Voluntariado aumenta chances de emprego


Por FABÍOLA COSTA

29/09/2013 às 07h00

Oito em cada dez executivos de Recursos Humanos (RH) levam em conta a experiência adquirida através do voluntariado na hora de escolher um candidato a emprego. Em contrapartida, menos da metade dos estudantes universitários (46%) pensam neste tipo de trabalho como forma de desenvolver habilidades e ganhar experiência para conseguir ocupação no futuro. Os dados são de pesquisa realizada este ano pela consultoria Deloitte, em que foram ouvidos mais de 500 recrutadores. A maioria associa a experiência a maiores chances de colocação, principalmente entre os recém-formados.

Na avaliação de um currículo, o voluntariado em uma entidade sem fins lucrativos é levado em conta por 81% dos executivos de RH. Ainda conforme o estudo, o trabalho especializado torna o candidato mais desejável para 76%. Se for graduado, o índice aumenta para 81%. No caso do técnico, o nível de interesse por este profissional é um pouco menor: 78%. "As habilidades e a experiência adquiridas através do voluntariado oferecem uma vantagem competitiva", atesta o diretor de Envolvimento Comunitário da Deloitte Services LP, Evan Hochberg. "No entanto, quando mais da metade dos graduados da faculdade não consideram o voluntariado para melhorar a sua empregabilidade, há trabalho a ser feito para ajudá-los a ver o lado positivo da atividade, como uma opção viável de busca de trabalho."

 

Incentivo

A Campe, empresa júnior das faculdades de Economia, Administração e Ciências Contábeis da UFJF, mantém o Programa Acadêmico Voluntário (PAV) há onze anos. Estima-se que, nos últimos cinco anos, o PAV tenha despertado o interesse de 500 estudantes. Entre eles, está o universitário Daniel Daibert Rocha, 22 anos. Antes de ser admitido como representante da direção de uma empresa de terraplenagem, Daniel atuou como auxiliar administrativo de uma instituição de caridade. Na sua opinião, a experiência garantiu a ele vantagem competitiva ante os outros candidatos ao emprego. "No trabalho voluntário, não recebemos dinheiro, mas ganhamos experiência e nos sentimos bem como pessoa." O universitário, no entanto, reconhece que só o voluntariado não basta – é um diferencial, não o determinante. "Se o perfil de dois candidatos for parecido, faz diferença."

A estudante Franciele Ferreira Machado, 19, acredita que a atuação em uma organização não governamental (ONG) a ajudou na disputa por uma bolsa na UFJF. Na instituição, ela ajudava na área administrativa e realizava atendimento ao público e pesquisa de campo. A bolsa a que concorreu previa a realização de entrevistas. "Durante a seleção, comentei sobre a minha experiência e acho que me ajudou." Franciele se interessou pelo voluntariado porque identificou que a vivência poderia ajudá-la a ingressar no mercado formal. "Primeiro, pensei que o certificado ia contar para o meu currículo. Depois que estava lá, porém, fiquei até mais tempo do que precisava, porque me interessei pelo trabalho e resolvi ajudar." Depois de formada, a estudante cogita voltar a atuar profissionalmente no terceiro setor.

A busca de experiência para enriquecer o currículo levou Alessandra Cortes Reis Castanheiras, 18, a se tornar voluntária em uma entidade assistencial. Há dois meses, ela concilia as aulas na faculdade com o trabalho com crianças carentes. "Eu brinco com elas, ajudo no dever da escola e estou adorando." Na avaliação de Alessandra, essa convivência tem sido um aprendizado diário, complementando o conhecimento adquirido em sala de aula. "Fará diferença no meu futuro."

 

 

Longe da zona de conforto

A coordenadora do Programa Acadêmico Voluntário (PAV), Taylla Ferraz Araújo, explica que o programa de responsabilidade social da Campe foi criado com o objetivo de atender às necessidades de clientes internos e sociedade. "Através de parcerias com instituições sociais da cidade, o PAV busca suprir os gargalos que elas possuem, realizando campanhas na UFJF para buscar estudantes interessados em trabalho voluntário." Conforme Taylla, os acadêmicos atuam em áreas como recreação, reforço escolar, atividades administrativas e aulas de informática. "Acredito que o trabalho voluntário seja uma forma de o estudante dar sua contribuição para a sociedade, compartilhando seu conhecimento e tempo livre para ajudar o próximo. O acadêmico tem a oportunidade de adquirir uma experiência social única, saindo de sua zona de conforto e entendendo mais dos problemas sociais que o cercam."

 

Para RH, engajamento cria empatia

Para a analista de Recursos Humanos (RH) do Grupo Let, Christina Nogueira Daret, apesar de algumas empresas não se importarem com a questão, há uma tendência de preocupação com o trabalho voluntário e com o serviço militar, considerados diferenciais principalmente para as grandes organizações. "O candidato mais engajado, responsável e preocupado com o outro é um perfil que vem sendo buscado pelo mercado."

Durante uma entrevista, esta informação pode fazer com que o candidato seja visto com outro olhar, comenta a analista. Apesar de a experiência não ser registrada em carteira, a vivência conta pontos e, conforme Christina, pode despertar maior empatia no contratante. A proatividade de trabalhar sem remuneração, segundo ela, demonstra o interesse do candidato pela vivência profissional, que também é considerada no processo seletivo. A analista adverte, no entanto, que o candidato precisa ter se envolvido com a causa. Caso contrário, é melhor nem citar a experiência.

Já o sócio administrador do Grupo Empregar, Tiago Rezende, avalia que o voluntário não é uma exigência do mercado, mas um diferencial na hora da escolha. "Caso existam dois candidatos no mesmo nível, principalmente em situações de estágio ou primeiro emprego, esse tipo de experiência é considerada." Conforme Tiago, em se tratando de jovens estudantes ou recém-formados, a boa vontade e a disposição de aprender e seguir carreira fazem diferença, já que, na maioria dos casos, não é possível exigir experiência em carteira.

Conforme a pesquisa da consultoria Deloitte, o voluntariado tem sido incentivado em muitas organizações, através de programas de cidadania corporativa. A maioria dos executivos de RH acredita que o voluntariado é benéfico para seus funcionários (65%) e contribui para uma reputação positiva (88%). Do ponto de vista interno, pouco mais da metade (52%) diz que o voluntariado é um elemento importante da cultura da organização.