Na orelha da bola
Hernane: vivo no cemitério
Você vê um cabra com Hernane. Matador com genes cultivados entre as frutas e as igrejas das distâncias sertanejas de Bom Jesus da Lapa, capital baiana da fé, optou por fazer vítimas zagueiros e goleiros. Futuro melhor que o de jagunço já garantiu, isso é certo. Veja a trajetória: ainda menino, rejeitado em seu próprio estado, achou vaga nas categorias de base do Guarulhos e foi parar no Morumbi. No Tricolor não encontrou espaço e caçou rumo: foi rodar pelos interiores paulistas. Depois de uma passagem discreta pelo Paraná, voltou à terra dos bandeirantes e, feito um Borba Gato de chuteiras, abriu na marra seu caminho rumo à ribalta boleira, marcando 16 gols em 22 jogos pelo Mogi Mirim.
E aí foi parar no Flamengo.
O Rubro-Negro, como todos sabem, é um famoso cemitério de atacantes. Lá ficaram enterrados os restos mortais de artilheiros-relâmpago como Dimba, Dill, Josiel e outros bichos que, depois de brilharem em times de menor expressão, sucumbiram ao peso da camisa, aos urros da torcida ou sabe-se lá a que mal secreto que possa habitar os corredores da Gávea.
Com Hernane não. Já são 20 gols na temporada. William, da Ponte Preta, líder da artilharia no ano, fez 25. Quando chegou do Mogi no ano passado, o Brocador permaneceu à sombra de Vagner Love. Com a saída da estrela, abriu-se espaço para o bom baiano. Vinha bem, obrigado, marcando seus gols jogo sim, jogo não, jogo sim, jogo sim, jogo não, até que trouxeram lá um boliviano que não é bem boliviano. Marcelo Moreno ganhou, com nome, o posto de titular do Flamengo. E Hernane, mesmo sendo reserva, marcou cinco vezes no Brasileiro; Moreno, duas. Na Copa do Brasil, 3 a 2 para o lapense.
Contra a tradição e o marketing, o Brocador permanece no cemitério, recusando-se bravamente a ser enterrado vivo.








