Importante é competir, mas competir muito
A história é bem comum. Uma pessoa começa a praticar um esporte, buscando uma maior qualidade de vida, a melhoria de saúde, a evolução da estética corporal ou apenas um hobby para distrair a cabeça das tensões da rotina da vida moderna. Mas, após algum tempo de exercício, muitos não se contentam só com as atividades regulares pura e simplesmente, e resolvem competir, mesmo sabendo que nunca serão grandes campeões nas modalidades que escolheram.
Em busca de determinar o que acontece com a maioria dos atletas amadores, que mantêm uma rotina de treinamentos rigorosa em busca de resultados quase que invariavelmente relevantes somente para a satisfação pessoal, a reportagem da Tribuna ouviu especialistas e exemplos de praticantes de algumas modalidades com esse perfil.
O que leva o atleta a competir sempre foi motivo de curiosidade para o mestre em educação física e estudioso da psicologia do esporte, Danilo Reis. Este é um dos temas mais estudados no meio acadêmico. E foi do qual me aproximei logo na graduação. A natureza do ser humano é competitiva. Isso é inerente a cada pessoa. Estamos sempre competindo, seja com os outros, seja conosco, diz o pesquisador.
Para Reis, as pessoas que, mesmo não sendo atletas profissionais participam de competições, usam-nas como forma de avaliação de resultados e fator motivacional. A vontade de um esportista amador de participar de disputas está muito ligada à motivação. A palavra já é autoexplicativa. Vem do radical grego ‘movere’, que, no caso, significa se mover. E tanto pode vir de dentro de cada um como de fora. Enquanto está só treinando, esse atleta tem poucas ferramentas para saber o quanto está evoluindo. Já em uma prova ele se mede contra outros oponentes. Outro caso é quando a disputa serve como meta a ser atingida. O esportista amador treina mais motivado se sabe que há uma competição para a qual está se preparando, avalia.
Segundo a psicóloga Thaise Lene, vontade de participar de uma competição é algo muito particular, mas quase todos nos vemos compelidos a isso.É natural de todos os seres humanos. Por vezes, essa vontade vai crescendo, busca-se superar o outro ou a nós mesmos, e as disputas esportivas servem para dar vazão a isso. Elas também surgem da questão do desafio, do desejo de ir mais. Os participantes buscam traçar metas e alcançá-las, se esforçando para isso acontecer. Mas, é importante observar que os objetivos podem ou não ser atingidos, e o principal é que essa atividade traga felicidade ao praticante de esportes, considera.
Obsessão por melhorar a cada dia
Há quatro anos, o médico Leonardo Poncinelli, 41 anos, nunca havia se envolvido em nenhuma disputa atlética. Praticava esportes somente por lazer e para manter a forma física. Mas, um convite despertou o lado competitivo do juiz-forano, que hoje corre o mundo participando de provas de triathlon.
Nunca havia participado de nenhuma competição até 4 anos atrás, quando um amigo me convenceu a fazer a Travessia dos Fortes (prova de natação no Rio de Janeiro na qual os competidores vão do Forte de Copacabana ao Forte do Leme). Gostei e, pouco tempo, depois fiz minha primeira prova de triathlon. A partir daí, competir virou um vício e uma obsessão. Não sei explicar de onde vem essa vontade, mas quem compete faz com dedicação, mesmo sendo atleta amador. É inexplicável o desejo de melhorar a performance, a gente ignora chuva, tempo frio ou calor de matar. Acredito se tratar de personalidade competitiva, pondera Poncinelli.
Para o triatleta, o principal rival é interno, mas o desejo de vencer a prova sempre existe. A gente compete o tempo todo contra nós mesmos. Porém, na hora da largada, você só pensa em chegar na frente. Aí o adversário são os outros, explica, mesmo sabendo de sua condição de atleta amador. Me cobro muito, mas tenho que ser realista em relação às minhas condições. Na minha categoria (40 a 44 anos) vejo ex-atletas profissionais, alguns de nível olímpico, e ainda tem atletas profissionais da minha idade. Eu dediquei minha vida à medicina, não tenho esse histórico esportivo, conforma-se.
