Recuo do dólar não evita Natal mais caro


Produtos importados devem ficar mais caros neste Natal
Mesmo que o plano de intervenção diária do Banco Central (BC) no câmbio consiga conter a escalada do dólar – ontem a moeda americana apresentou queda de 3,23%, a maior redução no dia em quase dois anos -, dificilmente os consumidores vão deixar de pagar mais caro por alimentos, presentes e viagens neste final de ano. No caso da cesta natalina, por exemplo, além do repasse imediato para os importados, que já começa a ser visto nas gôndolas, há o impacto no preço dos produtos nacionais cuja matéria-prima é cotada em dólar, como derivados de trigo e soja. Os aumentos já passam de 10% no mercado local.
"Alguns produtos já estão chegando com preço mais alto, como o queijo e o bacalhau", atesta a proprietária da Alaska, Aline Rossi Coelho. No caso do peixe, explica, não havia reajuste há três anos. A empresária ainda não estimou o percentual médio de aumento dos importados, mas afirma que já foi comunicada de novas altas em outros itens, como castanhas e nozes. Para Aline, a majoração pode comprometer vendas, levando os consumidores a substituírem produtos, preferindo os mais baratos, mesmo com qualidade inferior. "Está difícil trabalhar. Eu tenho que repassar, não tem jeito." O impacto na procura por importados no final do ano só não deve ser maior, pondera, em função de fatores como maior circulação de dinheiro – liberação do 13º salário -, apelo da data e disposição de presentear. "No Natal, as pessoas gastam mais. Fora desse período, os consumidores sentem mais a diferença de preço."
Segundo o gerente de Marketing do Supermercado Bahamas, Nelson Júnior, o período de compras do varejo para as festas de final do ano já começou. "Se essa escalada continuar, qualquer degrau a mais que o dólar subir significará um final de ano mais caro." A incerteza acerca dos rumos da moeda americana é considerada um desafio para o setor hoje. "Não sabemos realmente se essa tendência de alta vai permanecer." O gerente destaca a preocupação não só com os produtos importados, mas também com os nacionais com matéria-prima cotada em dólar. No caso dos derivados de trigo, por exemplo, o impacto já varia entre 10% e 12%. Nelson Júnior explica que hoje não existe muita diferenciação de produto sazonal, já que itens comuns na ceia natalina, como vinhos importados, frutas cristalizadas e azeites, são consumidos o ano inteiro, embora a procura seja maior no final do ano.
Alimentos, presentes e viagens mais caros
Para o professor da Fundação Getúlio Vargas, Frederico Rosas, o consumidor pode esperar preços mais altos de importados neste final de ano, não só em itens de alimentação, como também em presentes, já que grande parte dos produtos oferecidos são importados ou possuem algum insumo vindo do exterior. Segundo Rosas, outro item que sofrerá este impacto são as viagens ao exterior. "As passagens aéreas já estão sendo pressionadas pela alta do dólar. Outros custos como o de hotéis seguirão a mesma tendência." A Tribuna procurou a Associação Brasileira de Agências de Viagens de Minas Gerais (ABAV), que não se posicionou sobre o assunto.
Rosas pondera, no entanto, que a alta do dólar favorece as indústrias que vendem produtos para o exterior. "Os empresários vêm reclamando há muito da baixa cotação do dólar, o que provoca baixa competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Com a alta, a venda destes produtos se tornará mais atrativa, já que serão mais bem remunerados." Na avaliação do professor, resta saber se, mesmo com condições mais atrativas, haverá demanda, em função da crise que assola não só o Brasil, mas também os parceiros comerciais internacionais.
Frederico Rosas explica que a escalada do dólar está relacionada a retirada de capital do mercado financeiro por investidores em países em desenvolvimento como o Brasil, em função da instabilidade e do aumento dos riscos verificados mundo afora. "Com a saída dos investidores, saem com eles os dólares. A redução de oferta de moeda eleva o seu valor. Este é o fenômeno percebido nos últimos meses."
Ontem, a moeda americana recuou ao patamar de R$ 2,35, reagindo fortemente ao anúncio do BC de oferecer bilhões de dólares em leilões diários, para suprir a demanda da moeda e tentar conter a sua escalada. Apesar de ter atingido na quarta-feira o patamar de R$ 2,45 – a maior cotação desde 9 de dezembro de 2008 – o dólar acumulou queda de 1,78% na semana. No mês, a moeda ainda tem alta de 3%. No ano, a valorização é de 15%.











