Município na mira de empresas de TI

Incubada no Critt, a Aprimorar Desenvolvimento emprega 16 profissionais
Juiz de Fora está na mira de grandes empresas do setor de tecnologia de informação (TI). Embora não se posicione oficialmente sobre o assunto, a Stefanini, considerada um dos mais importantes provedores globais de soluções em TI, teria o projeto de implantar na cidade uma fábrica de software que pode empregar cerca de 200 pessoas. Recentemente, a empresa confirmou a criação de um Centro Tecnológico para Indústria, Mineração e Siderurgia em Belo Horizonte. Outra grande no setor, a CPM Braxis, uma das líderes globais em soluções de tecnologia da informação, também estaria de olho no mercado juiz-forano. Apesar das especulações do mercado, a CPM não confirmou oficialmente a informação.
Com a perspectiva de crescer 10% ao ano até 2014 e investir US$ 143,8 bilhões em 2012, o setor de TI reúne cerca de 1,2 milhão de profissionais no país. O salário médio destes empregados é de R$ 2.950. Em Juiz de Fora, apesar de os trabalhadores receberem até 20% menos (R$ 2.360), ainda representa 75% do vencimento médio dos demais trabalhadores na cidade: R$ 1.346,96. O faturamento do setor, no ano passado, atingiu a cifra de US$ 85 bilhões, conforme dados de consultoria especializada Gartner, Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) e Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Na falta de dados municipais, sobram indicadores da expansão do mercado juiz-forano. A TI é uma das áreas vocacionadas do Parque Científico e Tecnológico de Juiz de Fora e Região, conforme estudo de viabilidade econômica realizado para o espaço. Além disso, 70% das empresas que graduaram no Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (Critt) atuam no segmento. Juntas, criaram mais de cem empregos diretos e, pelo menos, 90% continuam ativas no mercado.
A Prefeitura estuda a possibilidade de estimular a instalação de fábricas de softwares em Juiz de Fora, a partir da redução do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, André Zuchi, afirmou à Tribuna que analisa a queda da alíquota, hoje de 5%, sem, no entanto, ferir a lei de responsabilidade fiscal. Até agora, afirma, já foi procurado por quatro grandes empresas do ramo interessadas em investir na cidade. A grande maioria para atender os negócios já sediados e os que estão por vir. Estamos trabalhando para equiparar os incentivos concedidos em outros estados, como São Paulo.
O interesse, segundo Zuchi, é motivado pelo fato de estas empresas serem intensivas em mão de obra qualificada, estimulando a criação de empregos e a retenção destes profissionais. Uma das possibilidades cogitadas é que a alíquota decresça quanto maior o número de oportunidades de trabalho.
Os estudos começaram no meio do ano.Estamos na fase de ver os impactos. As condições diferenciadas podem ser estendidas aos empresários locais, já sediados. Estou muito otimista.
Retenção de profissionais é desafio para JF
Para o subsecretário de TI, Marcos Kopschitz, um termômetro do aquecimento do mercado juiz-forano é a dificuldade para reter profissionais. Desde 2009, quando foi criada a pasta, Kopschitz teve que repor metade da equipe em função da saída por demanda de mercado. Os motivos de migração são aprovação em concurso público e melhor remuneração oferecida pela iniciativa privada. Hoje, a Prefeitura mantém cerca de 50 funcionários na área. Na sua avaliação, os profissionais saem da faculdade com bom preparo. Não acho que os cursos daqui fiquem a dever. Não temos nenhuma dificuldade em relação à formação. Nossa dificuldade é reter o pessoal.
O subsecretário identifica a chegada de empresas de TI na cidade, não necessariamente para atender o mercado juiz-forano. Entre os atrativos para instalação de fábricas de software estão localização estratégica e estoque de mão de obra em potencial, em função da vasta oferta de cursos universitários. Qualquer lugar se beneficia com a possível atração deste tipo de negócio. Ele destaca o fato de ser uma atividade limpa em termos ambientais, que gera produto intelectual, atual e que usa tecnologia de ponta. A TI está sempre ligada a centros importantes de produção e pesquisa.
Tendência
O secretário de Desenvolvimento Tecnológico da UFJF, Paulo Nepomuceno, identifica o crescimento do setor na região, seguindo tendência nacional. De acordo com ele, o primeiro estudo de viabilidade econômica do Parque Tecnológico apontou áreas de vocação para o município, como leite e derivados, biotecnologia, eletroeletrônica, saúde humana e animal, além da tecnologia da informação e comunicação. Além disso, programas executados pela UFJF na área de inovação, com destaque para o Programa de Incentivo à Inovação, mostraram e confirmaram esta vocação.
Segundo Nepomuceno, não é possível afirmar quantas empresas e postos de trabalho podem ser criados com o empreendimento, já que a pesquisa de mercado e os plano de negócios estão em elaboração. Nossa experiência aponta uma grande vantagem para a atração de empresas neste segmento, já que a região é um polo de formação de mão de obra na área, possuindo cursos de graduação e pós-graduação e cursos técnicos de prestígio. Na sua opinião, mais importante do que atrair empresas é incentivar os alunos a abrirem seus próprios negócios em TI. Isso sim pode mudar o perfil da região.
