito mais do que o time do Zico: tinha Leandro e Júnior, os dois melhores laterais do mundo; um meio-campo que, além de Zico, tinha a qualidade do Andrade e a habilidade do Adílio. Tita e Lico jogavam no meio e no ataque com a mesma eficiência, Nunes era o cara que aparecia nas grandes decisões, Raul trazia a bagagem internacional que ainda faltava ao time (tinha sido campeão da Libertadores pelo Cruzeiro), e a zaga tinha dois jogadores viris, rápidos e técnicos, que eram Mozer e Marinho. Conversei com cada um deles para reconstruir a trajetória do maior Flamengo de todos os tempos, e se não vi o jogo na época, posso dizer agora que pouca gente sabe mais sobre aquele time e a história dele do que eu.
– A pesquisa durou quanto tempo?
– Inicialmente, eu queria fazer um documentário para a ESPN sobre o tema em 2006, mas o orçamento estava curto, e o projeto foi adiado. Eu já tinha passado as férias daquele ano enfurnado na Biblioteca Nacional, pesquisando, e decidi aproveitar aquela apuração para escrever um livro sobre aquele time de 1981. Passaram cinco anos, e a oportunidade de fazer o documentário apareceu agora, em 2011. Ao mesmo tempo, o Marcelo Duarte, da editora Panda Books, me perguntou se eu não tinha nenhum projeto para um livro. Contei a ideia que tinha sobre o Flamengo, e ele topou de imediato. Só que a realização do documentário atrasou, e os prazos para publicar o livro me obrigaram a começar as entrevistas. Resultado: entrevistei praticamente todo mundo duas vezes! Em termos de logística foi insano, mas para a apuração foi ótimo. Deu para aprofundar bastante as conversas e desencavar um monte de curiosidades e histórias de bastidores que o torcedor nem sonhava. O encontro com Mozer foi fantástico. Estive em Portugal para gravar com ele para o documentário, e registrei um encontro dele com Anselmo, que também mora em Portugal. O Anselmo foi o jogador escolhido pelo técnico do Flamengo na época, Paulo César Carpegiani, para vingar Lico e Adílio, que tinham sido agredidos covardemente pelo Mario Soto, do Cobreloa, do Chile. Ele entrou só para dar um soco no zagueiro chileno e saiu de campo expulso. Chegou ao Brasil nos braços do povo, virou o "vingador rubro-negro". E ninguém nunca mais ouviu falar dele. E o estereótipo que fica do agressor é o do cara desequilibrado, maluco de pedra, marginal, bandido… E o Anselmo não é nada disso. É um cara sossegado, que vive numa cidadezinha chamada Quarteira, no litoral português, e trabalha em uma escola secundária como contador. Fala mansa, tranquilo… eu esperava encontrar um encrenqueiro e vi que o que aconteceu com ele foi uma coisa absolutamente de momento. Ele e o Mozer não se viam há tempos, e o papo dos dois foi emocionante.
– Qual foi a parte mais difícil do trabalho?
– A triagem, a decisão de escolher quais histórias de bastidores entrariam e quais ficariam de fora. Eu teria material para fazer um livro com 600, 700 páginas. Mas optei por não comprometer o ritmo de leitura. Também foi difícil contatar alguns dos jogadores da antiga, como o Tita, que estava treinando o Leon, do México, na época do livro, e não tinha telefone. A entrevista foi feita com um rádio emprestado…
– Você entrevistou vários de seus ídolos de infância. Com quem acha que fez a melhor das entrevistas? Com quem ficou mais nervoso?
– Mesmo com Zico, que foi meu ídolo de infância, não houve nenhum tipo de nervosismo. Mas teve algo especial. Quando conversamos para o documentário, eu estive na casa dele, na Barra da Tijuca, e pude dar uma volta no Toyota Celica 1982 que ele recebeu como prêmio de melhor em campo na vitória de 3 a 0 sobre o Liverpool. Ele tem o carro até hoje! E está inteiraço, com menos de 80 mil quilômetros rodados! Não resisti: comprei uma foto antiga do Zico recebendo o carro em Tóquio e reproduzi a pose 30 anos depois na garagem dele. Mas a entrevista que mais me emocionou foi a do Leandro. O amor que ele tem pelo Flamengo, aquela história do torcedor que realiza o sonho de vestir a camisa do clube de coração, e o leva ao título máximo da história da instituição… é demais. Ele era um dos vários integrantes daquela geração que haviam sido formados nas categorias de base do clube e tinham um envolvimento com o Flamengo que superava a simples relação de trabalho. Era um autêntico caso de amor com o vermelho e o preto, um sentimento em extinção hoje em dia.
– Ficou de fora alguém que você gostaria de ter conversado?
– Três caras que Deus levou antes que eu pudesse ter a honra e o prazer de entrevistar. O primeiro, Cláudio Coutinho, técnico que chegou ao Flamengo em 1976 e começou a montar o time mais vitorioso da história do clube. O segundo, Domingos Bosco, que era supervisor do time e fazia de tudo pelos seus jogadores. O terceiro, o zagueiro Figueiredo, que morreu em um acidente aéreo em 1984 e era um senhor jogador. Acredito que teria defendido o Brasil na Copa de 1986 se continuasse evoluindo o que vinha evoluindo pelo Flamengo.
