Demanda cresce, mas evasão desafia
O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) está amadurecendo e conquistando cada vez mais espaço em Juiz de Fora. Em quase dois anos de existência do programa, o número de matrículas efetivadas em cursos de qualificação oferecidos pelo projeto aumentou 14,4%, saltando de 3.242, em 2012, para 3.710, em 2013 (somente até agosto), conforme dados da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Apesar da crescente adesão, a ausência de dados impede que se saiba se a iniciativa do Governo federal tem alcançado com eficiência seu principal objetivo: promover a capacitação para inserção no mercado de trabalho.
Nestes dois anos, somente em Minas, o Governo já investiu quase R$ 68 milhões. Na cidade, a Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS) realizou parceria com empresas para inclusão produtiva dos profissionais formados pelo Pronatec, mas ainda não há o monitoramento quanto às contratações. Mesmo assim, as unidades que oferecem a qualificação através do programa garantem que a taxa de empregabilidade é grande, e que a capacitação tem contribuído para mudar a realidade de muitos alunos. A defasagem escolar, que motivaria os estudantes a desistirem dos cursos, é apontada como principal gargalo do programa. Em alguns casos, a taxa de evasão chega a 22,3%.
No campus juiz-forano do IF Sudeste são oferecidos 13 cursos via Pronatec. A coordenadora geral da instituição, Maria Aparecida Garcia Pinheiro Goulart, diz que as qualificações na área industrial são as mais procuradas. Em dois anos, foram mais de 2.600 alunos formados pelo projeto nas cinco unidades do IF Sudeste, localizadas em Juiz de Fora, Barbacena, Muriaé, Rio Pomba, Santos Dumont e São João del-Rei. O resultado poderia ser ainda melhor se não fosse a taxa de evasão, de 22,3%, superior à média nacional de 20%. Para Goulart, a falta de conhecimento prévio do aluno é um dos motivos que contribui para a desistência.
A opinião é compartilhada pelo diretor do Centro Integrado de Desenvolvimento do Trabalhador (CDIT) Dr. Luiz Adelar Scheuer do Senai, Ricardo Aloysio e Silva. Até agosto deste ano, a unidade recebeu 2.178 alunos e formou 1.890, contabilizando evasão de 13,22%. Trata-se de uma taxa alta, mas temos que considerar que atendemos um grande público de beneficiários do programa ‘Brasil sem miséria’, que apesar de serem alunos bastante empenhados em acompanhar os cursos, possuem pouca base instrumental para tanto e acabam desistindo no meio da jornada. Ou seja, é uma evasão que reflete a característica atual do ensino público.
Sem dados sobre a desistência de alunos, as outras duas unidades do Senai também atribuem a evasão à defasagem escolar. Nos cursos técnicos, que têm maior duração, a dificuldade é minimizada, porque oferecemos reforço escolar de português e matemática. Mas nos cursos Formação Inicial Continuada (FIC), o principal motivo de abandono da capacitação é o déficit escolar, diz o diretor da Faculdade de Tecnologia (Fatec), Vander Montessi. Por conta de uma defasagem do ensino, alguns alunos não conseguem acompanhar o curso. Também há casos em que a pessoa consegue emprego e prioriza esta oportunidade, afirma José Cláudio de Andrade Biscotto, diretor do Centro de Formação Profissional (CFP) José Fagundes Netto.
Regras
O Ministério da Educação (MEC) estabeleceu como público prioritário do Pronatec as pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) – parceria conhecida como Pronatec/Brasil sem miséria – , estudantes de ensino médio da rede pública e beneficiários do seguro-desemprego. A escolaridade mínima para cada qualificação está descrita em catálogo elaborado pelo órgão. O programa oferece cursos técnicos, com duração mínima de 800 horas, e FIC, com carga horária mínima de 160 horas.
Segundo dados da Secretaria de Educação de Minas Gerais, só este ano, 6.516 pessoas se inscreveram em busca de uma vaga no programa em Juiz de Fora. A assessoria da SDS explica que as inscrições obedecem especificidades de ingresso para cada modalidade de capacitação e são feitas na sede da pasta (Rua Halfeld 450, 6º andar, Centro) ou no site www.pronatec.mec.gov.br. As pessoas que não conseguem se matricular ganham prioridade na abertura de novas turmas ou têm a possibilidade de serem direcionadas para outra qualificação na mesma área de interesse. Entre as unidades ofertantes estão o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat), o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste) e algumas escolas da rede estadual.