Com um currículo que inclui duas provas do Ironman Brasil, em 2010 e 2011, e um Mundial de Longa Distância, na Austrália, em 2009, Leonardo acredita que já atingiu alguns objetivos traçados quando começou a competir, mas ainda quer se dar melhor nas competições. Quanto às metas audaciosas, foram cumpridas. Fiz meu primeiro Mundial, terminei o primeiro Ironman, melhorei meu tempo no segundo. Quero melhorar no próximo, por que não? Qual é o meu limite? Não sei. Esse é o pensamento do triatleta, define.
Como meninos e meninas
Quando quis pela primeira vez competir na natação, a advogada Solange Tavares, 53, tinha apenas 8 anos. Via as meninas treinado e saindo da piscina do Sport, pensava comigo que era aquilo que queria fazer. Então, busquei treinar para isso, conta.
Mas, a vida se encarregou de levar Solange por outros caminhos que não os do esporte profissional e, após um grande hiato, a nadadora voltou a praticar sua modalidade favorita. Isso foi somente em 2000, já depois dos 40. Acabei retornando às piscinas por causa da saúde. Mas, a chama competitiva sempre esteve presente, então, em pouco tempo, estava de volta às disputas na categoria master, relembra a juiz-forana.
A vontade de voltar a competir ajudou a atleta amadora local a superar uma grave doença e a mantém sempre em constante desafio consigo mesma. Fiquei o ano passado inteiro me tratando de um câncer, e o que mais me motivou a superar isso foi o desejo de estar de novo na piscina, de treinar novamente e disputar as provas. Acho que esse espírito competitivo já nasce com a pessoa. Conheço gente que tem pânico de competir. Eu não. Os campeonatos me fazem ter uma meta. Gosto de melhorar meus tempos, independentemente de que lugar fique, conta.
Volta no tempo
Para Solange, durante as disputas, o ambiente provoca reações inexplicáveis e nem mesmo a idade de quem está nadando é levada em consideração. É mágico estar em um campeonato. Quando vejo as raias colocadas, a arbitragem, os cronometristas e a piscina pronta… não sei nem explicar o que sinto. Apesar de ser bastante experiente, o friozinho na barriga ainda volta. Acho isso um dos atrativos das competições, a gente volta no tempo mesmo, tanto que nos tratamos de ‘meninos’ e ‘meninas’, mesmo entre nadadores master. É assim que nos sentimos, explica.
Provando ser capaz de mudar
Se alguém encontrasse com o comerciante Aroldo Tresse, 31, três anos atrás, diria que ele não poderia sequer pensar em disputar as provas das quais hoje participa. O esporte entrou na vida do hoje corredor amador – que arrisca as primeiras provas de triathlon – como uma forma de melhoria na saúde e acabou o encaminhando para competições.
Era hipertenso, estava com diabetes e fumava bastante, há 12 anos já. Conheci o Lucas (Leite, triatleta e treinador de Aroldo na Vidativa Consultoria Esportiva), e ele me chamou para treinar corrida. Não conhecia nada, mas topei. É diferente quando tem alguém te passando o treino, te cobrando. Você tem que dar o resultado e, como forma de me motivar para isso, fiz minha primeira prova na Corrida da Fogueira de 2009. Desde então não parei mais, conta Tresse, que hoje já contabiliza mais de 40 provas, incluindo a Meia Maratona do Rio de Janeiro, em 2010.
Os benefícios na saúde apareceram, as provas continuaram a se suceder e, hoje, é mesmo a competição que faz Aroldo continuar praticando o esporte. Parei de fumar, adquiri hábitos mais saudáveis e, agora, vem o lado competitivo. Antes, era eu contra eu mesmo. Provei que sou capaz de realizar o que me propus. Então, passou a ser eu contra os adversários, conta.
Para o técnico de Aroldo, a maioria das pessoas que procuram um treinamento adequado como atividade física acaba por competir. Acredito que 90% das pessoas que procuram nossa orientação buscam qualidade de vida e acabam se descobrindo atletas amadores. Acho que é porque nunca se viram capazes de participar de uma competição e, quando iniciam na prática, percebem que é possível. Todo mundo é capaz mesmo, o importante é traçar suas próprias metas de maneira realista e não extrapolar suas possibilidades individuais, explica Lucas.