– Qual é a sua principal memória da conquista do Mundial? Na época já tinha noção do que seu time, o Flamengo, ganhava?
– Não tenho a menor lembrança de 1981. Não me lembro de nada, nada. Sorte que, sendo jornalista e caprichando na apuração, deu pra reconstruir essa história toda.
– Ao comentar sobre seu livro, o Mauro César Pereira, seu companheiro de ESPN, disse que ele ajudava a derrubar uma velha mania do jornalismo brasileiro de que quem não viveu o acontecimento não pode contá-lo. Qual a sua opinião sobre isso?
– Se essa máxima fosse levada adiante, o livro mais vendido de todos os tempos, a Bíblia Sagrada, não existiria… Ter presenciado ou vivido a história que você conta ajuda muito, mas esses 30 anos de distância também ajudam em alguns aspectos, como revelações de bastidores que já podem ser feitas sem o mesmo impacto que teriam dias após a conquista. Um exemplo é a entrevista de Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que era o presidente do Flamengo em 1981. Ele revelou que antes do julgamento da partida entre Flamengo e Atlético-MG (jogo que terminou no primeiro tempo em 0 a 0 depois que José Roberto Wright expulsou cinco jogadores do Galo), recebeu orientações do então presidente da Fifa, João Havelange, de como deveria se portar para ganhar a causa. O sogro de Dunshee, o grande benemérito do Vasco, José Osório, era o melhor amigo de Havelange, e ligou na véspera do julgamento para avisar o genro de que o julgamento já estava ganho. Talvez essa história não fosse contada com a mesma tranquilidade se ainda estivéssemos no calor da decisão.
– Qual o segredo para realizar uma obra tão completa sobre um fato já tão contado e retratado?
– Eu sou um leitor compulsivo, e essa leitura me ajudou a construir o livro que faltava ser escrito. Escrevi a obra que eu, como leitor, sentia falta. Ouvi jogadores, treinadores, dirigentes, torcedores, jornalistas; levantei mais de 40 fotos raríssimas, consegui réplicas de 15 ingressos históricos, incluindo os da final do Mundial contra o Liverpool e os dos três jogos decisivos da Libertadores contra o Cobreloa; para a geração que curte as análises do Paulo Vinícius Coelho, o livro traz esquemas táticos ilustrados mostrando a evolução do time do Flamengo entre 1976 e 1981; para quem gostava do Tabelão da revista "Placar", tem as fichas técnicas de todos os jogos do Flamengo na Libertadores de 1981; tem as ilustrações de todos os gols do Flamengo na Libertadores de 1981, além de ilustrações dos gols da final do Campeonato Brasileiro de 1980 e do Mundial Interclubes de 1981; reproduções de documentos históricos, incluindo cinco páginas da revista oficial do Mundial Interclubes distribuída em Tóquio no dia da partida; primeira carteira de treinador de Cláudio Coutinho no Flamengo; álbuns de figurinhas com o time do Flamengo entre 1976 e 1978; atestado de óbito de Cláudio Coutinho; ofício do então presidente da Fifa, João Havelange, parabenizando o Flamengo pelo título mundial… e outras raridades. Não sei se há segredo além da vontade de fazer o livro que eu gostaria de ler.
– Sem querer estragar a surpresa, o livro tem algumas revelações e aspectos da conquista dos quais muitos não sabiam, nem os torcedores mais fanáticos. Como foi para você descobri-las? Pode revelar alguma?
– Mesmo acompanhando futebol há muito tempo, a quase ida do Roberto Dinamite para o Flamengo em 1980 foi um dos fatos que me surpreenderam durante as entrevistas. O Roberto tinha ido para o Barcelona, mas não deu certo lá. Foi oferecido de volta ao Vasco, que não fez esforço para repatriá-lo. Aí, o Flamengo entrou na jogada. O então presidente Márcio Braga foi para Espanha e chegou a fechar um pré-contrato com o Barcelona. No Rio, não se falava de outra coisa. Pela Rádio Nacional, o Washington Rodrigues tinha produzido uma montagem que deixou os vascaínos de cabelos em pé. Em um Flamengo e Vasco fictício, Zico e Roberto trocavam passes até que Dinamite fizesse o gol da vitória rubro-negra. Para evitar o que seria uma tragédia para seus torcedores, o Vasco atravessou o negócio. Como o Barcelona ainda não tinha pago o valor estipulado pela compra de Dinamite inicialmente junto ao clube da Colina, preferiu desmanchar o negócio. Mas faltou pouco para ver Roberto de vermelho e preto!
– Há uma eterna discussão sobre se o jornalista deve ou não revelar seu time do coração. Qual é sua opinião sobre o assunto?
– Todo jornalista esportivo já foi torcedor um dia. É a coisa mais natural do mundo que ele tenha um time de coração. Só que ao chegar à redação, ao estúdio, onde quer que trabalhe, é obrigação dele ser 100% jornalista e deixar o torcedor em casa. Eu te digo tranquilamente que consigo fazer isso. O problema é que, ao falar para que time você torce, seu leitor, espectador ou ouvinte tende a ser simplista e achar que qualquer opinião que você dê é baseada em paixão clubística. E gente que usa seu espaço na imprensa para "cornetar", para agir como torcedor, não merece ser chamada de jornalista. Se me perguntam meu time, respondo. Mas que fique bem claro: o jornalista sempre predomina sobre o torcedor.