Empresas buscam profissionais nas faculdades
O coordenador do Curso de Bacharelado em Sistemas de Informação, Tarcísio de Souza Lima, também professor do Departamento de Ciência da Computação da UFJF, identifica o chamado apagão profissional na área de TI. O déficit estimado hoje é de 70 mil profissionais no país. É nossa tarefa tentar diminuir este número, incentivando a maior procura pelos cursos e a redução da evasão. Tarcísio elogia as matrizes curriculares dos cursos superiores da região, que, na sua opinião, formam bons profissionais, mas pondera que ainda existe lacuna entre a formação universitária, considerada de excelência, e as necessidades do mercado. Ele defende a integração de faculdades e empresas na elaboração das grades curriculares para aprimorar a formação dos alunos e facilitar o direcionamento para o mercado de trabalho.
Na avaliação do coordenador de curso, a área de TI ainda é tímida na região, mas com forte tendência de seguir o cenário brasileiro como terceiro setor que mais crescerá em 2012. A cidade e a região estão atentas ao valor desta transformação. Na sua opinião, o mercado é subaproveitado em Juiz de Fora, mas não só na cidade. Nossas empresas ainda não estão devidamente preparadas para o crescimento das mídias sociais aplicadas aos negócios, apesar do envolvimento cada vez maior de redes dando suporte a vendas e clientes e de ofertas e promoções em sites de compras coletivas. Para ele, as empresas precisam investir em infraestrutura tecnológica e estimular a inovação.
O coordenador do Curso de Bacharelado em Sistemas da Informação do Centro de Ensino Superior (CES), Marco Antônio Pereira Araújo, identifica a chegada de empresas vindas de grande centros, principalmente Rio de Janeiro, com dificuldades de conseguir mão de obra especializada. Isso é ótimo para a cidade, uma vez que muitos egressos de cursos de graduação da cidade tinham que ir para grandes centros para terem boas oportunidades profissionais e de crescimento na carreira. O coordenador exemplifica que, hoje, não é possível atender a demanda de estágios com os estudantes do CES, uma vez que são muitas oportunidades e os alunos, em grande parte, já estão alocados nas empresas da cidade, inclusive como funcionários antes mesmo de se formar. Marco Antônio destaca as constantes atualizações no currículo do curso e a interação com empresários, verificando suas necessidades e fortalecendo o curso naquilo que o mercado está necessitando no momento.
Na sua opinião, o mercado para profissionais de TI em Juiz de Fora é amplo e promissor. Sistemas de informação é uma área meio, ou seja, os profissionais atuam nos mais diversos setores da economia, amplamente informatizados. Existe um número gigantesco de oportunidades. Temos recebido empresas em busca de talentos ainda nos bancos da faculdade.
Negócios locais aguardam incentivos
Se zerasse o ISS, eu contrataria três funcionários hoje, afirma o diretor administrativo da Handcom, Gustavo Pinto de Oliveira. A empresa juiz-forana atua há onze anos no mercado, mantém 30 funcionários e 28 clientes, sendo dez da cidade. A maior parte do faturamento (80%) vem de empresas situadas em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Na avaliação de Gustavo, a política de atração deve ser acompanhada pelo incentivo aos negócios locais. Se a condição diferenciada não for oferecida, avalia, a tendência é de quebradeira. Não tenho condições de competir com uma empresa de mil funcionários. Ela vai dobrar o salário dos meus profissionais e eles vão embora mesmo.
A necessidade de mão de obra hoje é tão grande, avalia, que contrata-se qualquer um que tenha alguma experiência. Na Handcom, por exemplo, o funcionário recebe treinamento e só participa de um projeto se tiver condições de atuar nele. Para Gustavo, o graduado tem condições de trabalhar no mercado. Faltam, no entanto, cursos tecnológicos para complementar a formação. Para o diretor administrativo, as empresas da cidade ainda investem pouco em TI, mesmo as de grande porte. Muitas têm dificuldade de enxergar que precisam investir em tecnologia. O empresário vai gastar um dinheiro, que não é pouco, mas isso vai trazer retorno. Preferem não investir, ficando às cegas e tendo prejuízo. Para ele, os resultados práticos do investimento em TI são ganhos em automatização, agilidade e melhoria de processos, redução de perdas, diminuição de erros e elevação dos rendimentos.
O sócio diretor da Aprimorar Desenvolvimento, Tiago Gouvêa, também considera incentivos fiscais bem-vindos. A empresa, incubada no Critt, existe há três anos, tem 16 funcionários e 90 clientes, a maioria da cidade. Na sua opinião, ainda há resistência por parte do empresariado em investir no setor. Tiago aprova a chegada de grandes empresas à cidade, mas teme a escassez de mão de obra. Para cada cem currículos recebidos, apenas um entra, dimensiona. Além do domínio de inglês, o diretor destaca a importância da iniciativa própria pelo aprendizado contínuo, características raras no mercado, considera.
Treinamento
A gerente de recursos humanos da Uptodate, Natália Perez, acredita que a mão de obra caminha para o desenvolvimento, mas, devido ao mercado regional crescente, a tendência é que não supra toda a demanda. A empresa de consultoria em implementação de sistemas, de acordo com a gerente, não consegue encontrar localmente profissionais prontos, e investe em treinamento. A empresa mantém mais de 150 profissionais, divididos entre São Paulo, Juiz de Fora e Fortaleza. Natália destaca que o mercado juiz-forano é promissor. As oportunidades são grandes, mas os desafios também. O setor vem acelerando seu desenvolvimento, pois cresce o numero de empresas que estão se instalando na cidade.









