‘Colhemos resultados’
Desde 2009 no cargo de secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico de Juiz de Fora, o economista André Zuchi afirma que chegou ao final da gestão com a "sensação de dever cumprido". Em entrevista à Tribuna, Zuchi fala dos desafios enfrentados durante o tempo em que esteve à frente da SPDE, analisa o atual momento econômico do município e enumera os "deveres de casa" do próximo secretário. Em quatro anos, ele destaca que a cidade conseguiu sair da inércia e voltar para a rota dos investimentos, que, segundo ele, podem ser constatados com a chegada de grandes empresas ao município. Para isto, ele diz que foi preciso realizar um plano de ações que contou com leis de incentivo fiscal e contribuiu para a revitalização do Distrito Industrial. Zuchi revela ainda que também teve que aprender a lidar com frustrações no período como secretário. A perda para o município de Lorena da disputa pela atração da empresa Comil, segundo ele, foi um dos grandes aprendizados em sua gestão. Por outro lado, ele destaca que a criação de 8 mil empregos em quatro anos e o avanço na dinamização da economia da cidade foram grandes conquistas.
Tribuna – Quais os principais desafios nestes quatro anos de gestão?
André Zuchi – Recriar a Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Econômico (SPDE) foi o primeiro grande desafio. Quando cheguei, ela não existia neste formato, estava desarticulada. Era uma pasta que tinha a maior parte dos processos sob a guarda da Polícia Federal. A Secretaria de Turismo também estava uma catástrofe, e o planejamento urbano havia sido abandonado. Naquela época, a Prefeitura de Juiz de Fora passava por um período de crise, pois não tinha "ficha limpa" para conseguir crédito junto aos órgãos estaduais e federais. Criamos a SPDE e quatro subsecretarias. Até outubro de 2009, estivemos arrumando a casa e o desenvolvimento econômico continuava muito amarrado por conta das diferenças de incentivos fiscais praticados no estado do Rio de Janeiro. Em novembro daquele ano, quando o então governador Aécio Neves assinou decreto que concedia a alíquota de 2% do Imposto Sobre Circulação de Mercadoria (ICMS) para produtos de indústrias que se instalassem na cidade, nós tivemos o primeiro avanço.
Que outras ações foram tomadas para tornar o município mais competitivo?
Fizemos um plano de ações originando um marco regulatório para oferecimento de incentivos fiscais e a criação de áreas especiais de interesse econômico e, com isso, colhemos resultados. Com a redução da alíquota do ISS para call center de 5% para 2%, conseguimos retornar com a Brasil Center para o município e captar a Cercred e a AlmaViva. Neste setor, contabilizamos 6.500 novos empregos, o que gera mais de R$ 50 milhões em renda, distribuídos ao comércio e serviços local, e traz uma arrecadação de R$ 2 milhões por ano para a cidade. Também avançamos com a lei que reduz para 2% a alíquota do ISS para empresas prestadoras de serviço das redes ferroviária e aeroviária. Dada a dificuldade da cidade em ter área disponível, tornamos o Distrito Industrial uma área de interesse econômico e, com isso, conseguimos ocupar em quase 90% uma região que estava praticamente abandonada. Também criamos a lei de incentivo para condomínios empresariais, e fizemos três grandes doações de áreas para as empresas Brafer, CBU e Codeme.
Que empresas acabaram não se instalando na cidade?
Foram dois projetos. A Icec, de estrutura metálica, que teve um problema interno de gestão e não pôde vir por isso. E a Comil, que foi nossa grande derrota. Nós disputávamos com a cidade de Lorena e perdemos por falta de área para que ela se instalasse. Mas aprendemos muito com essa perda. No entanto, prospectamos mais de 80 projetos e podemos dizer com toda certeza que a taxa de sucesso foi fantástica.
– Temos uma grande oferta de empregos, mas com baixa remuneração. Como solucionar isto?
– Trabalho digno é trabalho, independente do valor de remuneração. Faz parte da estrutura da economia ter diversos tipos de empregos ofertados, com o maior número de vagas voltado, principalmente, para a base da pirâmide. O que faz com que o salário cresça é a dinâmica da economia. Temos que continuar este processo para que todos tenham emprego e para que, naturalmente, os salários, inclusive das profissões que exigem menos qualificação, sejam maiores. Para aumentar o rendimento, também cabe ao setor público atrair empresas com melhores remunerações, além de oportunidades de emprego para pessoas com maior qualificação, como é o caso das empresas de base tecnológica. Juiz de Fora ainda não está tão bem ranqueada no salário médio, mas avançou nos últimos anos. Estamos mudando aquela ideia de que a cidade é um bom lugar para estudar, mas não para trabalhar. Só o desenvolvimento dará continuidade a esta transformação.
– Que setores mais cresceram?
– O setor de call center renasceu e hoje é um dos principais empregadores. Os salários não são altos, mas é a oportunidade de primeiro emprego para muitos jovens, o carimbo na carteira, isto é muito importante. O metalmecânico também cresceu muito com a presença de empresas como Açotel, CBU, Brafer e Codeme. Outro setor é o automotivo, com a atuação da Mercedes-Benz. Ele ainda é bastante promissor com a chegada do Centro de Distribuição da Fiat no próximo ano. Este pode ser o primeiro passo para que a montadora queira, quem sabe, se instalar aqui futuramente.
– E quanto aos pequenos negócios?
– Juiz de Fora foi a primeira cidade que implementou a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, recebemos certificação do Sebrae. Hoje os pequenos negócios enfrentam duas grandes dificuldades: a qualificação dos gestores, papel desenvolvido pelo Sistema S, e a grande burocracia, que é onde a Prefeitura deve atuar, simplificando estes processos. Isso ocorrerá através de tecnologia. A nota fiscal eletrônica para serviços é um exemplo.
– Qual sua avaliação sobre a economia local atualmente?
– Todos os números sinalizam dois, três anos para frente muito bons. Sou um cara de longo prazo. Desenvolvimento não se pensa a curto prazo, nós não seguimos o calendário eleitoral, ele estava no meio do nosso cronograma de desenvolvimento. Nós pensamos no futuro, estamos colhendo os resultados do trabalho realizado nesses anos e outros virão. Mudamos a nossa situação, fizemos inflexão da curva, e agora teremos que manter esta realidade. O importante é que quem venha não baixe a guarda.
– Quais os desafios do próximo secretário?
– Estou deixando alguns deveres de casa, como a aprovação da lei de incentivo ao setor de TI, que basta apenas encaminhar à Câmara e é muito importante porque teremos a inauguração do Parque Tecnológico, e do setor de logística, que tem muito potencial de crescimento na cidade. O melhor aproveitamento do Expominas como um espaço para o incentivo ao turismo também é um desafio. Mas o que eu daria prioridade seria manter a dinâmica econômica e, para isso, seria necessária a divisão da SPDE em duas – uma voltada ao planejamento e outra para o desenvolvimento econômico. Confesso que fiquei muito feliz com o trabalho nesses quatro anos, tanto pela sensação de dever cumprido quanto pelo reconhecimento que recebi. Acredito que problemas são complexos e soluções, também. Conseguimos resultados a partir de muito trabalho.









