Um gigante das quadras

Num mundo feito para baixinhos, Leandro encara os desafios do dia a dia com bom humorLEONARDO COSTA
Do alto de seus 2,17 m de altura, Leandrão encara o desafio diário de se adaptar a um mundo feito para “baixinhos”. Atleta mais alto da Superliga, o oposto do JF Vôlei não se intimida para superar os 2,43 m da rede quando está dentro de quadra (feito atingido até mesmo sem desgrudar os pés do chão), mas sofre em boa parte das atividades corriqueiras, como tomar banho, dormir ou comprar roupas.
Apesar de ser desafiado constantemente no dia a dia, Leandrão encara as dificuldades com bom humor. Reação de quem já se acostumou a tomar banho com o chuveiro abaixo do pescoço. “Para dormir também é difícil. Sobra metade da canela para fora. Várias vezes em hotéis já tive que dormir na diagonal. Tenho que abaixar a cabeça em alguns elevadores. Andar de ônibus nem no leito resolve. No avião tenho que ficar na saída de emergência. Não chego a conseguir esticar totalmente a perna, mas pelo menos não sinto aquela dorzinha no joelho”, diz o oposto, que só de perna tem mais de 1,20m.
“Calço 46. Para minha altura é até razoável. Tem certos atletas com 1,90m que calçam números maiores. Tênis eu até encontro nas lojas, mas sapato social eu preciso encomendar. Já com a roupa é mais complicado. Tenho que mandar costurar calças. Pega muito no comprimento.”
Nascido em Três Lagoas-MS, o atleta, de 23 anos, sempre soube que seria alto, mas surpreendeu toda a família já aos 13, quando o crescimento acelerou. “Na época, já tinha 1,90m e pensei que ia parar, mas continuei espichando. Sempre fui mais alto. Tenho duas irmãs, mas não são muito altas, com 1,60m, 1,70m. Acho que puxei mais o meu tio, que tem 1,90m. Meu pai e meus tios são altos, mas ninguém chegou aos dois metros. Cabia mais ou menos (na carteira da escola). Na realidade, tinha que adaptar umas mesas e umas cadeiras. Naquela época era mais complicado. Era todo mundo baixinho na quarta série”, afirma Leandrão.
Não bastasse a surpresa dos familiares com a altura que o garoto atingia a cada ano, Leandrão precisou se acostumar com todo o tipo de reação cada vez que anda pela rua. “Têm certas situações que me deixam um pouco constrangido. Várias pessoas pedem para tirar foto. Sei que é mais por curiosidade. Já me perguntaram se sou de verdade mesmo, se estou usando perna de pau. Na verdade sou bem tranquilo. Levo tudo na esportiva.”
Característica valorizada no esporte
Se por um lado a capacidade de ver o mundo do alto traz desafios, essa é uma característica bastante valorizada para realizar o sonho no qual Leandrão tem se empenhado. Até mesmo para o mundo de gigantes do voleibol profissional, onde não é difícil encontrar atletas com mais de dois metros, a altura do oposto chama atenção.
Perguntado se algum adversário já havia se mostrado surpreso com os 2,17 m, Leandrão não precisou pensar para responder: “Várias vezes. Até então nunca tinham visto alguém tão alto. Me viam e falavam ‘caramba, não dá para jogar contra ele’. A altura ajuda bastante, mas também é algo que precisa ser lapidado com muito treinamento técnico, tático.”
Com 1,85m, o levantador Tarik é o mais baixo (ou menos alto) do elenco juiz-forano. Trinta e dois centímetros de diferença entre os companheiros que são proporcionais à admiração pelo potencial que os 2,17m trazem para Leandrão em quadra.
“É um diferencial bacana. Quando ele chegou aqui, falei ‘caraca, esse cara é gigante!’ Isso ajuda ele dentro de quadra. Para atacar a bola é muito mais fácil. O Zóio (ponteiro) tem 1,90m. Ele precisa saltar muito mais. Parado o Leandrão já encosta na ponta da antena. É assustador ter um cara de 2,17m no time”, afirma Tarik.
A estatura do oposto também é uma novidade para o técnico Alessandro Fadul, que afirma já ter trabalhado com profissionais de 2,10m, no máximo. O treinador do JF Vôlei exalta o diferencial que tem muito a contribuir para a evolução do jovem atleta no esporte.
“O alcance no voleibol é realmente importante e é um diferencial para ele. É claro que, por ainda ser jovem e pouco rodado, precisa evoluir em vários fundamentos, mas quem acompanha desde que ele chegou em Juiz de Fora, em outubro, já consegue ver outro jogador e o quanto evoluiu. É jovem, dedicado, trabalha forte todos os dias, e tem tudo para evoluir. Torço para que continue trabalhando bem e que consiga atingir seus objetivos. É um garoto com muito potencial e que não pode desperdiçar o talento que tem”, diz Fadul.
É o potencial citado pelo treinador que motiva o oposto a seguir na dura realidade do voleibol profissional. “Nascido para o esporte”, o atleta é grato pelo dom recebido na vida. “Graças a Deus estou conseguindo me destacar. É muito gratificante. Ter 2,17m é para poucos. Algumas coisas me deixam constrangido e me atrapalham de vez em quando. Mas se for ver o lado bom… Muita gente fala que nasci para jogar. Se Deus quiser, esse time vai crescer mais. O campeonato ainda não acabou. Espero que daqui para frente a gente possa melhorar cada dia mais”, encerra Leandrão.