‘Inclusão produtiva é realidade’
O Ministério da Educação (MEC) e a Secretaria de Educação de Minas Gerais não possuem dados sobre a inserção dos profissionais formados pelo Pronatec no mercado de trabalho. Em Juiz de Fora, também não há registros desta natureza na Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS) ou nas unidades que oferecem os cursos. Independente da capacidade de mensurar, sabemos que a inclusão produtiva é realidade, pondera o secretário de Desenvolvimento Social, Flávio Cheker. A afirmação, segundo ele, se dá pelo resultado das parcerias feitas com empresas privadas e o Banco do Brasil. O objetivo do Pronatec é permitir o acesso ao mundo do trabalho, seja como funcionário ou empreendedor individual. No primeiro caso, ele diz que há companhias que buscam mão de obra diretamente nas unidades de formação. Estamos trabalhando para começar a monitorar estas contratações. Outra possibilidade para o aluno, destacada pelo secretário, é abrir o próprio negócio por meio da aquisição do microcrédito.
Empresas interessadas
O diretor do Senai CFP José Fagundes Netto, José Cláudio de Andrade Biscotto, reforça que grande parte dos alunos consegue emprego. O setor da indústria vive um momento de aquecimento. É comum representantes de empresas visitarem as turmas em busca de profissionais. Segundo ele, isto acontece tanto com os alunos que se formam nos cursos técnicos, quanto nos de Formação Inicial Continuada (FIC). As oportunidades aparecem para todos. Percebemos a preferência dos nossos alunos em cursarem as modalidades de técnico pelo desejo de fazerem carreira, mas os profissionais operacionais também são muito demandados.
A procura não é apenas por empresas do setor industrial, conforme explica o diretor da Fatec Senai, Vander Montessi. Em 2012, empresas de call center contrataram alunos que se formaram no curso de telemarketing. Ele reconhece que a falta de dados sobre a inserção no mercado de trabalho é uma falha do programa. O MEC deveria estabelecer regras para que também tivéssemos esse retorno.
Durante a semana, a Tribuna procurou informações sobre o projeto junto ao MEC, mas não obteve retorno.
Alunos apostam em oportunidade
A vontade de fazer o curso técnico em automação industrial fez com que Alessandro Gaudereto, 27 anos, se mudasse de São Paulo para Juiz de Fora. Eu estava trabalhando em uma empresa e percebi que sem esta qualificação não conseguiria fazer carreira. Optei por voltar a morar com a minha família enquanto tenho esta oportunidade de aprendizado. Mesmo sem pertencer ao grupo prioritário de atendimento do Pronatec, ele conseguiu a vaga, o que o motivou a tentar uma chance no curso de qualificação (FIC) de montador de veículos automotores. Cursando as duas modalidades oferecidas pelo programa, ele acredita que suas chances de inserção no mercado de trabalho aumentaram. Minha ideia inicial era me formar no técnico e voltar para São Paulo, agora, com o outro curso, sei que tenho chances de ser empregado por empresas daqui.
Conseguir emprego é o desejo da técnica em radiologia Márcia Vieira, 38 anos, também aluna do curso de montador de veículos automotores.Gosto mesmo da área mecânica. Após a formação, ela pretende se inscrever no curso para soldador. Quanto mais preparada, maiores são as chances no mercado de trabalho. Em busca de uma oportunidade, Jonathas Poggianella, 20 anos, está fazendo o terceiro curso no Senai. Já fiz mecânica industrial, usinagem mecânica e agora pintura industrial. Gosto desta área, quero fazer carreira. Por conta do bom desempenho, o jovem foi selecionado para participar da Olimpíada do Conhecimento do Senai, que será realizada em Belo Horizonte. Se vencer, ele irá representar Minas Gerais na etapa nacional.
O diretor do Senai CDIT Dr. Luiz Adelar Scheuer, unidade em que os três alunos estudam, Ricardo Aloysio e Silva, afirma que os dados de empregabilidade são ainda muito insipientes, mas que há conhecimento de profissionais formados nos cursos do Pronatec que conseguiram emprego na Mercedes-Benz. O diretor de Recursos Humanos da empresa, Newton Ricardo Lino, confirmou a informação. Até hoje, já contratamos 70 alunos do programa. É uma oportunidade muito boa para nós, pois resolve a dificuldade de contratação que a indústria vive hoje. Os profissionais que chegam para nós estão qualificados e muito bem treinados.
Segundo a SDS, além da Mercedes, Inusa, Codeme, Almaviva e Brasil Center também aproveitam a mão de obra formada pelo Pronatec.











